Enquanto Tarja corria para o armazém, pensava no seu espírito de aventura abalado. Não podia voltar atrás, Valaravas e Nandi estavam contando com ela, e aquele casal também estaria.
Ela tentou lembrar de tudo que Valaravas disse, e da pequena Situ, e um fogo ardeu dentro dela. Ela tinha que se tornar a heroína que a menina esperava, não só pelos outros, mas por si mesma.
Quando Tarja se aproximou do armazém, a cena era horrível. Fizeram coisas hediondas ao homem e à mulher, uma cena que Tarja não esqueceria tão cedo. Ela nunca viu tal crueldade, pois vivia uma vida de paz e leves brigas de bar. Nunca vira ninguém que fosse tão longe por qualquer motivo, muito menos com pessoas inocentes.
Ao se aproximar do armazém, os homens lá dentro a notaram. Quatro homens, provavelmente dois Onatra e dois Harata, mas diferentes de todos que já havia visto, eles todos emanavam a crueldade de pareciam culpados. Indesculpáveis, eles não tinham a cara do desespero, mas a pura crueldade.
Quando ela avançou, marreta em punho, os homens se prepararam para o combate. Embora não estivesse sob a influência do apoio de seus companheiros, Tarja conseguia se lembrar vagamente da experiência compartilhada, e técnicas de combate.
Tarja avançou, sua marreta um vulto de aço e fúria.
O primeiro golpe atingiu com impacto profundo e esmagador contra a proteção, e as costelas, do primeiro desajeitado agressor.
Ela não parou. A força a fez girar, balançando para trás em um arco.
O segundo homem mal teve tempo de recuar antes que a ponta abaulada da marreta golpeasse sua barriga, fazendo-o cair no chão com um baque.
Ambos caíram com um estrondo, o barulho assustando os outros homens.
Magros e ágeis, dois se esquivaram das primeiras tentativas de atingi-los e se moveram, flanqueando Tarja por ambos os lados.
Os homens maiores se recuperaram um pouco, mas ainda com algum ferimento, talvez uma costela quebrada.
Tarja estava recuperando a postura quando sentiu uma leve dor no flanco. O homem conseguiu tocar a faca em seu corpo, na lateral, mas não o suficiente para mais do que um arranhão afiado na pele depois de perfurar sua veste.
Ela usou o cabo da marreta em um movimento ascendente que foi sentido instantaneamente pelo bandido, apesar de provavelmente estar usando uma coquilha.
Agora ela se sentia em desvantagem. Enquanto os homens começavam a atacar, ela segurou a alça no cabo da marreta, girando, e os manteve à distância enquanto usava o próprio impulso para se mover e ganhar embalo para seu corpo.
Como os homens não tinham certeza do que fazer com aquela hélice de metal pesado girando, eles mantiveram distância e permitiram que Tarja cravasse o bico da marreta em um dos homens grandes, bem no peito, o que o tirou de ação, arremessando seu corpo se contorcendo contra a parede.
A força sozinha não seria suficiente. Ela teria que funcionar como uma das máquinas da Panificadora. Máquinas simples, mas eficientes, engrenagens girando para transformar esforço em precisão. Seu corpo agora era uma dessas engrenagens, uma máquina mortal em redemoinho.
Ela era agora a máquina que usava aquela marreta. Ela só precisava girar na hora certa. Ela transformou a ideia de alavancas em uma técnica de ataque, usando seu corpo como um eixo e a marreta como um contrapeso. Ela ancorou a frase que Valaravas disse e se sentiu confiante.
Ela lançou um ataque ao segundo grandalhão, mas todos eles, cautelosos com sua força, recuaram.
Com meio giro completo, ela projetou os quadris para a frente, o que mudou o movimento, e a marreta foi de giro a tangente.
Ela dobrou o joelho e puxou a marreta de volta, chicoteando e abrindo um talho na lateral do outro grandalhão.
Girando em outra direção, esticando a retraindo o braço, abrindo talho na perna do outro Onatra, virando-se para os agressores restantes.
