Calma antes da tempestade

Era o meio do dia, e outros afazeres consumiam os soldados não em patrulha pela fortaleza em forma de cidade. O Zhefaq não parava, e mesmo já chegando o almoço, ainda assim muitos estariam em seus postos, enquanto outros iam para os refeitórios.
O time, fora da rotação do Zhefaq, voltava para os alojamentos, os Silvani preferindo seguir com a equipe.
Nandi caminhava com a mesma naturalidade de antes, sua consciência ainda meio enraizada no véu mutável entre o transcendente e a realidade. Mas sua voz estava firme quando ela falou.
— Svetlana e Valaravas, a mesma música, a mesma dança. Mas Tarja, você novidade. — A voz forte tinha uma ternura rara.
— Aprendi uma coisa ou outra desde que nos conhecemos. — Tarja disse meio acanhada.
Erlan observava Tarja de perto, queria dizer muitas coisas, mas ainda não tinha o senso de carisma para fazer-se entender como queria. Então ele agarrou o ombro de Tarja e empurrou levemente. Um sorriso fraco, esperando que ela entendesse o sentido.
Tarja considerou por um momento, depois deu um soco leve nos ombros de Erlan e sorriu.
O sorriso de Erlan ficou mais natural. Eles se entendiam.
Tarja exalou, balançando a cabeça.
— Eu nunca vi o Valaravas lutar daquele jeito. — Havia algo de admiração na voz da Carpata. — Ele não é tão magricela no fim das contas.
Erlan apontou para ele e para Tarja.
— A gente podia lutar também. — Ele sorriu sem jeito. — Bom treino.
Tarja hesitou, depois deu de ombros.
— Certo, garotão. Mas sem sacanagem que nem eles. Luta séria.
Ouvindo isso, Ariel caminhou um pouco à frente, seus pensamentos correndo. Ela olhou para trás, seu olhar demorando-se entre Tarja e Valaravas antes de se fixar em Tarja.
Ariel não sabia muito como proceder. Tarja, sem filtros, mas perspicaz entendeu rapidamente. Ela sabia que Ariel entendia, mesmo que não falasse muito.
Tarja exalou pelo nariz.
— Precisa ficar com ciume não mocinha. Isso deles é coisa normal. Coisa de Harata. — Tarja riu-se com vontade.
— Como assim? — Ariel sinceramente estava curiosa.
— Harata, sabe como é? Melhor eu não te contar como foi quando eu conheci ele.
Nandi riu baixinho, ouvindo. Todos sabiam como ela se sentia em relação a Valaravas, mas entre eles, era diferente. Não era sobre pertencer, não era sobre compartilhar. Era sobre simplesmente ser.
Valaravas, sempre casual, abriu as mãos.
— Peculiaridades da cultura do leste. — Valaravas tentou amenizar.
— Val, eu sou do leste. Onachinia. E não temos essa cultura de pegação não. — Tarja jogou na fogueira.
— Talvez a gente devesse questionar essa coisa de Leste e Oeste. — Erlan olhou para Ariel. — Ou pelo menos você devia, irmã.
Ariel não disse nada, mas algo cintilou em sua expressão, uma irritação enterrada fundo o suficiente para ser ignorada. Pequena e retorcida, silenciosa, mas persistente. Um toque de ciúme?
Valaravas virou para Erlan com um sorriso maroto e palavras Silvani.
— Eu sei o que você estão dizendo, sabe?
Ariel nem estava mais sintonizada com a conversa.
Ela pensava que esse tipo de proximidade íntima e sem palavras era algo especial, que conquistara com Valaravas. Não algo que ele compartilhava tão livremente com qualquer uma. Ela disse a si mesma que não era nada, mas o pensamento permaneceu. Nandi era diferente. Ambos tinham Nandi. Mas Svetlana? Svetlana era uma estranha. Ela era de fora.
Valaravas deu de ombros, sua postura ainda relaxada, a satisfação estampada em seu rosto.
