Convidados

Svetlana postava-se no limiar do poder da Federação, o portão atrás dela um monumento de metal, pedra e disciplina. A dúvida ficara para trás, e deveria haver uma razão para estarem ali sem ser apenas dizer oi.
Valaravas avançou com a naturalidade de um velho conhecido, sua postura relaxada, quase divertida. Tarja o seguiu, mas onde a abordagem dele era fácil, a dela era reverente, como se entrasse na presença de uma lenda. Os Silvani mantiveram distância, a cautela gravada em cada movimento, seus instintos alertando-os de que o poder, por mais bem-educado que fosse, ainda era poder.
Nandi seguia Valaravas, como sempre, sem a menor cerimônia.
Eles saíram do carro que seguia com seus pertences para dentro da fortaleza. De alguma forma era necessário que passassem pelo portão pessoalmente, ou que vissem Svetlana controlando sua entrada. Qualquer que fosse a razão, eles eram todos convidados ali, e em Erítria, como os Erítrios.
A medida que a rampa de acesso ao Zhefaq os aproximava da entrada, a tensão dos Silvani aumentava. Não era apenas a presença da General. Mais perto da muralha, e mais perto do portal, eles podiam ver os canhões de supressão Rij Ynis. Era uma tecnologia que Ariel conhecia em rifles, mas ali em tamanho veicular. Um tiro de Rij Ynis pode ser contido por blindagem, mas a onda de choque de sua explosão não pode ser negada. Além disso, eles já podiam notar dentro do Zhefaq as frotas de veículos e maquinas de guerra que estavam ali, prontas para passar por cima de qualquer coisa que Tirayon pudesse jogar sobre eles.
Ariel e Erlan estavam vagarosamente atrás, como se seu lugar ainda não estivesse decidido, como se pudessem permanecer invisíveis se apenas ficassem nas sombras por mais um momento.
Tarja e Valaravas se viraram, instintivamente, para ver Erlan e Ariel hesitarem.
Os lábios de Svetlana mal se moveram, mas houve uma mudança em seu semblante, não exatamente um sorriso, mas o mais próximo que eles poderiam esperar. Triunfo, talvez. Ou diversão. Ou algo de tudo isso misturado.
— Bem-vindo ao Zhefaq, Mestre Valaravas. — disse a general, olhar fixo nele. — Essa é 'ela'? Boa escolha.
Tarja sentiu um nó na garganta. A General Svetlana Sedova, em pessoa, se referindo a ela como se estivesse esperando sua chegada, em um posto avançado da Armada, nada menos que o Zhefaq.
Valaravas moveu-se com graça, teatral, mergulhando em uma reverência ampla, zombeteira, mas precisa. Sabia elaborar o papel para o público alvo. O jogo havia começado.
— Esta é Tarja, Padeira de Pães, Carregadora de Barris, Quebradora de Bêbados, Baluarte do Grêmio. Protetora de Magenta. — Valaravas gesticulou com um floreio alardeado. — Esta é Svetlana, General da Federação, Comandante do Khara, Comandante da Falange, e Açoite dos Oficiais em Combate. Esqueci alguma coisa? Difícil acompanhar seus títulos, minha Senhora.
Tarja inspirou, firmando-se, o peso da presença de Svetlana pressionando-a.
— Mestre ... não ... Senhora ... ahm ... General. — Sua voz estava firme, embora houvesse um tremor logo abaixo dela. — É uma honra.
Ela tentou ser discreta, mas estava obviamente absorvendo tudo, a postura, a presença, o poder que Svetlana exalava sem esforço.
Svetlana, por sua vez, a avaliou. Da cabeça aos pés, não como um comandante avaliando um recruta, mas como um militar medindo outro militar em formação.
Comparativamente, Tarja ainda era crua. Forte, sim. Endurecida, sim. Mas o refinamento, o controle, a precisão absoluta de alguém como Svetlana, isso era algo que Tarja estava apenas começando a compreender. Mas com o tempo, com treinamento, ela poderia se tornar isso.
Svetlana deixou a pausa se prolongar antes de assentir, a mais tênue aprovação deslizando em seu tom. Seu Onatri formal e duro, que para sua cultura compartilhada, iria dizer a Tarja de um respeito que os Harata estavam longe de compreender.