Enquanto os dois avançavam, ela alargou a pegada, e girou deixando o peso da marreta puxar seu corpo, fluir, dando impulso para a frente, talhando as pernas de um dos bandidos e forçando-o sobre seu aliado.
A perna do bandido dobrou-se anormalmente e sua roupa escureceu. Enquanto ele caía, ela apenas cutucou sob suas costelas e se apoiou na marreta. O som de ossos rachando foi medonho.
O homem restante atacou, e ela tentou usar a mesma tática, mas o homem agora estava ainda mais rápido. Ele podia usar sua amplitude total de movimento, pois não tinha aliados com quem se preocupar. Seus movimentos eram rápidos, e os de Tarja, em câmera lenta para ele.
Não importava o quão poderosa ela fosse, a velocidade dele anulava seus golpes fortes. Ao tentar criar torque na marreta, seu peso lhe dava impulso, mas agora o impulso deixava seu corpo exposto. Alguns cortes danificaram suas proteções, pequenos cortes em seus braços. Ela então segurou a marreta perto, como um escudo.
Ela podia usar a marreta para impedi-lo de cortá-la, mas não conseguia ganhar o impulso para atingi-lo com força. Ao puxar para ganhar torque, o agressor diminuiu a distância e exigiu que ela usasse o momento para bloquear seus ataques. Sem uma abertura, eventualmente falharia.
Enquanto se perguntava o que faria, uma doce melodia vocal invadiu seu ser, e de repente sua cautela com a situação diminuiu.
Um momento de clareza e ela virou a marreta de lado, rodando-a em sua frente ao invés de com ela. Fazendo um pêndulo entre as mãos, o torque vinha da gravidade, sem exigir espaço ou giro.
O canto a ajudou a se concentrar, mas o homem era rápido demais, e seu principal trunfo, o peso que conseguia levantar da marreta, não podia ajudar sem impulso.
[Olhe para esses braços e coxas fortes. Você poderia me quebrar ao meio com um abraço.]
Ela se lembrou de Valaravas. Ele falava da Falange, Baluarte, as técnicas da Armada, que ela treinava, que podia fazer.
As palavras não foram apenas ouvidas, mas foram sentidas. Era como se Valaravas as estivesse dizendo novamente, baixinho, em seus ouvidos. Insistente, repetitivo.
Força não era apenas peso, era alavanca, posicionamento, precisão.
O corpo, o músculo. Ela era uma prensa hidráulica, o sangue que corria em suas veias, o fluído que alimentava as contrações musculares, a gordura dela que protegia seu corpo e alimentava sua força. Baluarte não é a arma, é o ser. Ela se lembrou da cervejaria.
O bandido a atacou, usando o passo da postura do gato, seu peso bem equilibrado nas pernas de trás.
Como se visse aquilo em câmera lenta, e sabendo que podia ver, mas não reagir rápido o suficiente, ela não o fez.
Tarja segurou a marreta alto e adicionou sua força a gravidade, erguendo um joelho e deixando-se cair para a frente, descendo a marreta na direção do algoz, largando seu peso acelerado pela força da Carpata, deixando a decisão de desviar ou não para ele.
Enquanto ele tentava se esquivar, apoiando-se ainda mais em seu pé de trás, Tarja avançou e foi em direção aos braços dele.
Enquanto a marreta caía sozinha na direção do oponente, Tarja avançava.
Ela agarrou seus pulsos, sua pegada como rocha, seus polegares dentro das palmas dele, torcendo seus braços para fora. As facas caíram no chão, inúteis.
Ela o empurrou e puxou pelos pulsos, empurrando-o agora como a roda giratória, girando sobre o calcanhar, desequilibrando-o.
Ela girou duas vezes, tirando os pés dele do chão, e o jogou no chão como um saco de grãos.
Ela torceu o braço dele até agarrar sua cintura, puxando-o para cima pela barriga, um abraço temível.
