Longe da Fáscia, e das pequenas coisas da vida doméstica, os jogos de poder de Ealetra seguiam, e nem mesmo Rentaniel estava livre deles o atropelarem. E um desses jogos tinha uma rodada classificatória bem ali na Trifronteira.
Na terra destruída que era a divisão norte, ainda com os restos da tomada da Cidade da Serenidade, a fria realidade varrida pelo vento da desolação abatia as tendas e abrigos rústicos onde o que restava de diplomacia de Tirayon acontecia.
Ali existia o Círculo de Confiança. Círculos eram subdivisões da política de Tirayon, menores que cidades com certa autonomia para lidar com tarefas administrativas. O Círculo de Confiança era o que lidava com a comunicações como mundo externo pela Trifronteira, o que em geral era 'barganhar com os Harata'.
Neste dia, para um certo desconforto, Sorya, a representante Silvani, viu que um oficial da Federação, em vez do mediador Harata habitual, liderava o lado do consórcio.
A ausência de uma presença Harata na reunião pareceu a Sorya um insulto deliberado, um desvendar silencioso dos frágeis acordos que mantinham sua paz instável. Seus aguçados olhos verdes varreram a sala, mas não havia mediadores da Cabeça, o governo Harata, nenhuma figura envolta no pragmatismo sedoso da diplomacia deles. Apenas a fria disciplina da Armada se postava diante dela.
Sua voz, afiada como ferro, cortou o silêncio da tenda.
— O que significa isso? Vamos ser invadidos? Fomos embargados? — Ela não conseguia manter o Onatri direito tal sua raiva.
O oficial à cabeceira da mesa não se levantou para encontrar seu olhar, nem se moveu. Ele simplesmente exalou, como se tolerasse um acesso de raiva previsível.
— Controle-se Silvani. Tenha decoro. É uma questão prática. — O oficial disse com um tom protocolar, e isento.
No entanto, ele não ocupou o assento do negociador.
Sorya cruzou os braços, sua postura rígida como as raízes de pedra de Tirayon.
— Isso você diz. Entretanto as disposições eram claras. Uma presença Harata em todas as reuniões não era um pedido, era um condição.
O oficial não ofereceu uma resposta. Seu ponto pessoal informava por auricular que sua presença já não era mais necessária.
Ele levantou a mão em um sinal de espera, e levantou-se ao lado da porta do pequeno Yurt que abrigava a reunião.
Uma figura entrava com dificuldade pela porta estreita do que para ela seria uma 'tendinha', ainda terminando instruções para quem estava de fora.
Assim que entrou, Svetlana ordenou ao oficial dentro que saísse e guardasse o exterior.
Svetlana, moveu-se para dentro da sala com a força deliberada de alguém que nunca se curvou à conveniência de outrem. Ela ajustou sua postura para navegar pelo espaço construído aqueles muito menores que ela. Sua veste protocolar tornava o movimento pesado, mas ela carregava a certeza inabalável de uma arma viva.
Quando finalmente se endireitou, sua presença preencheu o espaço, inflexível, imóvel.
Ela olhou Sorya por um instante, e então com um Onatri tradicional, firme e batido, como se cada palavra fosse uma ordem, seguiu um protocolo conhecido.
— Sou a General Svetlana Sedova. — Ela fez uma pausa esperando Sorya tomar compostura. — E também sou uma Juíza do Consórcio.
A expressão de Sorya escureceu.
— O protocolo é explícito. Mediadores Harata eram uma exigência do nosso povo.
Svetlana não discutiu. Não explicou. Não justificou. Em vez disso, ela avançou, tomou a cadeira do negociador sem hesitação e colocou um serial selado diante de Sorya.
Um único movimento. Uma declaração por si só.
Sorya hesitou, vagarosamente removeu os selos e trouxe o serial para seu ponto pessoal. Ela movia os olhos de forma inquietante. Seus olhos foram os que traíram sua surpresa.
Svetlana seguia olhando para ela como se seus olhos azuis fossem pistolas apontadas para a Silvani.
