Braço forte, mão amiga

Quando os primeiros raios de sol se derramavam sobre os telhados da Cidade do Luar, Ariel e Erlan partiram para a Taverna, seus passos firmes, mas seus pensamentos inquietos. Eles haviam recebido notícia que Valaravas os esperava. Era o momento de saber quem assinou as mensagens, suas passagens, e lhes deu um futuro novo.
Tarja recebeu uma mensagem semelhante, mas bem mais simples, já que conhecia Valaravas, então era apenas mais um chamado. Provavelmente uma oportunidade para saber o que aconteceu depois da última missão e os próximos passos.
Enquanto os Silvani se aproximavam da rua sinuosa que levava ao seu destino, os olhos aguçados de Ariel avistaram uma figura imponente à frente, uma mulher, alta, de ombros largos, poderosamente constituída. Não era como a Onatra. Suas formas eram generosas, bem arredondadas, mas não menos imponentes. O cabelo escuro também era diferente do que Onatra sempre ostentava. Para eles porém, toda pessoa grande era algum tipo de Onatra.
A presença daquela mulher por si só era suficiente para chamar a atenção, mas para Ariel, ela era algo particular. Seus movimentos tinham um controle que Ariel mesma não possuía. Ela era alguém treinada não apenas em força, mas em disciplina. Ariel já conhecia os guerreiros Baluarte antes, pois eram aqueles que se levantavam em linhas de cerco ao lado da Falange, absorvendo o impacto dos assaltos, permanecendo firmes onde outros planejavam seus próximos passos.
Os Baluartes Onatra não eram falanges, mas eram mais do que soldados comuns. Eles não avançavam, eles defendiam. Eram defensores de posições chave, suportando assaltos, resistindo aos elementos, mantendo-se firmes até que a ameaça de morte certa estivesse sobre eles. E esta mulher, com seus cabelos ruivos escuros trançados, refletindo a luz do sol como metal polido, carregava aquele mesmo ar de presença absoluta. Sua forma, braços e pernas grossos, construída não apenas para o movimento, mas para a resistência.
Ela não apenas caminhava, mas observava discretamente seus arredores. Estava ciente de como se postava, de como se movia, como se a vida a tivesse ensinado a estar sempre alerta.
Era uma visão que provavelmente Tarja não tivesse de si mesma.
Ariel estava admirada e apenas acenou discretamente dirigindo Erlan para a figura.
Erlan mal ergueu o olhar. Sua indiferença carregada de mínimas palavras, como se estrangeiros preparados para violência circulando por uma cidade de negócios escusos fosse uma simples consequência.
Ariel suspirou em discordância silenciosa. Não era apenas o corpo, nem a armadura de couro Carpata, era outra coisa. Havia intenção por trás de cada movimento desta mulher. Esta não era uma pessoa meramente forte, era alguém que conhecia a luta por algo em que acredita, algo por que vale a pena lugar. Era aquilo que faltava nela, e em seu irmão.
Ariel lembrou-se do encontro no Mercado, traçando as diferenças entre a Onatra que vira e esta que estava à sua frente.
Erlan desviou o olhar repentinamente, e Ariel seguiu seu olhar.
Quatro Laceradores Urbani caminhavam pela rua, vestidos com as famosas armaduras de pedra negra em armação de metal azul, forjadas nas cavernas das Terras Altas de Pasvara. Originalmente uma inovação Harata, aperfeiçoada pelos Urbani, a liga possuía a resiliência de uma blindagem pesada, mas mantinha a flexibilidade de uma armadura mais leve. Até mesmo suas luvas eram uma arma, sólidas o suficiente para esmagar ossos com um golpe bem colocado.
A atenção de Erlan se desviou para sua periferia. Seus instintos, aprimorados pela experiência, captaram o destacamento completo da força de escolta e remoção Urbani movendo-se com perfeita disciplina. Estes estavam particularmente marcados com o brasão da guarda real de Seldanar, mas seu brasão de armas não era o que ele vira antes. Estes tinham azuis mais claros no escudo, as corujas de suporte estavam mais próximas, uma estrela a mais nos barretes.
— Parece que os seus queridos Harata estão mais importantes do que imaginávamos irmã. — Erlan alfinetou Ariel.
— Obravar parece estar confortável pra quem está sendo interrogado por uma Guarda Real Urbani. — Ariel apontou para a Taverna mais a frente.
Quando entraram, a mulher estava terminando a conversa com Obravar, e a mulher forte que acabaram de ver, que não sabia ser Tarja, estava saindo junto com uma criança que tinha semelhança com ela, pele clara, cabelos ruivos, rechonchuda, e alta para a idade que seu rosto mostrava. Dois Harata os acompanhavam.
Ao chegarem ao salão, eles já haviam ido.
— Quem eram eles? E aquela Onatra? — Ariel perguntou para Obravar.
Os olhos castanhos e aguçados de Obravar encontraram os dela. Um olhar familiar. Um olhar Harata, aquele que dizia: eu sei mais do que vou te contar.
— Não a conhecem? Ela é do grupo de vocês!
Ele limpou o balcão da mesma maneira praticada e sem pressa, como tudo que fazia.
— Ela é Carpata, não Onatra. Comissária do Grêmio, como vocês. Ela está com o Mestre Valaravas, ele os espera no Mezanino.
As sobrancelhas de Ariel se ergueram.
Obravar, pela primeira vez, lhes dera mais informações do que esperavam. Ele não fora informado para esconder nenhum daqueles detalhes dos Silvani, então eles ainda não sabiam de nada, e Obravar poderia se beneficiar de causar uma boa impressão aqui e ali.
— Bom, tudo será explicado. Valaravas está esperando. Só subir por aquela escada. — Obravar apontou com o olhar.
— Um conselho de um velho Harata. Ele é juiz do Consórcio, e Legado de Ayla de Seldanar, a filha da Grande Mãe da Fáscia. Lembrem-se disso. — Obravar encarou Erlan — Especialmente você, garotão.
Erlan tinha uma réplica preparada, mas, pela primeira vez, hesitou. Parecia algo maior que ele. Embora não conhecesse a parte cultural, a parte da "Mãe da Fáscia" tornava tudo muito impressionante, mesmo para ele. E claramente explicadas as diferenças nos símbolos dos Laceradores.
Seguir Ariel sempre fora sua jogada mais inteligente, e a julgar pelo movimento lá fora, nem mesmo ele seria páreo para um lacerador Urbani de elite, muito menos para um grupo deles. Os Silvani eram mais ágeis que os Urbani, por uma grande margem, mas a armadura Urbani exigia uma força que nem os melhores Silvani possuíam. Elas foram feitas para parar máquinas de guerra, não meros guerreiros.
Enquanto subiam as escadas estreitas, Ariel repassava as palavras de Obravar em sua mente. Valaravas também estava apresentando a mulher Baluarte ao grêmio. Embora eles, sem dúvida, tivessem sido preparados e tivessem tido a ajuda de Obravar e Rafiq, mesmo que geralmente tivessem um caminho pavimentado pela tribulação, ao que parece, o Juiz se encarregara pessoalmente da introdução da baluarte. Ariel sentiu uma pontada de inveja, ou ciúme. Até então, seu caminho pelas fileiras fora baseado em provas e desconfiança.
Legado da filha da casa Seldanar. O nome de Ayla era conhecido por toda Ealetra, e sua morte foi um marco na história. Suas estátuas e placas eram muitas na Trifronteira, um lugar que ela ajudou a moldar. Quem quer que Valaravas fosse, no que dizia respeito a Ariel, ele comandava um posto imponente até mesmo para um Harata.