A notícia chegou ao Zhefaq por várias vias, e com diferentes reações quem quer encontrasse cada uma das vias, e já outras reações quando confrontadas vias por uma mesma parte da fortaleza.
As ilhas do sul estavam sendo 'libertadas'. O termo em si era pouco mais que uma ficção educada, um bálsamo retórico para aqueles que ainda encontravam consolo na ilusão da civilidade. Andrei recebeu a notícia com a mesma indiferença que dedicava a todas as coisas fora de sua preocupação imediata. Uma mensagem repassada. Uma diretiva executada. Nada mais.
Seus dias agora eram circunscritos ao Zhefaq e a realidade remota era como um jogo onde ele apenas movia peças e esperava o resultado. Era como um investidor que decide tirar 5% da sua carteira dos ativos rurais, sem pensar que pequenas fazendas então terão 90% mais custo e provavelmente sairão do mercado.
Sentimento era uma desvantagem. Melica lhe ensinara isso rapidamente. A preocupação era reservada para aqueles ao alcance, para os poucos que ocupavam o espaço estreito entre a necessidade e a lealdade. E para Andrei, isso significava apenas dois nomes: Melica e Danila.
O resto do mundo, as facções, as marés mutáveis do poder, os rostos anônimos esmagados sob o peso da política, não passava de um jogo. Um jogo de passos medidos, de saber em que pés não pisar, que cabeças exigiam uma reverência, que nomes carregavam o peso da consequência.
Sua ordem retransmitida para o comando da fronteira foi simples, fria, final: Ninguém mais atravessa de Tirayon. Sem exceções.
Era a mesma ordem que a Armada recebera antes de assegurar a Divisão do Norte. Andrei já vira isso antes. Como as engrenagens giravam, como regiões inteiras eram seladas como feridas consideradas impróprias para infeccionar. A Trifronteira não estava mais se tornando uma linha entre poderes. Estava se dissolvendo em algo singular. Sorya temera essa transformação. A Unifronteira. Uma fronteira sem oposição. Uma consolidação, inevitável e absoluta.
Mas isso estava acima dele. Andrei não ditava a vontade do poder. Ele executava.
E agora, ele seria testado.
Duas mensagens, de forma despretensiosa, mas pesadas de implicação, chegaram à sua mesa.
[Classe B - Comando de Zhefaq deve entregar o hóspede Urbani às autoridades de Khadija.]
Uma diretiva burocrática, clínica e precisa. Rentaniel deveria ser entregue aos oficiais de Khadija, entregue nas mãos daqueles que, por direito, o reivindicavam. O que quer que o esperasse lá não era da conta de Andrei. Ele havia cometido crimes e traições na Fáscia em nome de uma fantasia de poder de Khadija, e agora estava sendo aposentado no poder que o corrompeu. Ele estaria fora do alcance da Fáscia, e consequentemente, dos Harata.
Então, a segunda mensagem.
[Entorno retirará o homem de vime. Seja cavalheiro, finja ignorância.]
Andrei mal precisou pensar. A formulação, a intenção, era inconfundível. A Cabeça, governo dos Harata. Isso não era um pedido. Não era uma ordem emitida pelos salões oficiais do poder. Era outra coisa. Um aviso do que ia acontecer, uma diretiva sussurrada das sombras, escrita na tinta da necessidade.
Andrei já havia entendido como o que aconteceu em seu cruzador. Os Harata iriam ter Rentaniel, seja ele agora facilitando as cosias logo na entrada, ou se eles tivessem que dar essa ordem para algum oficial na 'proteção' do litoral de Khadija, ou mesmo se tivessem que colocar a lâmina para 'extrair' Rentaniel dentro do Reino.
Não, as escolhas de Andrei, únicas e privativas que lhe interessavam, era se ele iria facilitar isso e envolver-se, ou não envolver-se, e deixar outro decidir. Porém ele só seria importante se estivesse envolvido. Se Melica estava realmente certa, ele envolvendo-se, aumentava suas chances de sobreviver.
Ele poderia fazer o que os Harata esperavam dele. Deixar os Fáscia pegarem Rentaniel. Ele poderia virar a cabeça e deixá-los desaparecer na noite, deixá-los levar seu homem de vime para qualquer destino que o aguardasse em outro lugar.
Sua mente se decidiu pela segunda escolha quase instintivamente. A mensagem viera das pessoas certas. E Andrei era dukhovne agora, não mais um exemplar da Armada. Ele não estava ali para exibir lealdade inabalável ao Estado de Direito, estava ali para garantir que as pessoas certas permanecessem incontestadas.