Quando finalmente falou, sua voz era baixa, tensa.
— Ela ainda está com ele?
A expressão de Svetlana permaneceu indecifrável, mas havia algo à espreita sob a superfície. Algo diferente do protocolo da Armada, isso era certeza.
— Ela faz parte de um time de elite do Grêmio. — Svetlana disse com o triunfo exalando por sua pele clara.
— Você quer dizer que a Grande Mãe da Fáscia não apresentou objeções? — Sorya tinha o tom de quem viu um fantasma.
— Silvani, você tem os dados. — Svetlana apontou para o serial.
A General inclinou-se um pouco mais para a frente, como se fosse compartilhar um segredo, ou uma ameaça.
— Se quer saber detalhes ex oficio. Ela está na Fáscia agora mesmo, com o irmão, e o líder deles é um Agente Classe Distinta da Lâmina e 'legado' da própria Audren. — Svetlana disse como se fosse uma ameaça, que de fato, poderia ser.
O peso dessa revelação pairou sobre a sala como uma névoa sufocante.
Sorya zombou, sua expressão se contorcendo em desprezo.
— Tenho certeza que deve estar sendo mantida sob vigilância e presa em qualquer esconderijo secreto na Fáscia. Como um cachorro de caça. — Sorya disse retraindo-se na cadeira.
— Conhecendo Mestre Valaravas como eu conheço, ela deve estar sendo muito bem tratada. — Svetlana disse com sarcasmo claro. — Mas pode estar sendo mantida sob um tipo de vigilância, talvez.
Svetlana fez uma pausa para efeito dramático.
— Ela foi solicitada por nome. Pelo líder. E o habeas dela foi carimbado pela Casa de Seldanar. Esse nível de endosso não é para qualquer um. Acredito que nem você você poderia ter. — Svetlana sorriu, com um certo decoro.
— Isso não muda nada. — Sorya tentou jogar.
— Muda. Diz que estamos preparados para o futuro. Vocês estão?
A mudança em seu tom foi quase imperceptível, mas o desafio era claro. Seu punho bateu na mesa, firme, mas controlado.
Os olhos de Sorya piscaram com fúria contida.
— É diferente, ela não é do nosso povo. Ela é apenas uma Silvani, e pelo que sabemos, uma traidora. — Sorya insistiu.
Os lábios de Svetlana se contraíram, a sombra de um sorriso ameaçando se formar.
— Isso é muita audácia, vindo da mensageira dos traidores que assinaram sua traição em um documento, cujo original está em minha mesa no Khara.
A compostura de Sorya vacilou.
— Meu nome é Svetlana 'Tarasovna' Sedova. Você conhece a cultura do meu povo, sabe o que isso significa. Eu não tenho idade para lembrar disso, mas eu tenho certeza que você tem nos seus registros aí como vocês vieram para nós pedindo ajuda. Sua cidade nos deve o lugar que tem. Você sabe que outrossim, seus pais teriam morrido sem a chance cuspir você no mundo.
O sorriso de Svetlana finalmente rompeu.
— Vocês só traíram seu povo quando lhes era conveniente. Estavam tranquilos quando a Cidade da Serenidade foi caçada e morta, muito antes de nós tomarmos aquela terra e liberar entre outros, ela.
— E vocês queimaram a fronteira, até hoje com os pedaços de todas as coisas e pessoas que seu fogo do inferno queimou. Nós sabemos o custo do nosso sacrifício. — Sorya disse já quebrando a voz.
A diversão de Svetlana desapareceu. A conversa estava mudando. Serpenteando por sangue antigo, fogo antigo, coisas que nenhuma delas poderia desfazer. Ela exalou, endireitando a postura, transferindo o peso de sua autoridade para algo mais pesado.
— Essa conversa não nos leva à nada. Os fatos na mesa não os seguintes: Vocês não estão em posição posição de fazer exigências. Tenho oficiais questionando por que não simplesmente marchamos para o norte e os ‘integramos’ da mesma forma que integramos a Trifronteira.