Então ela o apertou com força, puxando-o para cima, suas coxas maciças tornando o movimento sem esforço.
Ela se levantou, o movimento fazendo o homem perder a noção de cima e baixo, seu corpo sem peso em um instante desorientador. Então, com um balanço de suas pernas, ela usou todo o seu peso como costumava fazer para esvaziar sacos de grãos no armazém.
Era o bate-estaca do combate da Armada, que ela sabia o tempo todo, só não como um movimento único e de luta, mas uma técnica de trabalho. Agora, ela aprendeu na prática do combate.
O som de ossos batendo na pedra enviou uma onda de silêncio pelo ar. Ao cair, ela soltou o homem e rolou sobre seu corpo mole, ajoelhando-se em sua lombar.
Lembrando-se do porquê estava ali, ela segurou a nuca dele e bateu sua testa no chão frio. O som fez até os pelos da nuca de Valaravas se arrepiarem.
— Esse é um abraço que eu não quero de você, Tarja. --- Valaravas chegou dizendo, olhando os resquícios da luta.
A pegada da marreta ainda parecia ser dela, mas não em suas mãos, mas na forma de seus braços. Seu peso, a massa, seus membros os cabos, suas mãos as massas, seus dedos, ganchos. Seu corpo parecia metal e rocha, e totalmente sob seu controle. Ela esticou um pouco as pernas, sentindo o volume pulsante de força que agora ela percebia plenamente.
Ela se sentiu forte e exemplar. Um baluarte por completo. Estava totalmente presente em seu corpo, podia sentir a respiração, o suor, a força. Sua postura instintivamente foi para a posição de bastião, sentindo como se nada pudesse movê-la.
Sua respiração tornou-se pesada, cada inspiração carregando o peso de algo que ela nunca sentira antes. Poder. Controle. O conhecimento bruto de que ela podia acabar com uma vida. Ela sentiu seu corpo inteiro, seus músculos. Podia sentir o sangue pulsando em suas veias e começou a apreciar essa sensação.
Tarja exalou lentamente, os ombros rolando para trás, seu corpo ainda vibrando com a energia da batalha. O suor grudava em sua pele, escorrendo por seu pescoço, mechas de cabelo ruivo acobreado grudando em seu rosto corado. Com um movimento rápido dos dedos, ela empurrou os cabelos rebeldes para trás da orelha, um movimento simples, mas deliberado, como se estivesse se recompondo após um simples dia de trabalho.
Essa sensação de normalidade misturou-se com a sensação de ter realizado algo além de seu ser. Ela encontrara o baluarte dentro de si.
Um sorriso irônico apareceu no canto de seus lábios, não de arrogância, mas de compreensão. Ela não era apenas forte. Ela era força, ímpeto, algo inabalável.
Mas o calor da batalha desapareceu rapidamente. Os corpos que estavam ali mais adiante não eram inimigos sem rosto, nem bandidos ou criminosos sem nome. Eram os pais de Situ. Sem vida no chão de pedra frio.
O corpo de Tarja ainda vibrava com o pulso evanescente da batalha quando seus olhos os encontraram.
O sangue havia secado em suas roupas. Mãos que uma vez ergueram sua filha no ar, a aninharam na quietude da noite, agora jaziam imóveis. Frias. Sem vida.
Ela os encontrara tarde demais.
Um peso oco se instalou em seu peito. O estrondo da luta, a adrenalina da ação, tudo isso se desfez em um silêncio pesado e insuportável.
Valaravas, lendo a dor em sua postura, colocou-se ao lado dela, as mãos firmes em seus ombros.
— Você deveria descansar — ele murmurou, sua voz baixa, que a firmava — Stiu, deixa comigo. Eu contarei a ela. Cuidaremos dela.
Seu aperto se intensificou ligeiramente, ancorando-a. Uma força estabilizadora.
A voz de Nandi veio mais suave, um sussurro entrelaçado com certeza, esperança.
