Bravura e bravata

Ao norte do caos controlado criado no sul, a fortaleza de Zhefaq cozinhava com pressão controlada, aumentando constantemente. Dentro de seus salões, o Coronel Aleksandr, a mais alta autoridade na ausência de Svetlana, esperava pelo inevitável: notícias da Lâmina de que Rentaniel estava foragido.
A confirmação de sua captura ainda não havia chegado, mas Aleksandr tinha poucas dúvidas. Sua fé na Armada era inabalável: a resposta viria em breve.
Mesmo antes que a notícia oficial o alcançasse, Aleksandr já havia começado a fazer preparativos. Se Rentaniel de fato tivesse sido capturado, e se a Armada o tratasse como deveria, os Urbani não aceitariam isso calados. O Zhefaq se preparava para dias turbulentos pela frente.
Enquanto o coronel cuidava dos assuntos diários da fortaleza, um oficial se aproximou, empertigado em posição de sentido.
— Coronel, senhor. Mensagem urgente.
— Da Lâmina? Dos Harata? — Aleksandr esperava calmo.
— Não senhor. Interna. Do comando geral.
Isso mudava as coisas. Se a Armada havia contornado a Lâmina e enviado uma mensagem diretamente, significava que os Harata ainda não estavam informando. Pelo menos, não oficialmente.
A mente de Aleksandr entrou em ação. Rentaniel já estava sob custódia. Isso significava que era hora de agir. Ele não perdeu tempo em providenciar a transferência do prisioneiro para o Zhefaq, a instalação de confinamento totalmente da Federação Erítria, e mais próxima. A Trifronteira não teria direito sobre Rentaniel uma vez que ele estivesse dentro destas muralhas. Restava apenas um problema: se Svetlana interferiria. Mas Aleksandr duvidava.
Em sua opinião, Svetlana havia se tornado confortável demais na cama com os Harata e Urbani da Fáscia para se preocupar com os detalhes de seus negócios no Oeste. Ela não contestaria sua decisão, a menos que alguém a forçasse. 
Enquanto isso, os alojamentos inferiores, as forjas, as cozinhas, os depósitos, aqueles que eram frequentemente ignorados, eles já haviam ficado sabendo dos preparativos de Aleksandr.
Os Harata e Carpata que trabalhavam no Zhefaq não eram apenas servos ou mercadores. Eram ouvintes. Suas mãos passavam comida aos soldados, seus ouvidos escutavam por corredores não guardados por segredos. Quando as ordens mudavam, quando os movimentos se alteravam, quando o peso do comando se inclinava em novas direções, eles eram os primeiros a notar.
E quando eles notavam, a Lâmina notava. Era onde os Harata triunfavam.
Os Harata trabalhavam ao lado dos oficiais de baixa patente, vendiam-lhes suas refeições, proporcionavam-lhes pequenos confortos. E pagavam bem por informações em troca. No momento em que Aleksandr finalizou suas ordens, a notícia da captura de Rentaniel já estava escapando pelas frestas, vazando para as correntes subterrâneas da cidade.
A oeste dos movimentos do Zhefaq, no coração da Trifronteira, o Cântaro Dourado vibrava com seu barulho habitual, um calor denso e sufocante de intriga e indulgência.
Nos andares inferiores, contratos táticos eram disputados por aqueles sem nada a perder. Tramas nasciam em cantos mal iluminados. Mentiras eram trocadas como moedas. O de sempre.
Mas acima, onde a elite Urbani e Harata se misturava, o poder por trás desses sussurros se solidificava em algo mais tangível. E ali era onde os sussurros ecoavam filtrados pela importância.
Zavandras, gerente do bar do Cântaro Dourado, não era um mero cuidador de bar. Ele lidava com o fluxo de informações com a mesma destreza com que manuseava garrafas de vinho.
Naquela noite, uma de suas mais populares garotas se aproximou com um serial, deslizando-o em sua palma antes de subir para começar seu turno. Zavandras ativou-o pelo terminal, lendo a frase curta e simples.
[O homem de vime está no poste.]
Sua expressão não se alterou. Com precisão cuidadosa, tirou o serial recém gravado de seu leitor de pulso e colocou em uma bandeja com uma taça metálica em cima. Uma garrafa de Vista Exotica servida, meia medida, seu líquido escarlate capturando a luz fraca da taverna.
Uma outra garota pegou a bebida conforme orientação de Zavandras, subindo as escadas e serpenteando pelos níveis superiores antes de colocá-la na frente de um Urbani em particular. O Urbani não tocou no vinho, em vez disso, apenas levou o serial já saindo.
