O ar noturno estava quente, carregando o rugido persistente das ondas e os movimentos silenciosos de figuras ao longo do porto da Cidade do Luar. As fortes correntes mascaravam muito do movimento silencioso que ocorria neste trecho isolado entre os continentes. Onde as marés são fortes, e são ocultos os jogos.
Valaravas, recém-chegado em outro trem depois do que trouxe os Silvani, pulando direto para a ação. A Trifronteira era território familiar, mas aqui, na Cidade do Luar, ele estava em casa, ou quase. Ele ajustou suas luvas enquanto caminhava pelo cais. Seu foco não estava no murmúrio das docas, mas nas peças que ele havia colocado em movimento mais cedo naquele dia.
Duas figuras o esperavam na beira do porto: Melica e seu irmão Navanteras.
Melica havia chegado dia antes, mas Navanteras estava posicionado desde o início da operação.
— Você carimbou os papéis de Jatica, Val? — A voz de Melica carregava sua habitual suavidade de cachorrinho perdido, uma farsa quase tão natural para ela quanto respirar.
— Sim, Lica. — Valaravas respondeu com facilidade, seu tom leve, mas com algo mais firme por baixo. — Ela está pronta para trabalhar no mercado amanhã à noite. Espero que você tenha dito a ela que tem um preço. Tudo tem.
O sorriso de Melica se curvou, sapeca.
— Ela sabe. Ela será uma boa menina. — Então, com uma sobrancelha arqueada, seu tom mudou. — Você chegou cedo. Tem a ver com os recém-chegados? A Trifronteira é fácil. Mas aqui? Não acho que sua bonequinha Silvani esteja à altura da tarefa, e nem mesmo com o irmãozinho azedo. Fofo, mas ainda verde. E ela? Arisca.
— Eu não quero a Ariel pelo rostinho. — Ele deu de ombros. — Ou mesmo por ser uma boa atiradora. Ambas são felizes coincidências. O irmão é um bem incidental. Preciso dos dois para coisas mais importantes. E ela ainda não sabe, mas precisa de algo que só eu posso lhe dar.
Melica inclinou a cabeça, os olhos afiados apesar de seu tom brincalhão.
— Só você pode dar? Hum. Você gosta do rostinho dela, primo. Admita. Você gosta.
Ela suspirou, mas havia uma pitada de seriedade por baixo.
— Até eu sinto um calor por ela. Mas ela ainda é verde, e ainda é arisca.
— Verde e arisca, não importa. Ela é minha escolha. — Valaravas permaneceu com a voz inalterada, firme, certa. — Você deveria cuidar das coisas. Eles precisam sentir que estão chegando a algum lugar. Se ela se frustrar, vai fugir.
Ele deixou seu olhar vagar para Navanteras, que estivera em silêncio até agora.
— Precisamos dar-lhes algo, mostrar-lhes uma vida melhor esperando. Vou levá-la para um passeio.
Navanteras soltou uma risada curta, mais de descrença do que de divertimento.
— Isso é ousado, mesmo para você, primo. Vinho, jantar e presentes. Ainda acho que Nushala é melhor em todos os sentidos.
Melica riu.
— Teras, seu safado, você conhece tão bem assim? — Ela disse dando uma olhada farpada para o irmão.
Valaravas sorriu, mas não havia humor nisso.
— Eu conheço a mim mesmo. Isso é o suficiente. Nushala é outro problema, e outra solução.
A expressão de Navanteras se contraiu, sua zombaria usual diminuindo um pouco.
— Primo, os Silvani é que vão causar mais problemas do que resolver. Você sabe disso.
— Sei? Teras, qual é o problema?
— Eu entendo seu apego, mas o que precisamos é de outra Ayla, e essa é Nushala.
Valaravas manteve-se firme, seus olhos quase dourados indecifráveis.
— Eu não preciso de outra Ayla. Preciso de uma Silvani, de linhagem. É disso que eu preciso. — Sua voz era calma, decisiva.
Ele colocou uma mão no ombro de cada um de seus primos, um peso destinado a encerrar a discussão. Sua pegada firme mas calorosa era como um bálsamo e ao mesmo tempo um tapa sensorial.
