Comunicação é a arma do negócio

Valaravas entendia que Ariel precisava de tempo para digerir a conversa, e decidiu apenas prosseguir o dia como se aquilo não estivesse pesando entre eles. Ela iria retornar ao assunto quando tivesse formulado uma nova forma de entender suas próprias dúvidas.
O resto do dia passou com cada um se integrando o mais que podiam na vida do Zhefaq. Aleksandr, o comandante, fazia tudo que podia para não estar no caminho de nenhum deles. Assim também eram quase todos os oficiais do posto.
O fato de que apenas os oficiais menos radicais estavam por perto, nos treinamentos, nas vias perto do residencial, isso ajudava a manterem-se distanciados.
A ordem de Svetlana sobre como tratá-los ajudava a evitar que descontentes fizessem algo estúpido.
A manhã seguinte era o fim daquela estadia, e o momento de seguir viagem.
— Que o sol invicto coroe o seu dia! — Valaravas fez um cumprimento floreado militar. — Em Erítria, como os Onatra!
Tarja inclinou a cabeça, reconhecendo a frase, mas incerta de seu significado completo. A fé Onatra era henoteísta, Sol Invicto, o sol eterno, reinava supremo, uma força inflexível acima de todas as coisas, enquanto a lua, pálida e distante, encarnava a Deusa, a sabedoria em sua forma fria e calculada. O sol queimava, comandava, guerreava. A lua observava, julgava, resistia.
— O que faremos então? — Tarja perguntou já prevendo o que viria.
— Teremos que investigar um templo no lado leste do Vale, e a melhor forma é seguir pelo Verme e subir pela fronteira entre Erítria e a Fáscia que sela o vale de Onachinia.
— E os Silvani estão preparados para o Vostochnaya Khara? — Tarja riu-se olhando para Erlan.
O Silvani cruzou os braços, sem se impressionar.
— E o que exatamente significa preparar-se? Já vimos essa base. O que pode ser mais que isso? — Ele indagava com indignação.
— Ele quer saber o que tem de especial no Khara? Pode? — Valaravas disse piscando para Tarja.
— Vamos deixar o Khara falar por si então. — Tarja disse cruzando os braços.
Ariel mal ouviu. A conversa que tiveram ainda se enrolava em seus pensamentos, persistindo em lugares que ela não queria. As respostas que arrancara de Valaravas não fizeram nada para acalmar sua inquietação. Se é que fizeram algo, apenas levantaram mais perguntas, do tipo que a corroíam, pressionando o fundo de sua mente mesmo agora, enquanto a luz da manhã se estendia sobre Zhefaq em faixas douradas.
Ao seu lado, Nandi parecia despreocupada. Ela já havia percorrido essa estrada antes. O nome Khara significava pouco para ela além de um ponto de passagem, um lugar para atravessar.
Erlan nunca havia se aventurado tão a leste em terras humanas. Ele ainda não entendia o que isso significava.
Eles se preparam, e o carro chegou para levá-los até a estação. Mas essa não era a estação que esperavam os Silvani. Ao invés de sair do Zhefaq, eles entraram ainda mais na fortaleza. Cruzando tecnicamente dentro da Federação Erítria, vindos da parte do Zhefaq que tecnicamente ainda é na Trifronteira.
Ao chegarem no ponto de partida, Valaravas e Nandi desceram, sem ir ver suas bagagens.
Tarja, já prevendo a situação esperou os Silvani.
— Eles vão fazer o despacho, creio. Sigamos para dentro. O elevador nos espera.
— Elevador? — Ariel e Erlan repetiram um para o outro.
Ao entrarem, Valaravas pressionou a palma no globo vermelho, e uma funcionária uniformizada com o vermelho escuro que identificava os Harata trabalhando nos trens de passageiros não tardou a chegar.
— Muito bem, sigam-me por gentileza. O processo de checagem começara logo.
A menina saiu após receber um serial de Valaravas. Eles seguiram até uma entrada diferente da dos outros passageiros.
Mais a frente eles entraram em uma sala, e havia um corredor estreito onde apenas uma pessoa por vez poderia passar. Sem as catracas individuais do lado mais popular, aquele era reservado aos convidados do Fundos Luar, e portanto com um maior senso de propriedade.
No fim do corredor uma sala espaçosa e aconchegante os esperava. Quatro anfitriãs Harata os serviram bebidas quentes, dado o frio que já estava se instalando. Esperavam a documentação necessária, já que sua viagem estava sendo preparada enquanto estavam ali esperando. 
Claro que seu preparativos, especialmente quando acelerados pelo serial que Valaravas entregou, viajariam antes deles. Os dados já viajavam para além do Khara, além das fortalezas da Federação.
Mecanismos invisíveis da guerra e da diplomacia se movendo como peças em um tabuleiro. E esses mecanismos eram informáticos, e viajavam na velocidade da luz. Deles eram clientes muitos poderes, e um deles era representado por seus oficiais, como Syvis.
Uma figura distinta entre a guarda real de Audren, ela era alta, mesmo para uma Urbani, sua presença imponente, seus movimentos disciplinados. Mais que sua disciplina, ela tinha a posição que tinha por sua lealdade.
Syvis não era apenas uma guerreira, mas era uma mão de confiança, a sombra que se movia onde a própria Audren não pisaria, a vontade que agia quando sua própria presença não era necessária. Poucos tinham essa confiança. Menos ainda a mantinham sem questionar.
Ela entrou na sala do trono com a confiança silenciosa de quem pertencia ali, seu olhar aguçado e inabalável, sua voz calma, firme.
— Grande Mãe, seu legado parte hoje de Zhefaq. — A Urbani tinha tranquilidade na voz.