Valaravas assentiu, seu aperto mudando enquanto gentilmente afastava Tarja da cena.
— Eu juro, meu pessoal cuidará de Situ. E seus pais serão despedidos apropriadamente. Cuidaremos para que tenham a despedida que esperam, como a cultura Carpata manda.
Os braços de Valaravas envolveram Tarja em um breve abraço antes de guiá-la em direção à porta.
Tarja se deixou ser conduzida. A tristeza pesava em seu peito, mas havia alívio também. Eles haviam sido encontrados. Nenhuma cova rasa em alguma vala esquecida, nenhum corpo com pesos arrastado para as profundezas de um rio, nenhum fim sem nome e abandonado. Eles retornariam à terra com dignidade, com ritos apropriados.
O grêmio cuidaria deles. Valaravas estaria preparado. Provavelmente, até mesmo isso.
Atrás deles, uma canção suave surgiu dos lábios de Nandi, entrelaçando-se no ar como um bálsamo silencioso. A dor nos membros de Tarja diminuiu; a ardência de seus cortes e contusões desapareceu no nada.
Ela exalou, lenta e profundamente, rolando os ombros em sua própria tristeza.
Ela se afastou, mãos vazias mas com um peso nos ombros como nunca. Nunca se sentira assim, não depois de levantar barris, não depois de quebrar rochas. A força sempre fora algo que ela carregava facilmente.
A perda? Morte por violência? Aquele peso pressionava, profundamente em seus ossos, em seu peito. A pesada veste de polímero resistente nunca parecera tão apertada, mas o aperto estava na verdade em seu peito.
Sua mente dizia que pelo menos Situ fora salva e ninguém mais a perseguiria. A criança havia sobrevivido. Isso tinha que ser o suficiente. Por enquanto.
Seus novos aliados eram como Toivo dissera: confiáveis e atenciosos.
Eles manteriam a própria Tarja segura também.
Quando eles saíram, pessoas do lado de fora foram para o armazém, provavelmente pessoas do grêmio, para cuidar das coisas.
Apesar das notas tristes do dia, ao deixar aquela cena com Valaravas e Nandi, entre a canção suave e o contato de apoio, Tarja se sentiu aliviada por entender que havia gente como o Grêmio em Ealetra.
A caminhada de volta foi sombria, e depois de chegar à Taverna, Tarja abraçou Situ, escondendo sua tristeza, e evitou seu olhar enquanto a empurrava ternamente em direção a Valaravas e Nandi.
Tarja foi para seu quarto. Ela se apoiou na varanda.
O sono muito provavelmente a evitaria naquela noite. Um turbilhão de emoções, de repente, puxou de volta, seu coração, o de uma garota do campo, inocente da maldade do mundo.
Instantaneamente a memória dos pais da menina a trouxe de volta à dura realidade de Ealetra.
Ela estava começando a entender por que as pessoas lhe diziam o que diziam. Mas ela via além disso, ela poderia trazer mais para Ealetra sabendo disso para que outros não precisassem saber.
Tarja queria poder desver aquele lado da realidade, mas entendia que sua existência demandava conhecimento. Ela instintivamente se voltou para Valaravas e Nandi em sua mente, como se a dor fosse demais.
Os dois eram pessoas que ela também nunca conheceria se ficasse na Vila Pequena. Pessoas que tornam Ealetra melhor, mesmo que toda Onachinia não saiba que elas existem. São as pessoas que puxam as cordas e tornam aquela bolha de inocência possível.
Ela não precisava jogar o jogo, contanto que ajudasse Valaravas e Nandi a jogá-lo. Isso deve ser o que um baluarte é. O muro que mantém o prédio seguro, não o prédio que abriga as pessoas.
Tarja teve seu momento de realização. Nem todo o bem que você pode fazer é suficiente para impedir que coisas terríveis aconteçam. E o maior bem é saber o quanto você pode fazer pelos outros, sem se esgotar física e mentalmente no processo. Uma lição sobre aventuras que Tarja estava começando a aprender.