Custo das mercadorias vendidas

Enquanto aguardavam a carga ser colocada no barco, e o processo de liberação, o grupo entrava no começo da aprendizagem sobre seu novo instrumento de trabalho. O barco é conectado no sistema Trovão de origem Beruana. Seus satélites transmitem dados de forma unidirecional para receptores autorizados. Embora os satélites possam ser acessados indistintamente, o Trovão é direcionado. Ele utiliza o sistema KuKaX de rádio frequência, mais lento, mas efetivo para dados de navegação e pequenas mensagens encriptadas.
Onachinia reconhece a carga, o navio, e a autorização tanto no Consórcio como na Aliança do Leste, organizada pela Armada, Onachinia, Fáscia e Jangunaray. A viagem é autorizada, e o barco identificado. A carga rotulada.
Sem mais nada, depois de algumas horas o barco está pronto para zarpar, e a equipe de terra simplesmente recolhe seus veículos e luzes de sinalização, e o trabalho está feito. Nada de protocolo, saudações ou desejos de boa viagem. Como diriam os locais em Jangunaray, boa viagem não é um desejo, é uma obrigação de eficiência.
A primeira parte da viagem é a mais perigosa. Carcará e Sajó iriam fazer o primeiro processo de saída do mar de Jangunaray, com Malek e Karak observando. O processo requer mais do que simples proza náutica.
Primeiro, o barco deve aquecer e preparar os dutos de vapor e as turbinas supercríticas temperando rapidamente os dutos para que não expandam violentamente e tornem-se mais fracos. O aquecimento vagaroso é feito enquanto a embarcação usa os motores simples para entrar nas correntes da costa, utilizando os blocos profundos dos penhascos subaquáticos para manobrar na direção correta para menos resistência de saída.
A costa de Jangunaray é uma prisão para barcos fracos. A razão que acreditam que os primeiros Harata que ali chegaram ficaram presos e tornaram-se os Anoa.
Uma vez que os dutos de vapor crítico estão temperados e operando em temperatura ideal, e a proa direcionada, o barulho dos motores elétricos criando RPM de saída era mais sentido nos próprios ossos da tripulação como se o ar ao redor vibrasse do que o barulho do ar entre as bobinas.
Apesar da força de empuxo absurda que era feita, o barco estava movimentando a uma velocidade relativamente baixa, tentando vencer a corrente na saída da proteção da costa de Jangunaray. Era o momento crucial onde qualquer problema de integridade do casco ou encaixe de partes poderia dividir o convés ao meio.
A marcha seguiu levando a embarcação para um ponto já longe de costa, onde o Mar do Sul já é mais gentil, e os motores mais potentes são postos em meia potência, subindo as velas como contraponto, até que a velocidade mantenha-se a planejada, por qualquer proporção de motores, velas e turbinas.
Uma vez em cruzeiro, eles teriam muitas horas até dar a volta larga pela costa, evitando as correntes que iriam puxar o barco de volta a Jangunaray. Era inevitável um arco de centenas de quilômetros a mais do que o caminho geograficamente mais curto se ignoradas as correntes.
— Esse não é um mar para iniciantes. — Sajó disse tirando as coberturas dos circulares de ar.
— Não somos iniciantes, meu amigo. — Malek disse tentando ajudá-lo.
— Cruzando esses mares? São menos que iniciantes. São riscos calculados. — O Aborada riu-se.
Carcará estava ajustando as luzes de sinalização, mas deu uma pequena risada. Sua forma de configurar as luzes no painel, criando indicadores para proa, popa, estibordo bombordo demonstrava uma experiência que já era memória muscular. Ele era alguém que fazia aquilo há muito tempo.
— Qual é a história do bonitão ali? — Karak perguntou para Sajó.
— Não sei. Ele está em Jangunaray desde jovem. Ele é de uma Ilha fluvial em Pasvara, na boca do deserto. Bastardo, literalmente de certo, filho de Sangamani e Onatra. — Sajó disse trazendo as lonas para um baú no convés.
— Sangamani e Onatra? Difícil de acreditar. — Malek adicionou cético.
— Olha a cara do infeliz! O pai e mãe vieram com ele. Onatra esquentado, morreu quando chegou, envenenado pela própria estupidez. A mãe, também não se deu muito bem. Acabou do mesmo jeito. O garoto foi esperto, se fez valioso, foi recrutado pelo Grupo ao invés de ser expulso. — Sajó parou, olhando o mestiço terminando o trabalho no painel frontal.
Conforme o barco entrava costa à dentro, Barisi e Lateral acompanharam Sajó para entender sua função na sala de máquinas.
Malek com uma certa relutância coordenava com Carcará o trabalho dentro da ponte, com navegação e comunicação.
Raila e Karak mantinham um silêncio estratégico na plataforma de comando, observando o mestiço e o Harata aprendendo os instrumentos ali.
A Sangamani foi a primeira a quebrar o silêncio, falando com calma no seu tom sobre o Franci puxado. Franci já era um idioma de retalhos, resultado de uma convivência forçada de muitas linguagens, mas Sangamani falando era um dialeto por si só.
— É errado. Sangamani, Onatra, é errado. Ele é produto de algo mal feito. — Raila disse, com uma expressão azeda.
— Pasvara tem seus mestiços Harata Sangamani não tão raros, qual é o problema? — Karak retrucou.
— Nossos povos tem culturas compatíveis, razões para conviver, exilados Sangamani, Harata convive bem com todo mundo que interessa. — Raila ponderou.
— Nunca vi um mestiço Onatra Harata também. Tem razão. — Karak ponderou.
— Mestiço Onatra com qualquer povo é sempre resultado de um erro de juízo de um dos dois. — Raila disse com o desdém à flor da pele.
— E o que você sugere, 'Imediata'? — Karak disse com um sorriso curto.
— Deixados madurar, os problemas apodrecem. — Raila levantou o cinco de espadas. — E esse vai apodrecer rápido.
— Traição? Não parece lógico. Estamos todos sob ordens, porque nos preocuparíamos? Saída pela tangente funcionou da última vez, não funcionou?
— As vezes vencer é recuar, realmente. Reforça que estejamos preparados para isso. — Raila deixou a carta sobre o painel à frente deles. — Mas, uma vitória vazia não é uma vitória de conquista.
O momento passou sem muito mais palavras, todos ainda ocupados aprendendo suas funções, mas Karak manteve sua atenção no problema em mãos. Raila causando fraturas internas para ganhar com o caos era a razão exata que eles estavam vivos, e seus antigos parceiros não.