A manhã não chega em Jangunaray como chega em qualquer lugar de Ealetra. Expressões como clarear o dia, os primeiros raios de sol, ou o brilho de um novo dia, elas são estranhas para o povo dessa terra.
Era uma convenção entre aqueles que ali vivem que um determinado momento é dia. Uma que serve apenas como sincronismo com o resto daquela particular longitude. Aquele era um dos muitos 'dias' que serviriam para o grupo acostumar-se com aquela dinâmica.
Karak foi o primeiro a emergir para o convés. Como todo Harata, seu dia começa com algum exercício. Uma forma de tomar o dia que seguira. Ali, entretanto, isso era difícil. O céu poderia distinguir-se do que é noite para um nativo, mas para ele, era como acordar no meio da noite, quando o sono escapa. Seu próprio corpo não respondia como de costume, ainda revoltando-se ao aquecimento do despertar.
Malek seguiu, caminhando vagarosamente para o convés, incerto de como orientar-se pelos dias em Jangunaray. Os dois Harata estavam contemplando tudo que ainda esperava ser descoberto, habituado. Ali em silêncio eles concluíam que seria uma longa aclimatação.
Sajó demonstrou o contraste do costume. Ele simplesmente acordou, e com a força do hábito apenas emergiu das entranhas do barco, olhou os Harata por uma fração de segundo, e seguiu para o galpão mais diante, onde a comida estaria esperando.
Lateral apareceu no convés ainda sem reparar muito no que estava acontecendo. A simplicidade com que sua mente trabalhava nem mesmo fazia caso do fato que não havia sol. Ele apenas acenou e procurou juntar-se aos que conhecia.
Barisi e Raila surgiram logo depois para a surpresa de Malek e a felicidade de Lateral.
— Estamos todos novamente! — Lateral disse com sua usual honestidade quase infantil.
— Estamos. — Raila disse com uma certa simpatia que nutria pelo Onatra.
— Estamos? — Malek murmurou para Karak.
— Estamos. É o mais sensato. Não vamos chegar muito longe tendo que fazer os mesmos esforços individualmente.
— Ela não está usando o seu acesso à gente importante para o próprio benefício? — Malek perguntou em Harata.
— Nazgahavi! — Karak respondeu.
— Nazgahavi! — Malek ecoou.
— Vamos ver o que esse pessoal chama de comida? — Lateral disse já saindo.
Os outros saíram junto, mais conveniente do que começar uma discussão que levaria algum tempo.
O galpão era longe do conforto do Média Ponderada, mas a comida era bem feita, se excessivamente local. A comida era basicamente os mesmos fungos e caldos já conhecidos, e diversos tipos de crustáceos encontrados logo ali na costa.
A quantidade de comida nos pratos dos locais era notável. Mesmo que gostassem do sabor e da textura da comida, o grupo não chegaria nem perto do tanto de comida que todos os locais estavam escavando ali.
Barisi e Raila pareciam muito mais à vontade com a comida. Lateral estava como sempre estava, encarando tudo com uma simplicidade inocente. Ele não tinha o filtro que aquilo deveria ser estranho por alguma razão, então era apenas diferente.
Malek e Karak como Harata comem pouco como cultura, mas ali era mais raro encontrarem o tipo de sabor e condimentos de sua preferência.
A quantidade e variedade de fermentados ali por outro lado os interessava muito.
As trocas de olhares entre Malek, Karak e Raila era o mais expressivo entre eles, o resto do grupo, e todos os locais, apenas comiam. Palavras eram trocadas apenas pela necessidade do momento de pedir algo, ou movimentar-se pelo lugar.
Os locais iam em uma movimento metódico: Chegavam, enchiam pratos e copos, comiam, e saiam, muitos sem nem mesmo um sorriso ou um aceno para qualquer outro.
Eles mesmos saíram eventualmente, tomando o tempo para observar o mar escuro.
— Raila, que caminhos trouxeram-na aqui que não foram os mesmos que os nossos? — Malek comentou com certo interesse, ou cuidado.
— Sua gente é íntima do mar, nós, nem tanto. — A Sangamani retrucou reticente.
— Poderíamos ter vindo todos. A não ser algo além de sobrevivência era sua prioridade. — Malek insistiu.
