Tzol seguia em sua poltrona, remoendo seus planos desmoronando. Varta são criaturas da escuridão, e para eles tudo soa, tudo tem um tom, uma vibração. É um povo de silêncios e vozes baixas, mas força e impacto. Uma biologia que influi em muito mais do que sentido mais aguçado, mas também na imagem interna das coisas. O tempo passa diferente para um Varta.
O tempo não caminhava para Tzol em sequência, mas se sobrepunha em camadas. O eco de decisões antigas ainda vibrava no presente como se nunca tivesse cessado, e os erros de agora já traziam consigo a memória de suas consequências futuras. Para ele, o fracasso dos Silvani não era apenas um evento isolado, mas uma distorção no padrão, dissonante, reverberante.
Ele foi interrompido em seus pensamentos por outra voz de sua espécie, chegando com uma suavidade feminina mas não menos Varta.
— Irmão Hen'Tzol, que notícias o deixam assim, consumido? — A mulher disse chegando-se perto.
— Irmã Alm'runa, nossa linhagem está para extinguir-se, e não conseguiremos sair desse lugar antes que se extingua. — Tzol disse com pesar.
— Irmão, a fatalidade não combina com um de nossos mais entusiasmados estratégias. Thaz foi imprudente, e pagou por isso. Você terá sucesso, tenho certeza.
— Você me lisonjeia, irmã. O Vale nos impede de multiplicar-nos, e a espera apenas toma aqueles que poderiam criar linhagens fortes. Os que sobram, fracos, medrosos, de mentes lentas.
— Rumores dizem que os do dia fugiram e vivem no mundo 'deles', entre seus selvagens. Talvez possamos viver fora do Vale sem seu poder. — Alm'runa disse com a voz terna, ao menos para um Varta.
— Se vivem, vivem subjugados. Prefiro morrer em pé do que viver de joelhos! — Tzol exclamou em ira.
Alm’runa não recuou diante da explosão, apenas inclinou levemente a cabeça, como quem mede não a ira, mas o peso dela.
— E morrer em pé, irmão, nos dá o quê além de um silêncio definitivo? — respondeu, sua voz baixa sustentando-se firme mesmo sob o impacto da de Tzol. — O Vale nos protegeu… e nos aprisionou. O que somos aqui é consequência disso, não destino.
Ela se aproximou um passo, o suficiente para que sua presença fosse sentida mais do que vista, uma sombra dentro de outra sombra.
— Se os do dia vivem, mesmo que enfraquecidos, então eles provaram algo que nós não quisemos sequer considerar. Que há outro ritmo além deste. Outro modo de existir que não exige essa estagnação lenta que você tanto despreza.
Tzol murmurou as palavras de sua irmã como uma dose de bebida amarga que seca a garganta.
— Eles escolheram seus escravos melhor. Esses selvagens que escolhemos, são desorganizados, ficam andando em círculos. Os do dia escolheram os de fala doce, do mar. Eles abriram uma fenda na mente dos outros, esconderam os do dia.
— Talvez, se os deixássemos entrar no Vale, desobstruídos, o suficiente para criar uma fenda para eles mesmos em nossa terra, poderíamos usá-la para sair. Melhor ter o trabalho de abri-la nós mesmos com essas ferramentas surdas! — A mulher disse com tom manipulador.
Tzol permaneceu em silêncio por um momento longo demais para ser apenas hesitação. O som da ideia como uma nota proibida, uma frequência que não deveria existir naquele espaço fechado de ecos antigos. Ele inclinou levemente a cabeça, não em concordância, mas em cálculo.
— Eles tem uma 'delas' com eles. — murmurou, cada palavra pesada, arrastada como se tivesse que atravessar resistências invisíveis. — Ela caminha com o poder do Umbral. Thaz a subestimou, eu não irei.
Seus dedos pressionaram o braço da poltrona, não por força, mas como quem ancora o próprio pensamento ao presente.
— Os do dia deram isso à eles. Nosso dom, nossa linhagem, dada aos selvagens, em troca de proteção. Proteção contra nós!
Seu olhar perdeu-se por um instante no vazio escuro à sua frente, como se enxergasse além das paredes do Vale.
— Precisamos do dom deles. O dom de soar doce em seus ouvidos, e amigo em suas mentes.
Alm’runa deixou escapar um som baixo, quase um eco de aprovação, mas havia algo mais ali. Ela girou lentamente ao redor da poltrona de Tzol, não por inquietação, mas como quem reposiciona o próprio pensamento no espaço.
— Então é isso que teme… — disse ela, o tom mais denso agora, mais próximo da essência do que sussurro. — Não a falha dos Silvani, mas o dom das videntes.
Ela parou atrás dele, próxima o suficiente para que a vibração de sua voz não precisasse atravessar o ar.
— O dom das videntes é o dom dos do dia. O conhecemos. O vencemos. — A mulher disse com calma. Seus dedos tocaram de leve o encosto da poltrona, num gesto que não era físico, como se marcasse um ponto em uma estrutura invisível.
Tzol observava como a mulher o cercava como um predador cerca sua presa. Ele sabia o que estava acontecendo.
— O dom da vidente, o dom dos do dia, sim. Mas eles tem os dons dos selvagens, e os antigos escravos, eles agora tem armas formidáveis. Se vamos sobreviver, precisamos do mesmo dom que eles usam para sobreviver, e dominar aos outros. O dom dos indomáveis.
Alm'runa irritou-se, visivelmente saindo do seu tom amigável e manipulador.
— Você não acredita nas lendas dos 'Filhos de Arata'? Sãos histórias que os do dia inventaram para desculpar suas fraquezas. Eles não dominaram seus escravos porque eram fracos, e não porque os selvagens de sua região eram indomáveis.
A mulher cruzou os braços, sabendo que uma crença enraizada era mais difícil de quebrar do que uma dúvida recente.
— Ainda assim — Alm'runa retomou sua calma. — A única forma de saber de um jeito ou de outro é deixá-los entrar no Vale, e caminhar com ele.
Tzol não respondeu imediatamente. O nome ecoou dentro dele com uma resistência estranha, como se a própria ideia recusasse a forma completa antes de se manifestar.
— Caminhar… — repetiu, lentamente, como se testasse o peso da palavra em um espaço que não a aceitava plenamente. — E quem iria caminhar com um deles?
— Certamente não um guerreiro velho e amargurado. Talvez eles mesmos queiram saber o que é a nossa caminhada. Talvez, seja só uma questão de ser como eles, 'fala doce e a curiosidade'.
Alm'runa não esperou uma resposta, apenas saiu com um jeito exageradamente leve, replicando os movimentos dos Silvani, fingindo uma leveza que seu corpo massivo e denso desmentia.
— Toda criatura procura compreensão. — Ela disse saindo. — Até mesmo nós.