Danila, sua segunda em comando, cuidaria das outras preocupações. Ele não precisava verbalizá-las.
O mundo giraria, o jogo continuaria, e Rentaniel desapareceria, engolido pela vontade de homens que não faziam exigências, mas sim entregavam expectativas.
Andrei faria o que aprendera a fazer com a própria Armada: Seguir ordens. Só mudaria a direção de sua lealdade.
Os dois infiltradores Urbani chegaram com um propósito silencioso, seus movimentos precisos. Não eram do tipo que se anunciavam, nem esperavam uma recepção calorosa. Sua tarefa era simples: Recuperar o que era deles, reivindicar o nobre antes que o peso da política o esmagasse sob seu calcanhar.
Como saber se eram os Urbani certos? A Armada não o preparou para fazer aquela distinção somente por visão. A mensagem era clara, 'seja cavalheiro', o que significava um detalhe geralmente ignorado pelos Oficiais. Ele deveria entregar o prisioneiro para mulheres, e aqueles eram homens.
Danila estava lá para recebê-los, embora "receber" fosse um termo generoso. Andrei não os encontraria pessoalmente, tais assuntos estavam abaixo de sua patente. Envolvimentos a serem tratados por aqueles cujos nomes não carregavam o fardo da consequência. E Danila, sempre ansiosa para provar seu valor, aproveitara a oportunidade.
— Se puderem retornar mais tarde — Danila disse para os recém chegados, seu tom neutro. — A área residencial está atualmente inacessível. Sabem que a situação é delicada.
O infiltrador líder deu um passo à frente, sua compostura inabalável.
— Isso é um absurdo! Estamos aqui para levar um dos nossos. É imperativo ...
— É imperativo — interrompeu Danila, apoiada pelo barulho de baluartes aproximando e o 'sapeca Urbani' em suas mãos — que você lembre onde está. Não estamos nos seus salões de beleza. Aqui você não manda.
A mandíbula do infiltrador se contraiu, um lampejo de protesto em seus olhos. Ele deu outro passo, como se a proximidade pudesse dar peso ao seu argumento. Um erro.
Os dois Baluartes que flanqueavam o pátio se moveram quase imperceptivelmente, suas formas blindadas se ajustando sutilmente, iniciando uma postura de bastião. Nenhuma palavra foi dita, mas a mensagem foi ensurdecedora.
Os infiltradores hesitaram. Não eram covardes nem tolos. Qualquer fogo que ardesse neles foi sufocado pela dura realidade à sua frente. Desafiar a Armada em um posto avançado da própria Armada não era desafio, era suicídio.
Após um momento, eles se viraram, partindo sem outra palavra. Eles esperariam. Eles voltariam. Mas não forçariam a situação. Não ainda.
Da sacada acima, Andrei observava. Ele não precisara intervir. Danila estava ansiosa para se mostrar, e ele descobriu, para seu leve divertimento, que estava disposto a mimá-la. Ele deixou a cena se desenrolar, desapegado, mas ciente, notando a maneira como ela se portava, a maneira como impunha autoridade sem levantar a voz. Algo raro. Algo útil.
Por enquanto, ele lhe permitiria essa satisfação. O jogo continuava, as peças se moviam, e Rentaniel permanecia exatamente onde estava, até que as mãos certas viessem reivindicá-lo.
O tempo passou tenso ali. Andrei e Danila cuidavam de seus afazeres na torre principal. Esperavam que outros viessem pelo prisioneiro.
Aleksandr vagava pela base procurando algo que fazer, quando algo estranho moveu-se pelo ar. O zelador do complexo residencial estava atento na porta. Ele deu o sinal. O complexo residencial foi selado, assim como as saídas.
Estavam presos todos na seção, e o zelador apenas esperava.
Alguns minutos se passaram quando um Urbani, dos que haviam visitado antes veio andando. Como se tivesse perdido a noção de tempo e espaço, repetindo seu nome, como se sua mente estivesse vazia.
O zelador desligou o alarme, e os falange ali levaram o homem para outro destino, provavelmente fora da base. Não eram dignos de tornarem-se problemas para serem explicados.
O zelador olhou para Aleksandr com um sorriso.
— Eles podem entrar aqui antes que os guardas do portão percebam, mas não podem passar pela 'cozinha'. — Ele disse rindo.
