Controladoria

As nações de Ealetra aprenderam a ser monolíticas por uma razão prática: Guerra.
A Federação Erítria nasceu de um povo que era constantemente assaltado pelos Silvani em sua borda, e tomaram lições dos Beruanos em como falar, como guerrear, como se organizar.
Os Beruanos mantêm sua forma nômade e sua hegemonia tecnológica desde que foram forçados a abandonar o Vale do Silício na antiguidade, começando por selvagens territoriais até sua moderna forma parcialmente confederada de ser.
Khadija é uma dissidência Silvani formada pela revolta contra os princípios extremistas de seu povo, que é um dos mais antigos de Ealetra, e provavelmente um dos mais tradicionais até sua completa desintegração como cultura.
Se Ravantes tivesse nascido em qualquer desses povos, e fosse tão diferente do normal como é diferente dos Harata, ele não teria nenhuma chance de ser integrado, ou de se fazer parte de sua gente. Se um acadêmico da Fáscia fizesse um estudo, talvez encontrasse que Ravantes carrega um gene recessivo, ou algum tipo de diferença estrutural que originou a mudança dos Harata para tornarem-se Anoa.
Ravantes é um Harata, e como tal, tem todas considerações de seu povo, que integra qualquer um desde que seja Harata. Mas nascer de pais também considerados Harata e ter sido criado na creche aloparental de sua gente. Em muitos outros aspectos, Ravantes difere de seu povo, radicalmente.
Seu dia começava como de todos Harata, com alguns exercícios, meditação nos princípios da Alquimia Universal e higiene mental. Uma vez concluído o ritual, sua parada era o Média Ponderada onde estivesse, Fáscia, Jangunaray, ou agora, Suyantara Leste.
Seu desjejum era café apimentado estilo Harata, com manteiga de cabra e especiarias, na areia quente para manter a temperatura.
— De que forma podemos comparar isso com as informações locais? — Ravantes perguntou a Zamani.
— Claramente é um padrão. O fluxo mantêm uma diferença constante, como se acompanhassem os movimentos comerciais de Vila Pequena. — Zamani respondeu apontando o dispositivo.
— Temos que verificar se estão registrados também com as autoridades locais. Mesmo que os barcos estejam, a carga também deve estar, sob outra denominação. A Razão não precisa desses dados, mas o porto de Onachinia, esse controla. — Ravantes disse voltando ao seu café.
— Será complicado, não temos contatos ali suficientes. — Zamani disse com cuidado.
Ravantes procurou o olhar de Zamani, e como os Harata normalmente fazem, fechou o foco da mulher em seu olhar, trazendo-a a ouvir. Mas ao contrário do Harata usual, ele não motivou-a, não trouxe-a a manifestar seus desejos internos.
Ao invés disso, ela sentiu, a futilidade de tudo aquilo. Ela não tinha escolha, e portanto era o que deveria ser feito. Se ela não fosse capaz, alguém seria, ou ela faria, ou acharia quem fizesse, porque de outra forma, ele acharia quem o fizesse.
Ao relaxar Zamani de seu olhar com um gesto de mão, Ravantes voltou ao seu dispositivo e seu café, cuidando de outros assuntos.
Zamani, com um senso de propósito e a consciência de que era inevitável seguir o plano, retirou-se.
[Reunião de Acompanhamento: Escritório do Média Ponderada]
Ravantes enviou a mensagem para Karak, terminando seu café e seguindo para a sala do escritório ali mesmo no segundo andar.
Karak recebeu a mensagem ele mesmo terminando seu desjejum na vila. Ele olhou para Raila que já calculava o que esperava. Mesmo que Ravantes já soubesse tudo que os dados revelaram, havia medidas a serem tomadas.
Muito como o Cântaro, o Média Ponderada tinha o andar abaixo onde comida e ingredientes poderiam ser comprados, pequenas refeições poderiam ser apreciadas, e negócios gerais poderiam ser feitos. Era no segundo andar, porém, que estavam as salas de reuniões e os escritórios em que Ravantes realmente tratava as coisas importantes.
Karak entrou e subiu orientado pelos funcionários do lugar, chegando a sala de Ravantes, que sem qualquer formalidade já o indicou a sentar-se.
— Um dos nossos contratos extinguiu-se, e a pasta será passada a você, caro amigo. Responsabilidades vem com uma conta UMRV e fundos mais generosos para o seu empreendimento. Agora passa a ser uma companhia de fato. Nessa pasta, fundos serão enviados e você pagará seu pessoal como achar melhor. — Ravantes disse entregando um serial dos fundos Luar.
— Contrato? Extinguiu-se? — Karak recebeu o serial confuso.
— Você passou tanto tempo longe que esqueceu seu povo? Não temos herança. Contratos passam para quem está em posição de receber, ou vence todos os outros que estão. Esse, então, é seu agora. — Ravantes riu-se.
— Entendo. E o contrato é exatamente? — Karak perguntou já sincronizando seu ponto pessoal.
— Temos acordos internacionais, os Fundos Luar, com diversas nações. Onachinia e nossas indústrias, Jangunaray e nossas pesquisas, a Fáscia e nossas comunidades. Mas aqui, essa comunidade é de Jangunaray, é solo deles. — Ravantes disse entregando mais seriais. — Seu pessoal. Precisam de mais liberdade.