Sorya estremeceu, apenas ligeiramente, mas Svetlana percebeu.
— Estou aqui para dizer nossas condições para que sua nação siga existindo. E é controlar seus 'súditos' para que não causem problemas fora das suas bordas. — Svetlana fez uma pausa para deixar a mensagem clara. — Caso contrário, será Maz Ynis que irá resolver a situação, definitivamente.
— Onatra sendo Onatra. — Sorya praguejou. — E nos dirá também como controlar nosso povo, suponho.
Svetlana inclinou a cabeça como dizendo que não seria má ideia.
A general então empurrou outro serial para Sorya com um brasão familiar a ela.
A Silvani teve um momento para processar o que ele dizia, ouvindo as falas, lendo os dados, e revendo para ter certeza.
— O filho de Audren? — Sorya tinha genuína surpresa nos olhos. — A mãe sabe disso.
— A Fáscia não se importa com o que acontece fora da Fáscia. A Armada talvez se importe o suficiente para impedir que ele faça o que quer. Somos nós que lidamos com vocês em nossas fronteiras, não eles.
— Ele não recuará, até mesmo Khadija o protegerá.
Svetlana inclinou-se, apoiando os cotovelos, como se pensando, não em algo, mas como dizer algo que já sabia.
— Ninguém o protegerá quando ele colocar em risco o coração de um Harata. Você, eu e toda a Ealetra sabemos disso. Ninguém quer uma guerra com eles, e eles fariam uma guerra por um deles. — Svetlana disse, sem o tom protocolar.
Ela deixou as palavras pairarem entre elas, sabendo muito bem o peso que carregavam.
O olhar de Sorya escureceu.
— E por que deveríamos acreditar que vocês, Onatra, manterão sua palavra conosco, ao invés de com Khadija?
Svetlana não respondeu. Não imediatamente. Em vez disso, ela chamou o ponto, e deu um comando. O oficial na porta entrou meio corpo.
— General? — A voz do oficial era incerta.
— Perímetro 10. Acelerado. — Svetlana disse com finalidade usando o tom de voz de comando peculiar do Onatra que tem poder.
O oficial hesitou, depois obedeceu, retirando-se. O ar mudou quando o último deles desapareceu por trás das abas da entrada. Agora, eram apenas as duas.
Sem uma palavra, Svetlana enfiou a mão na farda e produziu dois pequenos frascos, cada um contendo um líquido amarelado viscoso. Ela os colocou na mesa entre elas, o vidro capturando a luz fraca das lanternas.
A respiração de Sorya engasgou.
— Você só pode estar brincando. Não é possível, não uma General Onatra. Isso é completamente fora de questão. — Sorya tinha a voz tensa.
Svetlana chegou-se mais perto de Sorya.
— Apenas tome e tenha a resposta que deseja, mais verdadeira que qualquer palavra. — Svetlana disse fluentemente em Silvani.
Sorya hesitou, depois, com lenta deliberação, pegou o frasco. Svetlana fez o mesmo.
Svetlana tomou a sua dose, e agarrou a mão de Sorya como se estivesse começando uma queda de braço.
Sorya titubeou por um instante e então tomou a sua dose.
A Qachruna desceu por suas gargantas, amarga e pesada.
A realidade se fragmentou.
O mundo ao redor delas se dissolveu em nada, substituído pelo abismo do Plano Vazio, onde apenas suas formas espectrais permaneceram. Dois ecos luminosos suspensos em um mar infinito de nada.
A dose era pequena, pequena demais para uma exploração verdadeira, mas foi o suficiente.
Sorya mal teve tempo de se preparar antes que a impressão a atingisse como um golpe silencioso e invisível.
Sua respiração ficou presa na garganta. Seu corpo, mesmo nesta forma efêmera, tremeu.
Svetlana carregava o dom da Cidade da Sabedoria Silvani impresso em sua forma espectral, o dom dos Nobres da Sabedoria, não a sua versão impressa em uma simples caminhada, mas a versão compartilhada por extensiva prática por anos. Algo que nenhum Silvani jamais teria compartilhado em caminhada com qualquer um. E na mais remota possibilidade, certamente não com um Oficial da Armada. E ainda que fosse possível, já que isso só pode ser feito por vontade própria, não seria alguém da Cidade da Sabedoria, que abomina essa prática como herética, da mesma forma que a cidade da Crianção.
