Canção de Guerra

Ao saírem dos aposentos, o time foi apresentado a uma imagem caótica. A bruma de vapor ocupava grande parte da paisagem, o que dizia que as máquinas vapor estavam em movimento ou preparando criticalidade para entrar em movimento.
Mais a frente, mais perto do portão sul, o limite da fronteira, eles avistavam de longe uma fumaça mais escura, com reflexos de um brilho amarelo. O que quer que fosse, não era nada bom.
— Mestre Valaravas, a general demanda sua presença no portão sul. — disse um oficial chegando em carro aberto.
— Situação? — Ariel tomou a frente como mais conhecedora da Armada.
O Oficial não sabia se devia responder a uma Silvani.
— A 'Mestre' Ariel lhe fez uma pergunta, 'Tenente'. — Tarja interveio.
— Sim, perdão. Invasores dissidentes no portão sul. Vem com um líder. É tudo que sei.
Eles pegaram seus equipamentos e seguiram para o carro, todos em direção ao portão sul, junto com caminhões de transporte de tropas. 
O barulho dos canhões era surreal. Cada salvo uma batida que vibrava até mesmo o peito de quem estava por perto.
O estrondo do aço. E os gritos, roucos, quebrados, mal humanos sob o peso da agonia. A terra tremia sob eles, mas não era a força de um exército invasor. Eram os moribundos, contorcendo-se nas brasas de Maz Ynis, o fogo amaldiçoado que se agarrava e se espalhava, que se prendia à pele e ao osso como um amante tóxico relutante em partir.
Eles foram conduzidos à torre de observação onde Svetlana e seus oficiais coordenavam a batalha através de toques do 'Zhofahr', uma palavra Onatra para o instrumento feito de chifres de Zho, um animal de carga das montanhas.
O som quando vinha era forte, batido, e podia ser ouvido à distância.
Ariel e Erlan estavam mais afetados pela cena do que os outros. Era exatamente como muitos Silvani um dia descreveram a catástrofe que os assolou. Bombas de um poder absoluto. Tudo em que se deitavam ardia e nada podia conter o fogo. Aqueles que não eram atingidos os suficiente para morrer, provavelmente morreriam pela mera proximidade com o fogo.
Maz Ynis tem o seu cheiro característico de óleo queimado e cinzas, mas havia também o cheiro de cabelo e pele queimadas. Era difícil de tolerar quando não se era um militar de uma nação em constante movimento bélico.
Os dissidentes, ao que parece, haviam subestimado a história.
O bombardeio parou por um instante. Grande parte dos guerreiros inimigos estava já envolto pelas chamas incessantes do bombardeio. Alguns, ainda fora do alcance das armas esperava ao longe.
Svetlana sinalizou ao Oficial de Comandos que tocou um sinal e os canhões foram desarmados. Aquilo era o suficiente e Maz Ynis era um recurso melhor economizado para longos cercos.
Em meia hora, tudo que sobrava eram pequenas poças de líquido preto com pedaços amontoados de qualquer coisa queimada e retorcida. Os corpos dos inimigos queimados até o carbono, junto com suas armas, vestimentas, e o que quer carregassem.
Assentado primeiro ataque, uma horda de talvez um cento caminhava em direção ao recuo sul do Zhefaq. Estavam preparados para martirizar-se por sua causa, ou insanos o suficiente para não entender que era o que estavam fazendo.
Nas ameias ocidentais, Svetlana observava com desapego medido. O inimigo não tinha táticas além da força bruta, nenhuma resposta para uma fortaleza projetada para quebrar exatamente este tipo de assalto.
O batalhão inimigo vinha cruzando o espaço sem medo. O horror da guerra ainda não os havia quebrado. A chegada no Zhefaq provavelmente foi um acordar para a realidade.
Svetlana esta ali, orquestrando uma operação como se estivesse apenas coordenando uma cozinha de um restaurante chique.
Ao seu lado, Valaravas apoiava-se preguiçosamente na pedra, olhos dourados indecifráveis. Ele não era um soldado, não à maneira da Falange. Mas entendia a guerra à sua própria maneira, à maneira daqueles que veem antes de agir.
Ele observou enquanto os dissidentes se reformavam, enquanto os retardatários de sua vanguarda começavam a se reunir. Sua expressão não mudou.
— Eles se juntam e vem chegando. Nós estamos aqui só pra ver, ou tem alguma coisa que precisamos fazer?
Svetlana não se virou.
— Temos inteligência sobre esse ataque. O grupo pesado está para ser neutralizado. Seu grupo é tático. Precisamos de algo que o líder deles carrega. Segundo informações, algo que só o seu grupo pode identificar e confiscar. — Svetlana disse com tom sério.
— E quando é que a sua gente vai terminar a diversão? — Valaravas perguntou irreverente.