— Bem-vinda ao Zhefaq, Mestre Tarja. — Svetlana disse com ar amigável. — Boa escolha de Baluarte, Mestre Valaravas. Vejo um futuro promissor. Ela parece ser natural.
Os Silvani moveram-se cautelosamente pelos portões, seus olhos se deslocando para os guardas, fortemente armados, altamente disciplinados, estacionados sob pontos de vigia imponentes projetados para controle absoluto. Estes não eram soldados comuns. Suas armaduras e armas tinham semelhanças com os destacamentos de laceradores Urbani, sua mera presença um lembrete de que este não era um lugar para desrespeitar ou desafiar.
Agora eles e Tarja podiam ver o que é um Baluarte da Armada. De frente para o interior do Zhefaq, viam nas portas as armaduras azuis que pareciam estar postas em estátuas, não em seres humanos. Eram formidáveis, e tão posturados que nem o reflexo do sol em suas armaduras se mexia. Aquele Baluarte provavelmente poderia se interpor frente ao veículo que vieram e ter uma certeza de que o veículo perderia um confronto.
Enquanto Tarja seguia mesmerizada, os Silvani seguiam cautelosos.
Svetlana mal lhes lançou um olhar. Seu foco permaneceu em Valaravas.
"Bem-vindos ao Zhefaq. Silvani."
Ela não virou a cabeça. Não levantou a voz. As palavras foram ditas de forma seca, sem malícia, sem ameaça. Ela sabia que eles entendem Onatri. Ela sabia quem eram. Mas isso não devia transparecer. Ainda não.
— Enquanto forem o coração de um Harata, desse Harata, vocês são bem-vindos em Zhefaq.
Não era gentileza. Era um acordo.
Silvani eram, na melhor das hipóteses, um degrau acima de escravos aos olhos da Federação. Estavam sendo permitidos a entrar por causa dele. E não era uma concessão de Svetlana. Mesmo que ela fosse contra, poderes acima dos dela urgiam a armada a cuidar do coração de um Harata.
Enquanto passavam, o olhar de Svetlana se voltou para Ariel. Um olhar que durou um suspiro a mais do que o necessário. Avaliando sem cerimônia não a Silvani, mas a única condição sob a qual a Onatra poderia considerá-las na mesma categoria: a Feminilidade. Era uma comparação da qual a general certamente faria um jogo, mais tarde. Quando a oportunidade se apresentasse.
Ayla tivera uma razão, precedera Svetlana na vida de Valaravas por um longo tempo. Ariel era nova e ainda podia ser posta de lado, com o empurrão certo.
Ayla se portava de maneira distinta, se comportava de uma forma diferente, mais complacente com a autoridade, operava na mesma frequência social que os Onatra. Ariel por outro lado tinha um fogo interior, uma chama que Ayla não tinha. Havia algo em Ariel que Svetlana não conseguia entender, e isso entre participantes do jogo mais alto era perigoso.
Ariel por sua vez também via em Svetlana algo que não podia entender por baixo de toda a pompa Onatra. Sua autoridade não vinha das filas e da hierarquia, mas uma autoridade que emanava da pessoa que teria tal autoridade fosse quem fosse. A diferença era que Ariel não se considerava uma participante do jogo mais alto, ainda.
Svetlana desconsiderou Ariel tão rápido quanto outra figura chamou aquele seu lado com mais intensidade. Ela olhou para Nandi.
— Bem-vinda ao Zhefaq. — Svetlana disse sem qualquer alteração.
Svetlana sabia quem era Nandi no contexto de Valaravas, claro. Ela era uma presença já muito antiga na vida do Harata. Mesmo Ayla a conhecia. O problema de Svetlana não era a presença de Nandi, mas a posição estratégica que uma Sangamani estava ocupando.
Mas por hora, ela estava ali, sem peso, sem implicação, sem significado particular. Apenas palavras. Uma formalidade. Nandi era completamente fora do entendimento de Svetlana, e assim, não podia nem mesmo provocar alguma reação. Svetlana nem sabia em qual categoria, e se do todo, Nandi fazia parte do jogo.
E com isso, eles passaram pelos portões, marchando em direção ao Salão do Grêmio no Zhefaq, onde o que quer que os aguardasse já havia sido decidido.