— Sua gente tem importância, a nossa nem tanto. — Barisi interrompeu a inquisição com finalidade.
— Isso importa pouco agora. Já temos maquinista, navegador, capitão, e creio que dois operadores de máquina e convés. Acho que é hora de informar a chefia que estamos prontos. — Karak procurava amenizar as arestas.
— Isso não é legal. Vocês dois são meus melhores amigos. Deviam se dar melhor. — Lateral disse entre Raila e Malek.
— Verdade, querido. Não é legal. — Raila disse colocando a mão no ombro do Onatra.
Malek não disse nada, apenas sorriu discretamente. Mas talvez fosse melhor deixar as suspeitas para amadurecerem no silêncio de sua mente.
Eles rumaram para o Barco, onde Sajó já os esperava.
— Sajó, meu bom homem, fale com o pessoal, estamos prontos para zarpar. — Karak disse com um entusiasmo artificial.
— Ainda não estamos prontos, falta um 'marinheiro' ainda. — Sajó disse com certo divertimento.
O grupo ficou ali conversando sobre assuntos aleatórios durante algum tempo, quando um carro compartilhado do Porto chegou, trazendo alguém que Sajó reconheceu, e isso chamou a atenção dos outros.
Era um homem, mas de uma aparência estranha. Cabelo estilo militar, pele clara, mas o cabelo preto e o tamanho diziam que não era Onatra. Seu corpo era de alguém acostumado ao treino pesado, mas não era massivo como Barisi ou Lateral, nem esguio como Malek. Mas ao aproximar-se, seus olhos tomaram a atenção do resto do time.
Seus olhos eram uma mistura dos olhos azuis dos Onatra e dos olhos escuros dos Sangamani, em uma cor que era incomum, ou até mesmo única em Ealetra. Ele não tinha a mesma cor, era uma heterocromia diferente, mesmo que o central comum, mas fazia o olho ali no escuro mudar de cor percebida pelo ângulo da luz.
— Agora sim estamos todos aqui. Este é Carcará. Ele será nosso navegador. — Sajó disse com entusiasmo.
Raila por alguma razão estava tensa observando 'Carcará', como se algo não lhe coubesse bem com aquele homem. Barisi, a uma medida menor, tinha a mesma expressão.
— E qual a razão de ele ser colocado nesses postos especificamente? — Malek perguntou cruzando os braços.
Carcará sorriu, e pegou duas pedras no chão, jogando uma para Sajó. O Aborada jogou a pedra longe na direção do mar, com algum esforço. Depois de uns segundos, Carcará virou-se e jogou sua pedra. O barulho do choque ecoou por cima do suave movimento das águas espumantes.
Raila e Barisi murmuravam entre si, e sua inquietude apenas cresceu.
Malek olhou para Karak com um certo reconhecimento nos olhos. O homem era notável. Ele com certeza não olhou a pedra arremessada para acertá-la, ao invés, ele observou como o Aborada arremessou-a e calculou sua mira.
— Creio que seja uma imposição superior também esse membro no time, meu amigo. — Karak disse olhando para Sajó.
— Mais um presente do que uma imposição, 'capitão'. — Sajó respondeu com diversão no olhar.
Carcará sorriu e pegou sua mochila, rumando para dentro do barco. Ele não tinha nada a dizer. Apesar de não ser um local, obviamente, ele mantinha a mesma economia de palavras que parecia ser o estilo de Jangunaray.
Sajó seguiu para dentro do barco, lentamente.
— Ele é de Pasvara, outra mente, outra cultura. Mas ele se adaptou bem rápido. — Sajó disse passando por Karak.
Malek e Lateral seguiram para o barco.
Raila e Barisi seguiram depois de alguns segundos de ponderação, mas Karak percebeu que eles não estavam muito felizes com o novo integrante.
Karak deixou os outros se assentarem antes de seguir para a embarcação. Ele não conseguia ver nada de errado em Carcará. Seu instinto Harata não lhe dizia nada, nem mesmo uma ponta de receio por algum movimento ou microexpressão. Mas isso em si, e a reação de Raila eram o suficiente para tornarem-se um sinal de alerta.