— Paciência, Mestre Valaravas, paciência.
O Oficial soou a Zhofahr três vezes com tons longos e agudos.
Dos portões ocidentais, a falange avançou em formação perfeita. Escudos travados, um quadrado inquebrável de aço e disciplina, seus passos sincronizados, seu ritmo inabalável.
A primeira fileira absorveu a carga desesperada dos dissidentes. Seus escudos não cederam, suas lanças não erraram. A segunda fileira avançou, penetrando nas brechas expostas, empalando os imprudentes. O ritmo de seu assalto não era rápido. Era metódico. Preciso.
Então, outro comando.
A formação de corrente e gancho.
Cada soldado agarrava não apenas seu próprio escudo, mas o escudo de seu companheiro ao lado. Uma corrente de aço, inflexível, inquebrável, uma cunha de ferro avançando através da carne. Os dissidentes não tinham para onde ir a não ser para dentro da formação. A formação apertava contra si mesma. Um único círculo encolhendo, sufocando suas vítimas. Lanças pressionavam de dentro, apunhalando, cortando, esmagando.
Não havia escapatória.
Aqueles que tentaram se libertar se viram afunilados em direção a um corredor, o corredor Erítrio.
Uma armadilha mortal onde a Falange da retaguarda mantinha as lanças abaixadas, esperando. Qualquer um que passasse era empalado antes que o corredor se fechasse.
Não houveram prisioneiros.
Quando o último escudo encontrou outro, quando os corpos estavam empilhados sob seus pés, a Falange recuou, não deixando nada vivo.
O silêncio se seguiu.
Svetlana se virou. Sua voz era agradável.
— Por favor, Mestre Valaravas. Sua presença é requisitada no campo de batalha.
Ela sorriu.
O toque curto seguido de toques lentos, e a falange se retirou, sua marcha inalterada, sua formação tão coesa quanto quando começaram. Suas armaduras brilhavam com sangue, mas nenhum era deles.
E nas sombras do portão oriental, a equipe de Valaravas se esgueirou.
A fumaça se enrolava ao redor deles, flutuando através de figuras mutáveis enquanto se moviam em direção ao que importava.

Os líderes do grupo de dissidentes estavam mais longe. Sabiam que era a distância adequada em que as armas de proteção não alcançavam, e as armas de ataque não seriam usadas contra três meros comandantes de campo.
Wilh'Thaz, como ele se apresentaria, carregava com ele uma importante relíquia que a Armada não iria destruir com Maz Ynis, ou permitir que um soldado qualquer tomasse para si.
— Não vou conseguir usar o rifle aqui. A fumaça, o campo. A distância. Vamos ter que atacar de frente. — Ariel avisou Valaravas.
Valaravas assentiu.
Os dissidentes estavam completamente vestidos em uniforme de combate, mas através da viseira Valaravas podia ver com quem estavam lidando.
— Um comandante Varta, para uma simples incursão. Gentil de sua parte trazer a Gamadala. Assim não precisamos buscá-la. — Valaravas disse aproximando-se.
Ao chegarem a uma media distância, o time se protegeu nas pedras que ladeavam a entrada do Vale. Os atacantes não pareciam carregar armas de fogo, mas não era seguro apostar nisso.
Wilh'Thaz inclinou a cabeça, algo entre curiosidade e escárnio.
— Não estamos aqui por eles. Estamos aqui por vocês. — O Varta disse em sua voz forte e rouca.
Valaravas acenou para Erlan a Tarja contornarem por de trás das rochas. Deviam fechar as saídas.
— Eu já acho que estão aqui porque estão desesperados. —  Valaravas disse observando o movimento dos dois. — O Vale não tem sido muito bom pra vocês.
— Harata, Bo'utage foi um tolo de confiar na sua gente. Não cometerei o mesmo erro. — Wilh exclamou, avançando vagarosamente com seus tenentes.
Valaravas não desviou o olhar de Wilh'Thaz, mas sua voz era tão suave como sempre. 
O Harata contava para Ariel a medida que via Tarja e Erlan se posicionando.
Erlan do seu lado se moveu primeiro. Com sua furtividade natural, seguiu no dissidente Onatra que flanqueava Thaz pela direita. Ele conseguiu inutilizar seu rifle de assalto, mas seguia em franco combate manual.
Tarja seguiu no dissidente da esquerda, desarmando-o igualmente, e iniciando manobras de supressão, afastando-o de Thaz.
Valaravas e Ariel seguiram. Valaravas na frente, com uma ginga baixa, contornando a linha visada de Ariel, enquanto ela utilizava uma semi automática .380 para suprimir Thaz quando Valaravas abria espaço.
Ariel e Valaravas então convergiram para Thaz tentando remover sua arma pesada. Era importante saber onde estava a relíquia.
