Contextualidade

A equipe permanecia em volta da mesa, o ar denso e Tarja era implacável, importunando Valaravas e Nandi com perguntas sobre o funcionamento do lugar, desvendando as camadas desconhecidas do mundo fora de Onachinia.
Erlan e Ariel, no entanto, encontravam-se menos encantados do que haviam imaginado. O dia com que sonharam, sentados nas varandas superiores de sua antiga base, parecia inesperadamente vazio.
Ariel, silenciosa por tempo demais, finalmente falou, sua voz cortando o murmúrio da taverna abaixo. Ela puxou todas as palavras que sabia falar para aquele momento.
— Ele estava certo, não estava? Você veio aqui para nos exibir.
A expressão de Valaravas permaneceu composta, seu charme natural intacto, embora sua voz fosse baixa, firme.
— Harata nunca mente. Sim, eu os trouxe aqui para exibi-los.
Erlan exalou bruscamente, balançando a cabeça.
Antes que Valaravas pudesse responder, Ariel se moveu. Com a agilidade Silvani, ela foi a distância entre eles em um instante, estendendo a mão sobre a mesa, seu movimento desarrumando tudo em seu caminho.
— E o que quer fazer? Afirmar poder? Exibir sua boneca? Provocar os Urbani? — Ariel dizia, tremendo de raiva e angústia.
Erlan se mexeu, pronto para se levantar, mas antes que pudesse, o aperto firme de Tarja segurou seu ombro, firme, mas não rude. Ele se virou, surpreso. Ele não podia se levantar. Era como se seu corpo, sua coluna, não mais obedecessem.
— Calma aí garotão. O assunto é deles. Tem mais aí do que você imagina.
Dominando a técnica do bastião como base do baluarte. Tarja havia entendido, instintivamente, o poder de se posicionar por algo.
Nandi, silenciosa como sempre, apenas observava. Ela não precisava corrigir o curso do rio desta vez também.
Valaravas encontrou o olhar de Ariel, inabalável.
— Eu não posso te devolver sua família. Não posso te devolver o passado. Não posso te dar a vida que você perdeu.
Ariel quis desviar o olhar, mas não conseguiu. A voz dele a ancorava, como se algo invisível a mantivesse no lugar. Ela tinha que ouvir, tinha que entender e, acima de tudo, tinha que olhar em seus brilhantes olhos cor de mel, como se eles contivessem todas as respostas. Ela sabia o que ele estava fazendo, mas naquele ponto, nada mais importava.
— Mas, eu posso te dar outra coisa. Algo que você não deseja porque nem sabe que poderia ter. 
Ele se virou então, seus olhos encontrando os de Erlan. Por um momento, algo mudou. Uma sensação, familiar, mas distante, infiltrou-se na mente de Erlan. O mesmo sentimento que Karak uma vez instilara, a certeza de que Valaravas era seguro, que valia a pena ouvi-lo. Erlan reconheceu o efeito pelo que era, mas a razão de repente pareceu irrelevante. Suas emoções se acalmaram, suavizadas por algo intangível.
Então as mãos de Valaravas encontraram a cintura de Ariel. Seu toque não era firme, não era forçado, apenas o suficiente para colocá-la na posição correta, não só fisicamente, como mentalmente. Uma ponte de algo mais do que mero contato. Seu polegar roçou o tecido de seu cinto, empurrando-a gentilmente em direção à varanda interna. E então ela viu.
O salão abaixo, estendendo-se sob eles, o lugar para o qual ela passara anos olhando para cima, imaginando como seria vê-lo de cima. A multidão, os clientes, as mesmas pessoas que ela um dia pensou serem intocáveis.
— Eu posso lhe dar algo que não é só para você. Algo que sei que você merece, mas que toca mais fundo que só o seu coração.
Ariel cerrou a mandíbula. Ela queria protestar. Afastar-se, recusar o momento que ele estava lhe oferecendo. Mas então, um movimento chamou sua atenção.
Dois Silvani, parados no nível inferior, suas expressões mudando ao avistá-la.
Uma Silvani, lá em cima. Eles viram. Ao contrário de Ariel e Erlan, não precisavam se perguntar se era possível, ou se já havia acontecido, pois estavam vendo acontecer. Agora, para eles, aquela descrença se fora, e eles teriam esperança, eles sabem que é possível.
Os dois Silvani sorriram, inclinando a cabeça em deferência, não para Valaravas, não para os Harata. Para ela. Ela era agora o símbolo deles, a aspiração deles. Uma Silvani que venceu aquela batalha, aquela rodada do jogo. Uma Silvani que chegou lá.
Ariel congelou. Uma única lágrima traçou sua bochecha, embora ela mal tenha notado. Então, sem ser convidado, um sorriso pequeno e dolorido surgiu.
Ela se virou de volta para Valaravas, seus corpos próximos, seus olhos presos. Nenhuma palavra passou entre eles. O momento não exigia nenhuma.
Pela primeira vez, ela sentiu isso com ele. Sentiu que não estava sozinha buscando algo para si. Era ele com ela, buscando algo para ambos. Naquele momento, ela percebeu que, de fato, era isso, ela havia encontrado a maneira de preencher o vazio que o exílio há muito roía em sua alma.
Sua mente girou. E esse era o outro pensamento que também pairara na beira de sua consciência por tanto tempo, imaginando, questionando, conjecturando. Qual era o calor de um Harata. Desta vez, ela se permitiu pensar sobre isso, sobre ele. Estava se movendo e estava acontecendo. Ela se deixou ser guiada por ele e se preparou para experimentar algo que nunca tivera, como Silvani, como mulher.
O próprio Valaravas não percebeu isso, ou fingiu propositalmente não perceber. Ele pegou a mão dela e simplesmente a conduziu de volta à mesa.
Ela sentou-se ao lado de Erlan, compartilhando sua percepção sobre por que estavam ali. Omitindo, é claro, seus outros pensamentos sobre o momento.
Erlan entendeu aquela parte, o estar ali por causa de seu povo, por causa de uma demonstração de força, não por causa de Valaravas, mas deles. Para os Silvani saberem que ela estava lá, o exemplo de poder deles.
Era então lógico, para ambos os Silvani. Ele havia garantido a mesa, as bebidas e a comida de alta qualidade. Ele já tinha o poder. Ele enfrentou o Urbani e o mandou embora. Ele não ganhou nada com essa jogada, se alguma coisa, arriscou sua posição com ela.
Agora eles entendiam, era para eles. Estar no Cântaro, naquela mesa, naquela posição. Era para eles.
Erlan tentou iniciar um gesto para Valaravas, mas o Harata acenou simplesmente deixando no ar. Não era necessário, ele entendeu, como antes, que era da natureza deles reagir como reagiram, e sabia que não havia mal agouro restante. Tudo estava em paz.