O Cântaro Dourado é um lugar especial. Lá,
alguns outros Silvani além de Ariel e Erlan eram vistos com frequência, e
os funcionários do estabelecimento eram menos urgentes em demonstrar
seu descontentamento por eles. Ali trabalhavam apenas Harata, como na
maioria dos negócios que tinham donos Harata.
Era ali que os
irmãos encontravam comida barata e um cubículo para dormir que era um luxo perto de
outros na mesma faixa de preço. E para os Silvani, preço era o primeiro
problema.
O lado de entretenimento do Cântaro Dourado é um
lugar dinâmico. Enquanto eles estavam restritos ao salão geral e aos
produtos genéricos, gente de várias castas comerciais Harata e
visitantes Beruanos, bem como a elite Urbani, estavam em mesas no
mezanino. Ali, belos rapazes e moças Harata mantinham seus copos cheios e
sorrisos largos, felizes e gastando, atendendo a todos os seus desejos,
às vezes superando em número os clientes na razão de três para um.
O
Cântaro Dourado, como todo estabelecimento de propriedade Harata, não
tolera violência que afete os negócios. E os Harata não tem um governo
como os Carpata ou os Onatra. Ao invés disso eles tem instituições que
fazem a função de Legislativo e Judiciário, e o executivo fica por conta
dos Barões Harata. O judiciário Harata é conhecido como "A Lâmina", e
além de outras coisas, garante que a economia funcione em segurança e
que as leis de propriedade sejam respeitadas. Em todos os
estabelecimentos espera-se que agentes da Lâmina estejam observando, das
sombras, das câmeras, das mesas disfarçados, em todo lugar, e em lugar
nenhum.
Ariel e Erlan caminhavam pelo salão com uma aparência
de calma e familiaridade. Uma clara incerteza ou excessiva prudência
marcariam os recém-chegados, presas fáceis para os aproveitadores que
ali se concentram.
Qualquer Harata porém era sempre tratado
como parte da família. Não é fácil saber a qual conglomerado ou
interesse aquele indivíduo pertence.
Os Silvani caminhavam
pelo salão térreo do Cântaro como por um campo minado, sempre procurado
as mesas mais afastadas e mais escuras, longe de qualquer caminho ou de
qualquer conversa que poderia transformar-se em uma desculpa para
humilhação.
No Cântaro, os Harata propositalmente criavam
ambientes onde mesas estavam mais escuras e menos acomodativas para uns,
com a finalidade de criar uma divisão espacial entre seus clientes.
Isso também facilitava aos atendentes saberem quem eles estavam
atendendo. Mesas escuras e periféricas muito provavelmente tinham
clientes menos afluentes de origem Silvani.
Bem no fundo do
salão, Ariel já começava o trabalho de contar os seriais e planejar os
gastos até o próximo contrato. Mas o dinheiro usualmente não seguia o
aumentar dos gastos. O rifle que ela usava antes foi vendido para
comprar um outro mais barato e a diferença pagar o sustento. As adagas
tradicionais que Erlan tanto gostava vendidas em outro momento por
outras baratas e a diferença cobrir a comida de mais outros dias.
Enquanto
Ariel fazia suas contas, Erlan observava o movimento. Sua amargura
direcionada aos que culpava pela sua situação. Ele não entendia o
processo da Guerra, e acreditava que o Consórcio foi criado para tomar
as terras de Tirayon, crença cuja Trifronteira era a prova.
Ele
observava como um garoto Harata que talvez nem fosse adulto ainda
entrava seguido de uma Major Onatra, quase o dobro do tamanho dele,
uniforme impecável, o andar de uma biologia selecionada para o combate e
a laceração, e ali, servindo de escolta como se aquele fosse um dos
Generais de sua gente.
— Ruminando suas neuras ou gostou da
mulher? Muita areia pro seu caminhão, irmãozinho. — Ariel disse com um
misto meio escárnio, meio cansaço.
— Isso é errado irmã. Eles usam aquele vudu Harata, e todo mundo fica babando. — Erlan respondeu com a voz azeda.
Ariel balançou a cabeça e voltou para suas contas e notas.
Para
Ariel e Erlan, era outra forma de provocação étnica, uma que afetava
especialmente Erlan, o mais ligado ao legado Silvani. Ele nutria uma
desconfiança preconceituosa de qualquer coisa Harata, assumindo que tudo
que fazem tem uma motivação imperialista e doutrinadora.Ariel era mais aberta a uma visão mais natural dos Harata. Eles eram um povo que começou como uma sociedade exclusivamente portuária e marítima, e seus costumes alinham-se com aquilo. Eles não tinha a consciência de posse e fronteiras que o "povo de terra firme" desenvolveu pela história.
Como
se para provocar o irmão, Ariel chamou a atenção de Erlan que a dupla
que ele observada antes agora estava quase ali onde estavam.