Erlan puxou o dissidente ao lado contra si, afastando-o dos companheiros. O oponente puxou sua lâmina e tentava atacar Erlan, mas o Silvani era mais ágil no combate de perto. 
Tarja por outro lado tentava submeter o oponente impedindo que usasse suas armas. Ao mesmo tempo tentava trazê-lo para junto da luta de Erlan.
Erlan ouviu o silvo que já conhecia bem, e agora tinha um propósito. Impedir que o oponente utilizasse qualquer arma de fogo, e procurar pontos fracos em suas vestes. Ao invés de procurar um ponto certeiro para uma lâmina, ele preferiu apenas tentar conter o oponente.
Tarja por outro lado havia se aproximado, mas estava ainda sobrecarregada com a capacidade de combate do oponente.
Erlan achou sua entrada. Ao guilhotinar o oponente, ele apenas removeu parte de seu capacete protetor, e então o largou à própria sorte.
Enquanto ele se movia para arrumar a proteção, uma rajada de balas seguiu uma linha vertical, pescoço, queixo, nariz e testa. 
Erlan se virou ao longe observando Ariel preparando a arma para seguir.
Tarja ainda estava as voltas com conter o outro inimigo.
A Carpata se lembrou da luta de Svetlana e Valaravas, e pensou que talvez, agora, ela era a leve dos dois. Com movimentos circulares ela tentou enrolar-se ao redor dele ao invés de sobrecarregá-lo com força. 
Erlan que observava, já livre de seu oponente, veio de carrinho baixo derrubando tanto Tarja quando o adversário.
Erlan segurou o dissidente pelo pescoço, enquanto Tarja deu um coice de calcanhar, que devia ter pelo menos atordoado o inimigo.
Enquanto levantavam-se, Erlan puxou sua pistola reserva e num movimento fluído, tocou-a nos olhos do inimigo, a única parte desprotegida, e descarregou uma rajada. Era impossível errar.
Thaz não seria tão fácil de enfrentar assim. Mas o Varta percebeu que seus comandados haviam sido neutralizados.
Com um movimento rápido, ele pegou algo de um bolso de seu sinto e atirou no chão. Era uma bomba de fumaça, mas não era qualquer fumaça.
Todos, inclusive Thaz se viram atordoados pela fumaça densa. Ela não permitia a nenhum deles enxergar. Mais do que isso, cobria o campo com um cheiro amadeirado, forte, nauseante.
Os Silvani e Tarja simplesmente procuraram a melhor direção para fugir, mas seus passos eram cambaleantes.
Valaravas, já sabendo o que viria, simplesmente agachou-se. Com o corpo baixo, ele esticou o braço para traz de si, e puxou a poeira no solo. Então seguiu a direção sempre apoiando a perna na linha já desenhada, e desenhando a linha mais ainda na mesma direção.
A fumaça de expandia, e mesmo se afastando, Valaravas não podia sair dela. Esse não era seu objetivo.
Ele retirou seu karambite cerimonial, que estava como um pingente em seu pescoço, e o atirou o mais longe que poderia, antes de perder completamente o balanço e cair no chão.
Por um momento todos ficaram ali, sem conseguir se mover. 
Observando de longe, o pelotão da Armada fez menção de ir em apoio. Svetlana os comandou a ficarem.
— A luta é deles agora. Se aquilo é o que penso, quanto mais gente afetada, pior. — A general falou com finalidade.
Tarja e os Silvani tentavam levantar-se, mas não viam nada. Ou estavam cegos pela química, ou a fumaça estava densa para tapar a luz.
Thaz estava também se recuperando devagar. O que quer que fosse, tinha afetado a ele tanto quanto aos outros.
Valaravas mais longe seguia acocorado mesmo sob os efeitos daquela fumaça. Ele sabia onde estavam Thaz e seus companheiros, mas já não podia ver ou sentir o chão. 
Os Silvani estavam perdidos. Era como se estivessem dentro de uma caverna, completamente escura. Não havia sons, não havia nada. Eles nem mesmo viam-se.
Tarja estava certa de que não era a fumaça que bloqueava a luz. Era ela que não conseguia ver.
No escuro, uma forma espectral distante começava a surgir. Era Thaz, mas não como ele parecia antes. Ele era etéreo, e maior. Ele se aproximava vagarosamente dos três, cada um vendo apenas Thaz, mas não um ao outro.
Uma outra forma começou a aparecer na visão deles, humana, lustrosa naquele espaço de penumbra. Mais rápido que Thaz, ele se dirigia para interpor-se entre eles e o inimigo.
Quando estavam relativamente perto, podiam ver que era Valaravas, com uma forma espectral. Em sua testa, uma luz mais potente, azul, que Thaz não tinha.
— Então és um deles. Escravo. Pode ser que consiga reagir, mas não pode me vencer. Não aqui. — Thaz disse, a voz ainda fraca em recuperação.