O pânico percorreu Sorya, selvagem e implacável. Ela se apressou em tentar sair do transe, arranhar seu caminho de volta ao mundo desperto antes que o peso da verdade a esmagasse por completo.
A Qachruna diminuiu. O mundo retornou em uma onda vertiginosa. O yurt, a mesa, o brilho fraco da lanterna. O silêncio entre elas era ensurdecedor.
Sorya inspirou com dificuldade. Suas mãos tremiam ao se apoiarem na superfície de madeira, como se para se ancorar na realidade.
— Isso não sai desta sala. — Svetlana tinha praticamente sangue nos olhos. — Se você contar a qualquer outra pessoa entre seu povo, eles podem fazer algo imprudente. E nem mesmo eu serei capaz de impedir meu povo de matar até o último de vocês.
As sombras em seu olhar escureceram.
— Se você contar a qualquer outra pessoa... eles não acreditarão em você. — Sua voz baixou, quase a um sussurro. — E eu pessoalmente a matarei com minhas próprias mãos. Porque eu saberei.
Svetlana ergueu um dedo, apenas um pouco, mas a intenção por trás dele era clara.
Sorya engoliu em seco. Sua voz estava mais baixa agora, com um toque de aceitação relutante.
— Me certificarei pessoalmente que o governo tome as medidas necessárias para que nosso povo controle os nossos. Mas peço que certifique-se de que este Urbani não ameace nosso povo. É o acordo que temos, entendo. — Sorya estava completamente rendida.
Svetlana endireitou-se, ajustando os fechos de suas manoplas com facilidade casual.
— Desde que vocês cooperem, não tem nada a temer. Mesmo os Harata não vão querer que isso exploda nas mãos deles. — Svetlana sorriu. — E nem Ariel.
— Farei o que for possível, mas Ariel complica as coisas para certos círculos em Tirayon.
Svetlana deu um aceno displicente, já se levantando de seu assento.
— Isso é um problema seu. Quando a ela. Ela está bem cuidada. Tenho certeza.
Havia algo em seu tom, algo pontiagudo.
— Como assim? — Sorya preocupou-se.
— Bem cuidada. Nível 'Jantares caros no mezanino do maior clube Harata na Trifronteira' bem cuidada. Ta'khame original de Tirayon bem cuidada. Passagem de primeira classe no Verme bem cuidada. Não duvido que outros níveis de bom cuidado tem sido dispensados à ela.
Ela se virou em direção à entrada, passando pelo limiar. Então, como um pensamento posterior se formando, ela deu meio passou atrás.
— E pelo que conheço do Mestre Valaravas, e o conheço bem, tudo com muito carinho.
Uma pausa dramática deliberada para que as implicações se assentassem, e ela continuou.
— E literalmente com um toque pessoal.
Sua risada soou, demorando apenas o suficiente para garantir que Sorya entendesse. Uma general da Armada não lida com fofocas, ela lida com implicações e ameaças veladas. Mas Svetlana não é só uma General, ela é também uma estrategista que sabe que há um ponto comum entre elas que nenhuma etnia ou cultura mudará: São mulheres.
Sorya cerrou a mandíbula, sua mente correndo à frente. Uma Silvani e um Harata? Se houvesse intimidade, se houvesse caminhada íntima. Se Ariel caminhasse constantemente, com um Harata, que é Legado Urbani, da linhagem de Audren. Era uma implicação grande demais para ela sozinha.
A delegação da Armada partiu, movendo-se para o leste.
Svetlana pode ter feito um estrago maior que todo o Maz Ynis que Tirayon recebeu durante a Guerra. E o pior era que o estrago desse encontro não poderia ser reformado com dinheiro Harata ou trabalho Beruano. Era cultural na essência do povo Silvani.