— Capitania de terra? Por Jangunaray? Eles não parecem muito interessados em expandir seus territórios. — Karak disse recolhendo os seriais em seu bolso.
— Eles podem não estar, mas estão interessados em UMRV, e eu estou interessado em expandir. — Ravantes riu-se. — Temos que ir atrás de uma parcela maior de participação. Garoana está muito confortável. Demais pra cometer erros. Grande demais para quebrar.
— Não iria simplesmente os contratos dela passarem para outros?
— Talvez, mas ela tento o poder na Cabeça, pode forçar um estrago grande se não pudermos vetar.
— E isso tem a ver com a frota fantasma que identificamos nos portos, usando Onachinia como ponte para o Vale? — Karak perguntou puxando o dispositivo que Ravantes havia dado.
— Exatamente. Sempre soube que você era um bom capitão, meu amigo.
Ravantes chamou alguém pelo intercomunicador antes de levantar-se para o mapa pendurado na parede. Era papel, era decorativo, mas para um Harata, a realidade é um instrumento de persuasão, e nem sempre a tecnologia faz o trabalho melhor.
— Onachinia, é fechada do Vale pela Federação Erítria e a Fáscia, que mantêm uma vigilância total sem uma borda efetiva entre o Vale e a Confederação Carpata. — Ravantes apontou a estreita faixa de terra que a Federação controla bloqueando Onachinia do Vale.
— Porém — Ravantes seguiu — Não existe verificação do que entra por Onachinia se é autorizado pela Fáscia, entrando mais livremente em Erítria, e em consequência no Vale.
— Não é dos Fundos Luar a comunidade Harata na Fáscia? — Karak retrucou.
— É, mas esses carregamentos são autorizados por Khadija, não pela Fáscia, considerados autorizados porque tecnicamente a Fáscia é um protetorado de Khadija. — Ravantes seguiu. — Uma situação que está sendo forçada, mas temos pouco progresso.
— Como assim? — Karak estava surpreso.
— Khadija está sendo forçada a tomar seu lugar em Pasvara, perdendo força em Erítria, e consequentemente em Onachinia. A Fáscia porém ainda precisa muito mais trabalho para oficialmente estar completamente independente, mesmo que os Harata dos Fundos Luar não sejam subalternos à Confiança de Angaraya, A Fáscia é em Khadija, e através disso, Garoana exerce poder sobre as terras de Luar, pelo menos aqui. — Ravantes disse apontando o mapa.
— Por isso Luar se meteu no caso de Rentaniel? — Karak cruzou os braços.
— O principal motivo foi Nushala, mas tecnicamente, Valaravas é um Harata da Fáscia, voto de Luar, e conta muito. — Ravantes sorriu.
— E Tegravas? Ele está forçando os Fáscia na Trifronteira, em Zhefaq. Não era pra ser seu território?
— Enquanto ele não se intrometer nos meus objetivos, pode seguir os dele como quiser. — Ravantes disse com tom fatos na mesa.
— E onde eu entro nisso?
— A Sutay será promovida a um navio de bandeira Jangunaray, operando com autoridade de governo, não mais como parte do Grupo Somnikan. Ela representa Jangunaray para a Aliança e o Consórcio, e representa os Fundos Luar para os Harata, e você é o Agente da Lâmina à frente dos agentes destacados para Luar. Nossos votos adicionais com essa prefeitura garantiram um substancial aumento.
— E isso significa muito mais trabalho, e muito mais olhos na Sutay, em nós. — Karak disse olhando pela sala.
Ravantes percebeu o progresso de sua conversa, buscando uma jarra de água na sala adjacente. O Harata, que não era adepto de formalidades, serviu ele mesmo um copo de água à Karak, sem relegar a tarefa a um empregado. Talvez uma despreocupação, ou talvez um gesto. Talvez uma alegoria ao fato de que ele iria ajudar Karak com o que quer que dissesse em seguida.
— Como sua estatura na organização sugere, é óbvio que maior exposição não virá sem garantias. Qualquer intervenção indevida do Cântaro, de Angaraya, ou mesmo de um de seus associados será levada à Cabeça para julgamento. — Ravantes disse retornando à sua cadeira.
— O nosso objetivo então seria eliminar a influência indevida sobre o território de Luar, sem criar um entrave direto, forçando Garoana a abdicar dessa 'via' ? — Karak concluiu.
— Mais do que isso, meu caro amigo. De certa forma, vamos declarar a independência da Fáscia. — Ravantes riu-se.
— Khadija não vai deixar isso pra lá.
— Creio que já tenha ouvido falar de Dukhovne, não? Um dos nossos está em Zhefaq, outro em Karaya. O Khara tem pouco amor por Khadija. — Ravantes disse com um tom fatos na mesa. — Estimular Audren com poder não vai ser complicado. Se ela se achar invencível, ela mesma tem pouco amor pelas irmãs.
— E se Khadija decidir forçar a Fáscia ao invés de ir pelo Consórcio?
— Então, teremos que hospedar um outro Seldanar em Luar para uma conversa. — Ravantes riu-se, recostando em sua cadeira.