O
salão era grande e concentrava o calor das unidades de aquecimento, dos
fornos na cozinha, e das várias maneiras necessárias para manter as
bebidas quentes naquela noite. O deserto ao sul da Trifronteira
rivalizava com os picos do norte no frio da noite. Das sacadas, os
convidados ilustres podiam observar a ação abaixo, mas raramente se
davam conta deles, geralmente fechando grandes negócios ou tramando
grandes golpes.O Cântaro Dourado era um lugar onde a elite no mezanino terceirizava seus serviços mais viscerais para os caçadores e mercenários que se acotovelavam no térreo pelas sobras dos contratos.
Erlan
tomou um gole de vinho, seus olhos vagueando pelo salão sem muito
propósito, até que algo o fez parar. Uma mulher atravessou o salão como
se o Cântaro fosse sua própria casa, cada gesto transmitindo uma
familiaridade rara naquele lugar. Simples, jovial, mas segura, portanto,
intrigante. Ainda assim, ela não perturbou o fluxo do salão de forma
alguma, exceto pelo reconhecimento de Erlan de sua origem: Harata.
A
mulher apoiou-se no balcão como se o lugar a implorasse para fazê-lo.
Sua pele cor de canela, queimada de sol, e o cabelo preto natural,
brilhando à luz ambiente, separavam-na dos ocupantes do térreo. Seu
corpo esguio, resultado de uma genética aprimorada para sedução, mas
robusto, preparado para o combate ágil, tornava sua presença marcante,
mas transitória, do tipo que causa impressão quando está lá, mas não
deixa rastros na memória quando parte.
— Irmã, a estrela chegou, não vai lá pedir um autógrafo?
Ariel
não desviou o olhar de sua tarefa, os dedos movendo-se com destreza
enquanto considerava os créditos de mercado paralelo que os Onatra
pagaram.
— Estrela eu não sei. Mas os Harata tem os contratos
mais caros. Se quisermos ultrapassar as dívidas, são eles, não a Armada,
que vão nos permitir.
— Há duas ameaças no mundo. O perigo
que nos intimida, e o perigo que nos engana. Harata tem os dois ao mesmo
tempo. — Erlan retrucou.
Ariel não respondeu, concentrada no que fazia.
— Por mais que você conte, o resultado vai ser sempre o mesmo irmã.
— Mais um motivo para trabalhar para os Harata, irmão.
— Eles não têm princípios ou valores morais. Eles tem "lucro presumido". — Erlan disse rindo.
Ariel
parou por um breve momento, depois fechou o punho em torno do mísero
punhado de seriais de crédito, deixando seu peso falar por si só.— E nós? Nosso dinheiro que é só presunção.
O
tom que Ariel usou não dizia nada, apenas chamava para a necessidade de
ação. Seus dedos se afrouxaram, os seriais caindo de volta na mesa,
todos que conseguiram naquela quinzena, e mal dava para manutenção de
suas armas e acessórios.
Erlan não discutiu mais. Não havia muito sentido quando a verdade estava exposta diante dele.Enquanto a indignação de Erlan é cultural, a de Ariel é pessoal. Família é para ela um assunto muito mais emocional. Vinte e tantos anos, ela estaria próxima de constituir sua família e seguir o destino que seria seu, caso sua sociedade não tivesse sido exterminada. Observar os Harata, e sua familiaridade, mesmo quando sem nenhum laço sanguíneo, é uma dor muito distinta da que Erlan, e seus 20 anos sem a maturidade justa, jamais entenderia.
Ariel sentia ali a falta de algo que não saberia definir, porque nem mesmo os Urbani comportam-se como os Silvani culturalmente eram educados a ser. Todo o tipo de relação interpessoal que Ariel pode ver entre os outros naquele lugar de entretenimento foge ao que ela é capaz de entender, mas ainda assim, toca em algo que ela é capaz de sentir, mas incapaz de explicar.
A cultura Silvani era adepta de
relações arranjadas entre pessoas por suas posições, e por suas
famílias. A família era um processo de tempo em que a função vinha
primeiro e o sentimento depois. Ela nunca aprendeu nada a respeito de
uma vida fora da sua cultura, e sem nenhum tipo de referência.
Os
Harata não tinham casamento, famílias, sobrenomes, e nem mesmo algum
tipo de patrimônio familiar. Os Barões tinham coisas, negócios, e em
suas terras os outros Harata viviam, e suas crianças eram criadas por
pessoas que criavam crianças todas ao mesmo tempo em suas vilas. Muitos
nem mesmo sabiam quem eram seus pais.
Ariel nem conseguia
começar a entender como as terras e posses mudavam entre pessoas, e como
funcionava algum tipo de família entre eles.
Uma coisa era bem clara para Ariel: Apesar
de trabalharem por anos para a base Onatra, aquela Tenente que
desfilara como um ícone acompanhada do ídolo Harata nunca iria nem
considerar sua presença, mais do que consideraria os cães de guarda de
sua repartição.
Os exilados são tolerados e trabalham para humanos
por falta de opção. Eles encontraram nos inimigos de seu povo uma
segurança de que ninguém os perseguirá uma vez que sejam refugiados de
uma guerra que nem mesmo entendem. E isso tem que ser suficiente.