Aleksandr se lembrou de sua conversa com Svetlana, sobre os Urbani, lá no passado distante. Agora ele se arrependia de não ter dado ouvidos.
Uma hora depois, outra infiltradora Urbani chegou. Uma mulher desta vez. Alta, imponente, mas que se portava com o charme fácil quase igual ao dos Harata em vez da postura reservada de uma Urbani. Ela se movia com uma confiança natural, seu andar uma declaração casual de que pertencia a qualquer lugar que escolhesse estar. Dois agentes da Lâmina a flanqueavam, silenciosos, mas inconfundíveis em sua presença. Seus cabelos trançados como arte discreta na exigência tática de seu posto.
Danila observou enquanto a mulher varria o posto avançado com o olhar, antes de fixá-lo nela. Havia uma avaliação naqueles olhos, mas não o cálculo frio de uma operativa pesando riscos. Não, isso era algo indulgente. Ela estava admirando Danila.
— Esse lugar está definitivamente mais acolhedor. — A mulher Urbani disse com uma voz de seda.
Danila encontrou seu olhar sem vacilar.
— Se me seguir, eu a levarei ao seu reizinho. — Havia um toque de divertimento em seu tom, quase presunçoso.
Ela sabia por que esta mulher estava aqui. Sabia o que os Fáscia queriam. E sabia como o jogo era jogado.
O grupo moveu-se pelos corredores do bloco residencial, passando por sussurros abafados e olhares indecifráveis. Rentaniel ainda estava onde fora deixado, junto com os Silvani que permaneciam ali.
Eles viram o que passou, ninguém estava inocente do que acontecia.
O olhar da mulher Urbani se voltou para Yadora, demorando-se com uma fome mais desavergonhada que antes, o que enviou um arrepio pela espinha de Danila.
— Hum, estamos colecionando. — a mulher ronronou, sua voz rica em malícia. — Posso ficar com aquelas também? A boneca loira é linda.
Danila enrijeceu. Perguntas eram um problema. Surpresas eram um problema. Ela não gostava de nenhuma das duas.
— Não sabíamos que isso seria uma opção... — disse ela cuidadosamente, sua mente já calculando contingências.
A mulher Urbani soltou uma risada baixa e provocadora, aproximando-se.
— Relaxe, tigresa. Só brincadeira. — Seu sorriso era deslumbrante e perigoso. — Todos nós temos nossas ordens. É que é mais divertido quando brincamos um pouco.
Danila exalou, permitindo-se um sorriso lento.
— Armada, sabe como é. Nosso divertimento é diferente. É mais físico.
Danila segurou o olhar da Urbani mais do que era confortável, devolvendo a lascívia com um toque de sadomasoquismo implícito.
Os olhos da mulher brilharam.
— Eu sei, ouvi falar de você, temos um amigo em comum. — Seus dedos traçaram o ar entre elas, um sussurro de sugestão. — Você tem um tempero. Estes olhos não mentem. Eles viram coisas, tenho certeza. Coisas fortes. Coisas intensas.
Danila não disse nada, mas sua mente vislumbrou possibilidades. O que poderiam esculpir juntas? O que uma Urbani deste calibre e uma Onatra como ela poderiam realizar, lado a lado? O pensamento era inebriante por si só. Não apenas o caos, não apenas a destruição. A elegância daquilo. A arte.
— Seria revigorante. — Danila murmurou para si mesmo.
— Que foi? — A mulher Urbani inclinou a cabeça, divertida.
Danila piscou, recompondo-se.
— Nada importante ...
A mulher riu, os olhos ainda dançando de divertimento.
— Bem, eu tenho que ir. Mas se algum dia se encontrar em território Fáscia, avise os Harata. — Ela se inclinou, seus dedos roçando a bochecha de Danila com um toque leve como uma pena. — Eu a encontrarei. Pode ter certeza.
Danila não se encolheu. Não se afastou. Uma parte dela, a parte que raramente reconhecia, queria se inclinar para aquele toque, deixar-se enredar em qualquer jogo que essa mulher jogasse.
Então ela viu. A maneira como um dos Harata próximos a olhava, bem no canto de sua visão. O tecido da realidade mudou ligeiramente na mente de Danila, sugestões simples, pensamentos regados a sangue e lágrimas. Ele estava sendo trabalhada, oferecida uma intensidade real aos pensamentos que já tinha.