— Svetlana é uma das poucas com quem posso lutar sem me conter. É divertido.
— Vamos começar então eu e você. Ela é forte, mas eu sou ágil. Por que não tentamos então. Sem conter nada? Temos bastante tempo, já que estamos viajando juntos mesmo. — Ariel decidiu jogar o vazio.
Tarja estava percebendo um jogo territorial ali. Um que ela não tinha nada a ver.
Até Erlan que era mais desligado dessas coisas, parecia estar começando a entender com tudo que estava começando a pensar com Tarja.
Valaravas se moveu em direção a Ariel, perto o suficiente para que se tocassem levemente. Uma proximidade casual e familiar.
— É mesmo, por que não tentamos? — Ele riu. — Mas de qualquer forma, você sabe que sempre vai ser minha Silvani favorita.
— Harata nunca mente, mas com certeza nunca tem vergonha na cara também. — Ariel disse em tom sarcástico.
— Aí está uma coisa que Svetlana nunca faria. É mais divertido assim. ­— Valaravas sorriu de lado.
— É bom mesmo. — Ariel se virou ligeiramente, a voz mais leve.  — Mas isso não acabou. Você me paga.
Chegando na ala residencial, havia ali onde prepararem algo para comer eles mesmos. Suas provisões ainda tinham alguma coisa que aproveitar, e qualquer coisa era melhor que a chatowa do quartel.
Em Zhefaq, o ambiente não era libertador. O time se dividia em alojamentos, num ambiente que não era inspirador para fraternização civil. Os olhares racistas aos Silvani eram óbvios o suficiente sem provocá-los ainda mais.
O lado residencial porém era mais vazio, uma área negligenciada exceto por um zelador e alguns serviçais que pouco ligavam quem estivesse lá, ou o que acontecesse.
A tarde foi passando preguiçosa, sem eventos de grande importância. Tarja estava ocupada andando por onde pudesse e absorvendo a cultura Onatra. Nandi e Valaravas estavam por ali, sempre conversando em seus tons baixos. Ariel e Erlan, na falta de qualquer outra coisa para fazer, também observavam e falavam em tons baixos.
O zelador, de aparência diminuta para um Onatra, mas muito grande para ser Harata, vestindo um uniforme de baixa patente, trouxe consigo ajudantes para as atividades de manutenção do fim do dia. Aquilo, de tudo seria a coisa mais normal em uma base militar.
Sua saída entretanto foi interessante. Ele e Valaravas trocaram palavras, afastados de Nandi que parecia estar em qualquer outro lugar que Ariel e Erlan não podiam ver.
Valaravas e o Zelador trocaram palavras como se fossem velhos amigos, e o Zelador trouxe um serial diferente, completamente em vermelho escuro, que entregou para Valaravas com um certo subterfúgio.
O mais interessante era que eles procuraram um lugar onde havia um ponto cego entre as muitas câmeras espalhadas pelo lugar.
Os Silvani entreolharam-se com a certeza de que aquilo era um ponto importante para o futuro.
Zhefaq nunca dormia de verdade à noite, mas dentro daquelas muralhas eles podiam, pelo menos, encontrar algum descanso. O dia fora longo e o amanhã prometia ser ainda mais.
Todos foram relaxar e terminar aquele dia de uma forma.
Uma coisa era certa em Zhefaq: Todos sentiam-se seguros de qualquer ameça externa. O que era pelo menos um ponto positivo em toda aquela aura de controle e opressão.
A manhã seguinte não chegou em paz porém. Tudo estava quieto, muito quieto.
Não havia o ruído das tropas marchando, não havia o ruído dos comandos de treino. Nem mesmo os corvos que são numerosos ao redor da base, e uma espécie de alarme natural, estavam presentes.
O silêncio, em uma base militar, nunca é sinal de algo positivo. A base estava preparando-se para algo, e o que quer que fosse, não era simples rotina.