— Vocês dois sabem ser doces. Charmosos. Esse é o trabalho de vocês. Preocupações? São minhas. O jogo? Deixa eu jogar.
Valaravas percorreu as rotas de patrulha, mapeando os espaços entre onde os Silvani pegariam o garoto e onde os anarquistas estavam se reunindo, um por um. Os irmãos já haviam começado a se aproximar, sem saber que sua missão era mais do que um teste de habilidade.
— Os Silvani pensam que é um simples sequestro. Vamos manter as coisas assim.
Seu tom era leve, quase divertido, mas o peso das palavras permaneceu. Ele olhou para Melica.
— Vou proteger seu garoto, Lica. Ou sua garota. Nunca se sabe com você. — Ele sorriu de canto. — Essa coisa toda de levar minha Silvani para vinho e jantar. Posso ficar com ciúmes.
Melica sorriu, sua malandragem anterior retornando.
— Eles precisam estar confiantes, é assim que se faz, primo, não é?
A expressão de Valaravas não mudou. Eles tinham que ter sucesso por conta própria, ou acreditar nisso o suficiente. Se percebessem cedo demais que cordas os estivessem puxando para frente, isso arruinaria tudo.
Navanteras cruzou os braços, sua expressão cautelosa, sem se impressionar.
— Tem certeza de que não é você quem precisa de proteção?
Valaravas sorriu de canto, virando-se ligeiramente com a alfinetada.
Melica riu, inclinando a cabeça em direção a Navanteras.
— Ele já deitou um Urbani de uma porrada sozinho, Teras. E ele tem a Nandi. É um malandro sortudo. — Seu sorriso se alargou, quase melancólico. — Eu também quero uma Sangamani gostosa cheia de conselhos pra me dar.
Valaravas balançou a cabeça.
— Não. A Nandi tem outras coisas pra se preocupar agora. — Ele puxou o capuz de seu casaco, adentrando mais na sombra do beco.
— Vou pelo caminho mais lento, entrar pela porta da frente e criar confusão. Eles pensam que ninguém sabe que a reunião está acontecendo hoje. — Valaravas mudou o tom, mais leve, brincalhão. — Mais uma para os soldadinhos de brinquedo. Como estou? Minha cara de anarquista é convincente?
Ele imitou a postura de um canalha de rua, imitando os maneirismos bem demais.
Melica riu, enquanto Navanteras permaneceu menos divertido.
— Nandi, ela está de olho no ferreiro, ela é a única com o tipo de visão que pode ficar fora de vista. Precisamos cuidar da família deles. — Valaravas disse se afastando.
Isso pareceu chamar a atenção de Navanteras.
— A família do ferreiro. — Sua expressão escureceu. — Eles acabaram de chegar. A filha ainda é uma criança. Eles precisam de proteção.
Valaravas encontrou seu olhar, sua própria expressão inalterada.
— O garoto já está em perigo, mas o ferreiro não. Temos que escolher. — Sua voz era firme, pragmática. — Se agirmos rapidamente, podemos proteger ambos. Colocá-los para dentro antes que os encontrem.
Seu olhar se tornou uma fração mais afiado, a familiar vantagem carismática retornando.
— Se não, as informações do ferreiro já estão em boas mãos. — Uma pausa se passou. — Nós os abrigamos, mas não arriscamos estranhos pelos nossos. O garoto, o pai, eles são Harata. O ferreiro não é.
Navanteras não discutiu.
Melica, no entanto, suspirou, brincando com a bainha de sua manga, sua brincadeira anterior um pouco atenuada.
— Mesmo que eles fiquem conosco e sobrevivam, a cidade vai mastigar sua bonequinha até o caroço. — Sua voz era mais suave, mas não menos certa. — Val, nem seu charme não vai suavizar isso.
— A Carpata deveria salvá-lo. Ela tem a mão pesada, é melhor para uma lição. — Melica continuou, balançando a cabeça levemente. — Seria fácil convencer a boneca com conversa mole a ficar de guarda em vez disso. É mais quieto lá. Apenas observar e esperar.
Valaravas ouviu, mas não respondeu imediatamente.
Em vez disso, ele simplesmente puxou o capuz para mais baixo, deixando a luz fraca do beco engoli-lo.