Ela fora encantada, ainda estava sendo, e, no entanto, não se ressentia. O Harata a tocando com sua habilidade, um presente, uma prova. Seus pensamentos, embora seus, carregavam uma liberdade que ela não se permitiria. E uma realidade que a mente de Oficial, mesmo ela, não concedia.
Para a maioria, a influência Harata era uma forma de controle, uma corrupção da vontade. Mas Danila estava começando a entender algo mais profundo. Não era simplesmente manipulação. Era libertação. Os Harata não forçavam as pessoas à submissão. Eles as guiavam para a indulgência, para se tornarem a versão mais verdadeira de si mesmas.
E quando isso servia aos fins dos Harata, que mal havia? Rafiq já havia brincado com sua mente antes, brincado com ela como um gato brinca com a presa. E, no entanto, ela gostava. E talvez, apenas talvez, esta missão tivesse mais vantagens do que fora levada a crer.
Para Andrei, a influência dos Harata não era uma questão de contenda. Era uma inevitabilidade, tecida na estrutura do poder como as engrenagens invisíveis de uma máquina bem mantida. Ao contrário da Armada, que viam as manipulações sutis dos Harata com suspeita, ele há muito se conformara com a natureza deles. Mesmo a influência de Melica sobre ele, suave, paciente, não era algo que ele confundisse com engano. Os Harata não mentiam. Eles empunhavam a verdade como uma lâmina, cortando apenas onde necessário. A sinceridade deles não era medida por se falavam a verdade, mas em como escolhiam usá-la.
E isso fazia toda a diferença.
Suas reflexões foram interrompidas pela chegada nítida e decidida de outro contingente de Urbani do Reino. Seus uniformes eram impecáveis, seus movimentos rígidos com o peso da autoridade. Eles vieram esperando conformidade, certeza, a recuperação sem esforço de seu encargo.
Danila, claro, tinha outros planos.
— Nós já entregamos o hóspede ao seu colega — Danila afirmou secamente, seu tom tão imperturbável que era quase uma forma de arte. — Eles já estão a caminho.
Uma batida de silêncio. Então, indignação.
— Que colega? Onde? — A voz do líder Urbani mal continha sua frustração.
Danila inclinou a cabeça, os olhos brilhando com um divertimento mal disfarçado.
— Vocês são Urbani, não são? De uniforme, documentos. Fomos instruídos a entregá-lo a um oficial Urbani, e o fizemos.
A maneira como ela disse, tão factual, tão completamente despreocupada, quase os desafiava a insistir.
O oficial se irritou, sentindo que algo estava errado, mas incapaz de compreendê-lo totalmente.
— Você pode ao menos descrevê-los? Quem eles eram?
Danila exalou, inclinando a cabeça como se tivesse que pensar genuinamente sobre isso.
— Eles pareciam com você. Para mim, vocês são todos iguais. A pele macia, os rostos de bebê, caras de besta. O cabelo oleoso. Honestamente, agora, não consigo nem dizer se você é homem ou mulher. Vocês sequer têm isso? Homem, mulher? Você deve ter mais maquiagem que uma dançarina Harata.
Foi dito com o equilíbrio perfeito de indiferença e leve exasperação, o tom de uma oficial preocupada demais para se importar com as sutis distinções entre Urbani. Ela estava jogando com as expectativas deles, alimentando-os com o preconceito desdenhoso que esperavam de oficiais Onatra de baixa patente. E funcionou.
A boca do oficial Urbani se comprimiu em uma linha tensa. Eles sabiam que a Armada estava cheia de homens e mulheres que os via como intercambiáveis, indistintos. Era irritante, mas não totalmente inesperado.
Andrei, observando ao fundo, deixou o canto de sua boca se contrair em divertimento. Danila estava desempenhando bem o seu papel.
Os Fáscia já haviam partido. Rentaniel já era deles. E quando os operativos do Reino terminassem sua indignação burocrática, o rastro estaria frio demais para seguir.
Os oficiais Urbani trocaram olhares frustrados antes de se afastarem, suas queixas não encontrando resolução dentro daquelas paredes. Eles haviam cumprido seu papel, feito suas perguntas e sido dispensados com a mesma eficiência fria que definia as relações com os Onatra. O fracasso deles seria problema de outra pessoa agora.
Danila sorriu de soslaio enquanto os via partir, satisfeita com seu trabalho. Mas quando se virou para ir, o cabo a interceptou, pressionando uma mensagem selada em sua palma.
— O que diz? — ela perguntou, franzindo a testa.