O Harata que estava sentado com ele, relaxado em uma pose casual, pegou a taça abandonada, entregando à moça que esperava.
— Aproveite, seu trabalho aqui está feito, lindinha. — Ele murmurou para a garota.
Ela sorriu alegremente, tomando sentando-se no encosto do sofá largo, bebendo seu vinho com tranquilidade.
O ritmo do Cântaro seguiu como sempre, e aquele não era mais que uma das rotineiras trocas feitas naquele espaço. Mas era uma que iria desencadear muitas outras, no andar térreo.
Ao amanhecer, a notícia da captura de Rentaniel havia chegado ao Khara e, mais importante, aos ouvidos de Svetlana. Ela não estava particularmente preocupada com o destino dele. Rentaniel em si era irrelevante. O que importava era como sua captura alteraria o delicado equilíbrio de seus relacionamentos.
Para os Urbani, ele ainda era o amado filho de Audren de Seldanar, homem e não sucessor, mas ainda nobre, de uma certa forma. E era da Fáscia.
Para os Onatra, ele era um prisioneiro. Um homem sem poder, sem direitos, sem posição.
A única incerteza residia em como Valaravas responderia. Ele tentaria intervir? Ele a pressionaria para agir?
A falta de mais detalhes sugeria que não. Ou, a remota possibilidade de que ele ainda não sabia.
De qualquer forma, Svetlana não tinha intenção de ser arrastada para um conflito desnecessário. Ela passara anos mantendo um equilíbrio cuidadoso entre os Harata e os Urbani, e não deixaria que o destino de um Urbani abandonado o perturbasse.
Enquanto isso, na Trifronteira, as tensões aumentavam.
Os Urbani da região haviam começado a pressionar por respostas. Tinham ouvido sussurros de que um nobre Urbani fora levado por anarquistas, mas em nenhum lugar nesses rumores estava a verdade crucial: a Armada o tinha.
Enquanto o caos e as exigências inundavam o posto da Armada na cidade, o homem que primeiro colocou esses rumores em movimento permanecia despreocupado. Elmund, o infiltrador Urbani, sentou-se mais uma vez em sua mesa de sempre, bebendo o mesmo vinho, desfrutando da companhia da mesma garota Harata.
Ele olhou para o homem à sua frente, Tagravas, sempre composto, sempre charmoso, o Harata cujas mãos estavam sempre no jogo político.
— Tegravas, meu velho. Confio que estamos garantidos de que a informação chegou à quem deveria, certo?
— Claro, Elmund. Eles cuidarão de todas as pontas soltas. — Tegravas disse apenas sorrindo.
— E os selvagens? Já babando com sangue nos olhos?
Tegravas parou por um momento, seus dedos fazendo contas, sua mente em outras preocupações, numa pausa para processar a pergunta.
— 'Selvagens', eles ainda estão lidando com seu próprios problemas. A Armada quer essa situação para eles, e é assim que deixaremos. — O Harata disse voltando aos seus pensamentos de negócio.
— Pensamos o mesmo antes. Que os selvagens lutariam entre si e a Armada varria os pedaços que sobrassem. E no final, tivemos que intervir. — Elmund disse com certo cinismo.
— Tivemos? Você, principalmente, mas mesmo seu povo, não tiveram nada a ver com isso. Foi sangue e dinheiro Harata que interviram meu amigo. Nós. Não vocês. — Tegravas disse com o indicador levantado.
Elmund riu-se em escárnio.
Tegravas fez uma pausa, encarando o Urbani.
— Você deveria se preocupar mais com a sua parte. Cuida aí da sua garota, e fique bem quietinho, porque outro deslize de idiota bêbado e a sua vida vai ter bem pouco valor no geral das coisas. — Tegravas disse muito sério para sua usual personalidade.
— E isso seria triste para você, não? — Ele passou os dedos pelo corpo da garota que sentava em seu colo.
A reação dela era sincera o suficiente. Harata, ela também não mentiria. O que causou sua reação porém, só ela sabia.
— Como você não aproveita também dos prazeres do Cântaro? Tudo isso é só imagem pra você Harata? — Elmund disse com divertimento.
— Não é sensato para um mercador deleitar-se em sua mercadoria. — Ele disse olhando para a garota, que sorriu com graça felina.
— Estou começando a achar que o único prazer que você tem é o jogo, velho. — Elmund disse voltando à sua garota.
Tegravas serviu-se de sua bebida, voltando aos seus dados e mensagens.
— Sim meu amigo. Especialmente quando o jogo pende fortemente à meu favor. Em várias vias, fortemente à meu favor. — Tegravas disse como um pensamento quase.