Audren ergueu o olhar, sua expressão como raramente vista, olhos ativos, um azul que brilhava mais que o usual, sua mente já três passos à frente. Seja ele, ou o que ele representava, ela ansiava essa informação.
As palavras pairaram entre elas, insignificantes em sua simplicidade. No entanto, ambas sabiam que nada envolvendo Valaravas era apenas um movimento de um lugar para outro.
Audren inclinou-se ligeiramente para trás, os dedos batendo uma vez no braço de seu trono. A pergunta que ela fez foi quase ociosa, quase descuidada.
— Ao que parece, irão investigar um templo abandonado na borda do Vale, e seguir para a Fáscia.
A voz de Syvis carregava o peso da certeza, suas palavras entregues não com especulação, mas com a fria finalidade de um fato.
Audren não reagiu imediatamente, embora seus dedos tenham parado seus movimentos ociosos contra o braço do trono, a disciplina de Syvis impedindo o barulho das unhas de Audren de irritá-la. Em vez disso, ele a estudou com a paciência silenciosa de uma Urbani que passara anos demais ouvindo coisas que já havia previsto.
— E a relíquia? — Audren até inclinou-se ao falar. — Eles estão com elas?
— Uma delas já está no Khara, em poder dos Onatra. — Syvis disse com cuidado. — A outra eles carregam.
Um lampejo de pensamento passou pela expressão de Audren, mas desapareceu antes que pudesse se assentar. Se estava segura, haveria contingências para controlar os Onatra. Eles poderiam ser infiltrados. Uma operação discreta, um agente Urbani posicionado com precisão, poderia recuperá-la. Ou, no mínimo, confirmar sua segurança. Por enquanto, não era um problema. Mas Syvis ainda não havia terminado.
— Grande Mãe, dizem ... — Syvis diminuiu o tom — que ele está acompanhado de Silvani.
— Nossos? — Audren perguntou com alarme.
— Não, de Tirayon. Exilados da Trifronteira.
Isso, finalmente, fez Audren pausar. Ela se inclinou para a frente, os olhos se estreitando ligeiramente. Havia algo calculista em sua expressão, uma mudança silenciosa de foco.
— Quando você diz acompanhado, diz em missão? Ou eles estão pessoalmente? Ela é a mercenária da Armada?
— Grande Mãe, não tenho informação sobre a dinâmica deles. Ela é a caçadora da Armada, e junto está o irmão.
Audren considerou isso, seus lábios se separando ligeiramente em pensamento antes de se pressionarem mais uma vez. Se eles estavam juntos, todo esse tempo, mesmo quando ela não era necessária, outros desdobramentos poderiam ser esperados.
­— E ela o segue por vontade? Ela é livre para escolher? — Audren estava genuinamente preocupada.
— Grande Mãe ... ele é Harata. Ele é o seu Legado. — Syvis disse com um tom divertido mas formal.
Audren riu-se, como de si mesma.
— Ah sim, claro que segue. De livre vontade, de certa forma.
O momento se prolongou e, então, com um movimento de seus dedos, o assunto foi decidido.
— Certifique-se de que nada aconteça com ele, ou com ela. Limpe o caminho deles o quanto puder, até pessoalmente se necessário. — Audren disse com finalidade. — Eles devem chegar na Fáscia, juntos. Prepare a casa para recebê-la.
Syvis inclinou a cabeça em reconhecimento. Nenhuma outra palavra era necessária.
Com um pivô preciso, ela girou nos calcanhares e saiu da sala.
Atrás dela, Audren recostou-se mais uma vez, os dedos batendo ociosamente contra o braço do trono novamente. Seu sorriso era pequeno, pensativo.
— As vezes o sol brilha mais forte do que esperamos. — Audren murmurou para si mesma.
Syvis se moveu com propósito.
Os seguidores de Rentaniel. Esse era o próximo passo. Syvis acreditava que se ele soubesse da presença dos Silvani perto de Valaravas, não permitiria por muito tempo. Ele era cauteloso. Cauteloso demais. O que significava que ele faria seu movimento em breve.
A melhor abordagem era se mover primeiro.
Syvis também era tempestiva em suas resoluções. Passado o tempo de decisão, inexoravelmente era o tempo de ação.
Ao passar pelo distrito do mercado, a cidade pulsava com a energia do comércio do meio-dia. Mercadores anunciavam suas mercadorias, vozes se elevando acima do barulho geral, seus discursos ensaiados se misturando ao caos do comércio. Um mar de corpos se movia em constante movimento, alguns com propósito, outros simplesmente existindo no ritmo perpétuo do coração da capital.
Syvis mal olhou para eles. Ela sabia onde precisava estar.
E então, como esperava, eles a encontraram.
Um jovem mercador Harata entrou perfeitamente em seu caminho, acompanhando seu passo sem hesitação.
“Senhora! Senhora!”, disse ele, alto o suficiente para a multidão ao redor ouvir. “Alguém roubou minha barraca! Ele foi por ali!”
Sua mão gesticulou em direção a um beco mais isolado, sua voz uma mistura perfeita de urgência e irritação.
Syvis não parou de andar.
Ao chegarem em um ponto mais reservado, o garoto entregou um serial para ela, e separaram-se.
Quando Syvis voltou para seu carro, ela pode verificar o que estava no serial. Já haviam dados concretos sobre as movimentações de Rentaniel e seus conspiradores. Ravantes também já havia preparado o pacote de informações sobre os desenvolvimentos em Luar. Ao que parece, a Armada também já estava preocupada com a outra ponta dos esquemas de Rentaniel: Os Anoa que ele pensava serem piratas.