Ela nunca havia recebido mensagens codificadas.
— Não sei. Está acima da minha patente. — respondeu o cabo.
Danila o encarou, incrédula.
— E é da minha? O quê? Como eu abro isso? Que porcaria é essa.
Danila já procurando como quebrar as pontas ou o meio.
Com uma paciência que os suboficiais tinham que ter em todo seu trabalho, ele pegou a mensagem, pressionou contra a placa de identificação no uniforme de Danila, e então a pequena peça destravou. Ele rodou a ponta tornando-a uma espécie de monóculo. O cabo sinalizava para ela olhar contra a luz.
Ela virou-se ao claro do céu e uma mensagem estava escrita no fundo do pequeno tubo, ampliada por lentes dentro dele. O sistema obrigava uma leitura individual e uma trava para entrega em mãos. Exigências de um povo que aprendeu com a guerra.
Enquanto seus olhos percorriam as palavras, seu sorriso de escárnio desapareceu, substituído por frustração.
Ela mal teve tempo de falar antes que o cabo se virasse para sair, balançando sutilmente a cabeça. Um aviso silencioso para não verbalizar quaisquer pensamentos que estivessem se formando por trás de seus olhos estreitados.
Ela murmurou uma praga em voz baixa, contendo o impulso de cuspir no chão. Então, se recompondo, ela virou para os refugiados Silvani, que observavam a troca com curiosidade silenciosa.
Sorya e Yadora, junto com os outros, tinham o semblante daqueles exaustos demais para ter esperança, mas desesperados demais para não ter. Eles haviam visto o suficiente para reconhecer decepção quando se desenrolava diante deles, e na reação de Danila, vislumbraram o lampejo de algo inesperado. Uma possibilidade.
— Parece que seus papéis foram aprovados — disse Danila, sua voz tingida com algo que quase soava como tédio. — Vocês podem ir, e quando saírem, nosso pessoal os escoltará de volta à Trifronteira e lhes dará papéis e instruções sobre como proceder a partir de lá.
— A Trifronteira não está em tumulto? — Sorya estava inquieta.
— Vocês vão para o lado Harata. Lá é seguro. Bom, qualquer lugar é mais seguro do que aquela selva que vocês chamam de nação, não é? Não é suficiente?
— E como vamos ... — Sorya ia seguir.
— Olha — interrompeu Danila — um conselho? Encontre o Cântaro Dourado, e implorem aos Harata por qualquer coisa que possam lhes oferecer. Vocês não vão encontrar nada melhor.
Ela se deleitou com o pensamento deles vagando pelos becos, desesperados e perdidos, seus destinos equilibrados nos caprichos de outros muito menos restritos pelo lugar e circunstância que ela.
Os lábios de Sorya se comprimiram em uma linha fina. Ela baixou o olhar, sua voz pouco mais que um sussurro.
— Entendo. Obrigada por tudo.
— Me agradeça indo embora, Silvani. — Danila disse com tom impaciente.
Para Sorya, Yadora e as duas famílias que viajavam com elas, o único fio de esperança residia em alcançar o Cântaro Dourado. A Armada não tinha intenção de garantir sua segurança, apenas de se certificar de que fossem depositados longe o suficiente de Erítria para não serem mais uma preocupação.
O carro as levaria até o Cântaro, cortesia do mesmo Barão Harata que possibilitou sua chegada ao Zhefaq. Seu destino era diferente dos outros Silvani. Não era mais uma operação em uma guerra. Ela servia outro propósito, mesmo que não estivesse claro para ela.
Sorya não sabia que não era apenas uma refugiada sendo descartada para as margens. Ela era um peão em um jogo que ainda não entendia, apesar de pensar que entendia. Se conhecesse sua natureza, talvez achasse bastante atraente.
Os soldados seguiram suas ordens, desempenharam seus papéis como esperado, garantindo que qualquer espectador visse os Silvani deixados à deriva de acordo com o protocolo. Mas esperando por eles no posto estava alguém que não os havia esquecido.
— Sorya, não é mesmo? — A voz era suave, calorosa, mas carregava um inconfundível tom de divertimento.
Melica dispensou os oficiais com a confiança preguiçosa de quem sempre conseguia o que queria. Seu sorriso, impossivelmente suave e desarmante, curvava-se felino, como se toda a troca fosse um jogo e ela já soubesse o resultado.
— Sim. Mas não te conheço.