— Escravo talvez. Mas um servo de poderes maiores que o seu. — A voz de Valaravas podia ser ouvida, mas não era ele falando.
A forma espectral de Valaravas não mexia os lábios, nem mesmo a cabeça, mas sua voz podia ser ouvida claramente.
Thaz partiu para cima de Valaravas, com as mãos como se flamejantes.
Valaravas em sua forma espectral brilhava enquanto gingava em volta de Thaz, esquivando-se de todos os golpes. 
Tarja, Ariel e Erlan podiam apenas observar cada um aos combatentes, mas não viam uns aos outros, nem a si mesmos. Era como se fossem vistas suspensas no ar.
O combate demorava-se, era como se Valaravas não tivesse, ou não quisesse atacar Thaz de nenhuma forma.
O Varta seguia tentando acertá-lo com seus punhos, brilhando como fogos chispantes, e errando o Harata em sua forma etérea.
Foi algum tempo nesse embate que ambos pararam como por acordo. Thaz estava curioso, mas Valaravas apenas deu alguns passos para trás como se fugisse de alguma coisa.
Todos sentiram um calor e um brilho que se consumia na escuridão, apenas deitando-se nas formas de Valaravas e Thaz, como um sol que apenas ilumina os seres, mas não o ambiente, nem o chão.
Eles olharam ao longe uma forma indefinida feita de pura chama amarela se aproximasse rápido como uma corredora de cem metros rasos. Aproximando-se e tomando a forma de uma mulher, ou quase.
Conforme ia chegando, a silhueta ia definindo-se, como uma mulher sim, mas uma mulher com seis braços, pernas como as pernas traseiras de um felino, e o rosto de uma caracal, as orelhas pontudas concentrando um fogo que queimava brilhante entre elas.
— A relíquia que carregas. O óbulo do sol invicto, não lhe pertence. — A mulher disse, uma voz completamente estranha, como se falada por cem pessoas.
— O poder é meu. A relíquia é minha. — Thaz respondeu claramente enervando-se.
A mulher então aproximou-se de Thaz. Ele era alto, mais alto que o mais alto Onatra, mas a mulher era maior que ele, sua aproximação trazia ondas de calor calcinante.
Thaz esqueceu-se de Valaravas e dirigiu-se a mulher com fúria. Ele queria não só lugar, mas provar-se superior em todo o jeito.
Valaravas se ajoelhou ao solo, e de sua testa, o brilho se ligava ao fogo sobre a cabeça da mulher caracal.
Thaz tentava os golpes mas a mulher era mais ágil, e seus braços, mais ágeis, mais fortes e em maior número o sobrecarregavam.
Thaz afastou-se por um momento. Como se batesse em seu peito, sua forma tornou-se mais brilhante, mas ainda não como a da mulher. 
Ele investiu, e foi como se para estrangular a oponente.
A mulher então segurou os braços do oponente com seu primeiro par de mãos. Apertou-lhe o pescoço com seu segundo par de mãos.
O terceiro então cresceu garras das pontas dos dedos, que estilhaçaram o corpo da forma de Thaz.
Depois de uns quantos golpes, e a forma de Thaz estava inerte, a mulher caracal soltou o Varta que tombou no chão.
A mulher mesmo seguiu andando mais fraca na direção da forma de Valaravas, transformando-se de volta em uma forma humana simples, que diminuía em brilho. Ela chegou perto da forma do Harata, e caiu no chão junto a ele.
Eles ficaram ali por algum tempo, e os outros só podia observar, sem poder agir.
Suas mentes entorpeceram novamente, e tudo aquilo se desvaneceu. Era como se estivessem anestesiados, todos eles. 
Alguns momentos e podiam novamente ouvir os barulhos do fogo ao longe crepitando, e os movimentos da Armada aproximando-se com carros de emergência e oficiais da emergência.
Os Silvani acordaram primeiro, observando que Valaravas estava, em seu corpo real, no mesmo lugar onde viram o corpo espectral pela última vez, mesma distância, mesma direção.
Tarja também foi se recuperando e pode observar a mesma coisa.
Quando focaram, mais recuperados, observaram que ele estava sentado no chão, com uma pessoa deitada em seu colo.
Arrastando-se para perto, perceberam que era Nandi, com os cabelos desarrumados, a roupa empoeirada.
Eles seguiam para juntar-se a eles, mas a emergência da Armada chegou antes, colocando-os em macas para emergência.
O corpo de Thaz estava ali, caído no chão, com ferimentos por todo ele, cortes, lacerações e punturas, e o pescoço quebrado.
Ao serem colocados nos veículos de emergência, eles se deixaram levar pelo descanso e segurança.
Explicações teriam que aparecer, mas naquele momento, seus corpos estavam no limiar da exaustão. Os oficiais da emergência pareciam saber com o que estavam lidando.