— Ariel cuida do garoto. Eu cuido do problema real.
A voz de Valaravas era calma, mas não havia como confundir a gravidade por baixo dela.
— Vocês dois digam a Obravar para enviar Rafiq. Ele cuidará das coisas na cidade. É uma ajuda. Diga a ele para deixar Danila fora disso.
Ele exalou, inclinando a cabeça ligeiramente como se pesasse algo mais profundo. Ele ajeitou o capuz, e seguiu.
— E eu cuidarei da Carpata. Ela é forte, mas não chegará a tempo.
Seu olhar se moveu para a distância, para os lugares onde as sombras se estendiam.
— E minha bonequinha terá que viver — seu tom tornou-se quase divertido, mas o significado era tudo menos leve — porque eu preciso do que está na cabeça Silvani dela. É o mais importante.
Então, sem outra palavra, ele desapareceu na escuridão.
Melica e Navanteras voltaram para a Taverna do Luar, seus passos sem pressa.
Dentro da Taverna, Obravar já estava esperando, de braços cruzados, observando a chegada dos irmãos Harata com o olhar cuidadoso de um homem que já vira demais, mas nunca o suficiente para não se surpreender.
— E agora? — Ele perguntou, sua voz firme, embora a curiosidade entrelaçasse suas palavras — A boneca do seu primo está aqui, e o irmãozinho dela também. Já preparamos o quarto deles.
O sorriso de canto de Melica se curvou, a malícia cintilando em seus olhos dourados.
— Bom. — Ela suspirou dramaticamente. — Você sabe como o Val quer as mulheres.
Navanteras, recostado no balcão, soltou uma risada seca.
— Diga-nos, irmã... — ele arrastou as palavras, seu sorriso de canto repuxando o som. — Como o primo quer as mulheres?
Melica rolou os olhos, mas seu sorriso apenas se alargou.
— Você está brincando, né? — Ela arqueou uma sobrancelha. — Ayla. Lembra como foi? Toda fofa e rindo à toa. Ele colocava num pedestal.
Navanteras soltou uma risada baixa e malandra, mas mudou de assunto.
— Quando os Silvani estiverem acomodados e confortáveis, Rafiq vai com eles ao mercado.
A voz de Navanteras se aguçou, a brincadeira diminuindo, substituída pela certeza silenciosa dos negócios. Ele se virou para Obravar, que já estava ouvindo, já considerando as implicações antes mesmo que as palavras saíssem completamente de seus lábios.
— Eles precisam entender a mensagem, sem conhecer o mensageiro. — Navanteras adicionou.
— O Val quer a mocinha amaciada, não estapeada. — Melica adicionou.
Obravar exalou, pousando o copo que estivera limpando por tempo demais, como se o próprio ato lhe desse algo em que se concentrar.
— Rafiq? — Ele ergueu uma sobrancelha, o ceticismo cintilando por trás de seu olhar aguçado. — Você sabe quem é Rafiq, certo? Ele o quer o Rafiq para lidar com a boneca preferida dele?
Navanteras deu de ombros, imperturbável, intocado pela preocupação.
— O impacto é bom, Obravar. — Seu sorriso de canto era leve, mas astuto.
— Ele vai mandar a Tenente Piranha dele calar a boca de quem interferir. — Melica bateu no bar uma vez, um movimento casual, mas incisivo. — É uma boa ideia.
A expressão de Obravar não mudou, mas algo na postura de seus ombros sugeria relutância.
Navanteras inclinou-se um pouco, baixando a voz, não por segredo, mas por finalidade.
— Se ela tiver que viver, Rafic garantirá que viva.
Melica bateu duas vezes no balcão, o som agudo e final, sinalizando sua partida. Ela acenou casualmente para Obravar, agarrou o irmão pela camisa, puxando-o em direção à saída.
— Belo resolvedor me saiu o garoto do herege. Uma pena que ele não está aqui pra ver seu prodígio. — Obravar disse, batendo uma vez no balcão e abrindo a mão, um sinal de respeito a um Harata falecido.
Obravar voltou a selecionar os copos secos que usaria em sua terapia, observando os clientes que ali estavam mais por qualquer motivo que pra refeição.