A suspeita tingia seu tom, entrelaçada com tudo o que ouvira sobre os Harata, sobre a Trifronteira sul em geral.
— Bem, eu sou Melica, do Consórcio. E eu te conheço.
Ela deixou as palavras pairarem por tempo suficiente.
— Temos amigos em comum que estão muito interessados em seu bem-estar, o seu e o de todos os Silvani com você.
Seus olhos se moveram brevemente para os outros Silvani, demorando-se em Yadora.
— Você deve ser Yadora. Um prazer em conhecê-la. Você é mais bonita do que eu pensei.
Melica deu seu sorriso famoso, como uma gatinha perdida.
A postura de Sorya permaneceu rígida.
— E esses amigos? Quando os encontraremos?
Melica inclinou a cabeça, seu sorriso felino se aprofundando.
— Tudo em seu tempo. Eles estão longe da Trifronteira, mas aguardam avidamente notícias de sua chegada. — Melica disse já tomando a frente.
Ela indicou a outros ali, funcionários do Cântaro para pegar as coisas e instalá-los na Estalagem do local.
Ela acenou para a entrada do bar do Cântaro, pela porta que estava ao longe, do outro lado de uma passarela de pedestres.
Gesticulando com graça natural, Melica prosseguiu.
— Por enquanto, peguem a porta que atravessa o salão. Bem no final, sob a janela, há uma mesa posta para vocês. Seus nomes estão na reserva. Eles tem instruções para servi-los.
— E depois? — perguntou Yadora, sua impaciência mal disfarçada.
— Vocês esperam. — Melica disse com a calma de sempre. — Podem ficar na estalagem o tempo que precisarem. Não temos pressa, verdade?
— Nós somos Silvani. Todos tem pressa de jogar-nos para outro. — Yadora zombou. — Não é assim com os Harata também?
Eles estavam chegando no salão do Cântaro. Ao entrarem, Melica apontou para alguns dos presentes ali.
— Eles são Silvani, parecem à vontade. — Ela sorriu.
A expressão da Harata tomou um tom triunfante.
— A sua amiga que fez os arranjos é uma pessoa influente no Consórcio, e é Silvani também. — Melica disse com diversão. — Sua comida, e sua estadia, foram pagas por ela.
A respiração de Sorya prendeu quando as próximas palavras de Melica saíram sem esforço de seus lábios.
— Eu pensei que vocês a conhecessem. Esse tipo de hospitalidade não vem de estranhos, mesmo estranhos de uma mesma nação.
Elas estavam na frente da mesa reservada. Melica esperou que se arrumassem, as duas, os casais, as crianças.
— Bom, Ariel. Ariel da Serenidade. Ela é de algum tipo de 'nobreza' da sua gente. Não sei dessas coisas, mas pra mim, ela é família.
Sorya não teve resposta. Ela mal processou a voz de Yadora ao seu lado.
— Família? — Yadora perguntou, cética.
— Família. Ela é a companheira do meu primo.
Yadora, rápida em se recuperar, deu a conversa por encerrada. Qualquer coisa mais seria entre elas duas.
— Sim claro. Obrigada, Melica. Esperaremos então. Obrigada por tudo.
Mas Sorya não conseguia superar aquilo. Ariel da Serenidade.
A comida e a bebida que os esperavam não eram nada parecidas com o que os Silvani teriam preparado. Há anos Tirayon não permitia criatividade culinária, mas ali, a comida era simples, porém muito mais farta e variada do que há muito viam.
Os dois casais que viajavam com elas, junto com seus filhos, viram apenas bondade, bondade Harata, o tipo que foram ensinados a temer sem conhecer. Mas naquele momento, era claro: Seu povo causou seu sofrimento, e esse povo, Harata, os alimenta e os abriga. Fácil conclusão.
Mas para Sorya e Yadora, isso não era um simples ato de generosidade. Era uma mudança na maré, um jogo cuidadosamente tecido cujas apostas elas ainda não conheciam. Suas mentes giravam, revirando cada possibilidade, cada ângulo, cada implicação silenciosa. E, no entanto, por enquanto, elas se permitiram ter aquilo, sem pensar no jogo, apenas se deixarem confortar pela perspectiva de viver sem ter que arrancar a sobrevivência das ruas.
Elas se permitiram sentar no Cântaro Dourado, se permitiram comer e beber, se permitiram descansar em uma cama não feita para elas. Por um momento, elas escolheram ignorar os fios amarrados a seus destinos. Por um momento, elas escolheram fingir.