Contos do Cântaro

Elmund retornou à sua mesa com movimentos rígidos, seu orgulho ferido mal disfarçado sob uma máscara de indiferença. Ele afundou em seu assento em frente a Tagravas, o comerciante observando-o com a diversão tranquila de um homem que já vira tais infortúnios se desenrolarem vezes demais para contar.
Tagravas não era um comerciante comum, era um dos proprietários mais ricos do Cântaro Dourado, um homem que entendia o poder da riqueza tanto quanto o peso da influência. Ele tolerava a presença de Elmund por uma única razão: a moral do Urbani era tão flexível quanto a moeda que a acinzentava. Em troca, Elmund tinha permissão para beber vinhos finos e desfrutar da companhia de encantadoras garotas Harata, sua indulgência comprada a um preço que ele era míope demais para realmente medir.
— Eu te avisei Elmund. Harata não é Urbani. Não se meta com nossa família. — Tegravas falava entre gargalhadas sem cerimônia, que suas garotas acompanhavam com um sorriso. — Especialmente meu garoto. Valaravas traz mais lucro pro Cântaro do que uma semana de renda do negócio. Nem você deveria ser tão estúpido, meu amigo.
O lábio de Elmund se curvou, seus dedos tamborilando irritadamente contra a mesa.
— Khadija, seus nobres. Fáscia, seus nobres. Vocês e suas famílias. — Elmund refletia, como um bêbado, mas refletia. — Mas nós lutamos contra eles. Selvageria deles. E agora eles sentam lá? Oferecendo-se aos nosso? Isso não está certo.
Tagravas soltou uma risada lenta, girando o vinho em sua taça antes de tomar um gole. Até as garotas estavam perplexas, entendendo mais do jogo do que Elmund.
— Lembre-se, meu amigo. Um homem que se orgulha do que não é, depende do que não tem. — Tegravas tentou falar sério, mas a risada escapou tão logo ele falou.
— Fácil para você dizer, seu porco rico.
Tegravas pegou um punhado de castanhas, e enquanto comia, nem se preocupou em falar de boca cheia.
— Entre os Harata, porco não é um insulto. Ser um bêbado estúpido, porém, é um insulto para todos os povos, acredito. O Coração de um Harata pode ser de nobre ou mendigo, Urbani, Onatra, até Silvani. Não importa. O coração de um Harata protegemos como se fosse Harata.
— As vezes me perguntou porque o meu povo tolera o seu, velho. — Elmund disse diminuído em seu banco.
— Seu povo não nos tolera, caro amigo. Seu povo se esconde atrás de nós. Justo como você está agora se escondendo dele atrás de mim.
Elmund se enrijeceu.
— Isso vai mudar velho. — Elmund disse com um triunfo melancólico. — A Armada vai se cansar dos seus excessos.
Tegravas riu-se, olhando para as anfitriãs Harata ali os cercando. Elas assentiram rindo, seja por concordar, ou porque ele era Tegravas, segue provando o argumento do velho Harata.
— Não acredito nisso. A Armada se esconde atrás de nós também. E você deveria se lembrar disso, se é que quer viver mais do que eu. Se não fosse por nós, não haveria lugar onde você se esconderia do coração partido de um Harata.
No andar térreo do Cântaro Dourado, Melica esperava ansiosa, seus dedos traçando ociosamente a borda de sua taça enquanto observava a entrada. Seu contato da marinha estava para chegar em breve. Apesar do abismo entre os Onatra e os Harata, duas culturas tão diferentes quanto poderiam ser.
Mas a mesma familiaridade descontraída que Svetlana demonstrava por Valaravas, Andrei demonstrava por Melica.
— Seu primo trouxe a bonequinha dele pra um jantar refinado. Ele mesmo dessa vez. — Zavandras disse de trás do bar, seu tom divertido. — Acho que ela gosta mais do toque dele.
Melica mal reagiu, erguendo sua bebida em um lento redemoinho.
— Eu só esquentei o motorzinho dela. Ela sempre foi dele. Não é meu tipo, você sabe.
— Ah sim, o seu tipo é 'Urso Polar Medonho'!
Melica riu-se com um divertimento suave.
— Não é nada disso Zava. Andrei é meu pai Onatra. Ele esteve lá quando eu precisei. Não tem maldade.
Zavandras olhou de soslaio para ela.
— Você e aquela piranha maluca que colocaram com ele. Acho que ele adota só as doidas.
Melica deu um sorriso de gato.
— Danila? Ela é um amor. Você só diz isso porque ela é grandona e tem aquele andar Onatra. Mas ela é um doce.
— Por vezes eu me pergunto se você acha que eu sou burro o suficiente pra acreditar que você é tão inocente assim, ou se você é tão inocente assim.
Melica bateu o dedo na ponta do nariz de Zavandras.
— É por isso que eu sou assim, seu bobo.
Ela bateu duas vezes no balcão de madeira, e saiu.
O destino de Melica era encontrar Andrei, mas o destino de Andrei não era mais dele para decidir. Estava sendo moldado, torcido por forças muito além de seu controle. E longe daqui, na cidade da Vila do Luar, uma conversa se desenrolava, uma que teria consequências terríveis para a manutenção da boa saúde do capitão.
Melica não estava ainda envolvida, e assim andava tranquilamente até o porto, encontrar seu pai Onatra.