Tarja chegou na Cidade do Luar da mesma forma que os Silvani, mas com uma tranquilidade muito maior. Mais acostumada com o trem, e mais habituada com a cultura dos povos, ela tinha pouca coisa que estranhar na viagem, mas isso mudou rapidamente ao chegar em Luar.
A cidade era como nada que ela tinha visto antes. Ruínas e coisas velhas poderiam estar sempre na visão das missões dos Silvani, mas para Tarja era algo novo aquele tipo de submundo.
Ao chegar na Estalagem do Luar, ela entrou pela porta, girando a moeda que também recebera entre os dedos antes de colocá-la no balcão. O estalajadeiro deu uma olhada e assentiu.
— Mestre Tarja, bem-vinda à Cidade do Luar. Tenho instruções para você. O Mestre Valaravas a espera na Taverna do Luar, logo adiante na estrada, duas construções virando à direita da nossa porta. Procure pelo símbolo da lua Harata, é o mesmo que o nosso.
Ele gesticulou para a placa da estalagem, o símbolo entalhado profundamente na madeira gasta.
Tarja deixou suas coisas no quarto, examinando-o. Um quarto no térreo, e como os Carpatas preferem: Paredes sólidas e camas duras que eles acham mais confortáveis. Nada comparado com o luxo do apartamento de Lumi na Trifronteira, mas aqui era a vida de uma guerreira.
Tudo aquilo ajudou um pouco a fazê-la se sentir menos preocupada. À medida que o efeito das palavras de Valaravas começava a passar e ela começava a questionar sua decisão novamente, apenas lembrá-las lhe dava algum conforto.
Depois de arrumar sua nova morada, ela marchou em direção à Taverna do Luar. As ruas ali, estreitas e pavimentadas com pedras feias, estavam longe das maravilhas da Trifronteira, mas tinham o charme de uma verdadeira cidade pequena.
As primeiras impressões da Taverna foram decepcionantes. Quando entrou, Obravar a recebeu e a direcionou para as mesas na varanda. Lá, Valaravas a esperava, já servido com vinho Harata.
— Agora, finalmente, uma apresentação adequada. Bem-vinda, Tarja. A partir deste momento, eu caminho ao seu lado em sua jornada para se tornar o Baluarte que você sempre esteve destinada a ser.
O Harata se levantou suavemente, inclinando a cabeça ao cumprimentá-la.
— Baluarte? — Tarja ecoou, a testa franzindo em ceticismo.
Valaravas a encontrou com aquele sorriso familiar e desarmante, um que ela já começara a reconhecer, apesar de ser apenas o segundo encontro deles.
— Sua força, física e vontade, já são passos para isso. — Valaravas disse gesticulando para a cadeira.
Enquanto pegava uma garrafa, ele empurrou uma caneca bem gasta pela mesa em direção a ela.
— Você é de Onachinia, mas conhece os Onatra, deve ter visto a falange em formação antes.
Tarja assentiu, os dedos roçando a borda da caneca.
— Já vi. Desde criança, eu admirava. Até tentei aprender os caminhos do combate, mas... — Ela exalou suavemente, o olhar caindo. — Nunca tive o jeito para isso. Desajeitada demais, eu acho.
— Besteira! — Contrapôs Valaravas, seu tom firme, mas caloroso. — Você trabalhou na Cervejaria, não foi? Carregava barris como se não pesassem nada. Sei que mantinha os desordeiros na linha. A força já é sua, você só precisa de treinamento, e as ferramentas certas. Isso, nós podemos arranjar.
O olhar do Harata encontrou o dela então, e algo nele despertou uma resolução silenciosa dentro dela. Como se novamente suas dúvidas evaporassem. Memórias surgiram, de assistir aos treinos da falange, de imitar seus movimentos em segredo, usando pedras e bastões de madeira em uma tentativa grosseira de compreender suas técnicas. O que antes parecia impossível agora parecia, ao alcance.
— Então está decidido — declarou Valaravas, levantando-se — Vamos conseguir o que você precisa. O mercado nos espera.
Enquanto desciam os degraus da taverna, Valaravas bateu duas vezes na mesa de madeira, chamando a atenção de Obravar, o gerente da taverna, que levantou a mão em reconhecimento, sua expressão de um divertimento silencioso.
— Você conhece todo mundo?
Valaravas sorriu, os olhos brilhando com malícia.
— Claro que não. Só conheço as pessoas importantes como você.
Ela revirou os olhos, mas não conseguiu evitar o pequeno sorriso que repuxou seus lábios.
Mal haviam posto os pés na rua quando a voz de uma criança soou, estridente de aflição.
— Tio Val! Tio Val! Ajuda!
Uma jovem garota derrapou até parar diante deles, sem fôlego, o rosto marcado por lágrimas.
— Levaram a Má e o Pá!
Valaravas agachou-se diante dela, acolhendo-a com um braço, o outro pousando gentilmente em seu ombro.
— Satu, respira! Fala com calma. O que aconteceu?
A garota engoliu em seco, seus pequenos dedos torcendo a bainha de sua túnica.
— Homens vieram — ela sussurrou — Não como você, diferentes. Desajeitados. Feios. Vestidos de preto. Estavam pedindo algo ao Pá. Eles puxaram a Má, estavam segurando ela. Eu estava escondida debaixo da pia, mas quando começaram a procurar, eu corri. Pelos fundos e me escondi na casa do vizinho.
Ela inspirou bruscamente, seus ombros finos tremendo.
— Nós os encontraremos — disse Valaravas, a certeza em sua voz não deixando espaço para dúvidas.
Ele se endireitou, seu olhar afiado varrendo a rua. Avistando um rosto familiar, ele estalou os dedos. Um Harata aparentemente comum emergiu da multidão, mas era um oficial da Lâmina disfarçado.
— Leve esta menina para Obravar — instruiu Valaravas — Diga a ele para mantê-la segura, e dê a ela algo doce.
Ele colocou uma mão firme nas costas de Siobhan mais uma vez.
— Fique com eles. Ninguém vai te machucar. Tarja e eu encontraremos seus pais.
A menina virou-se para Tarja então, os olhos arregalados com algo como esperança.
— Você é uma heroína — ela murmurou, a voz trêmula, mas certa — Eu sei que você é. Você é forte. Por favor, salva minha família.
Ela enxugou as lágrimas e se deixou ser levada.
Valaravas e Tarja não perderam tempo. Eles correram para a casa da menina, encontrando a porta entreaberta, o interior em desordem, móveis virados, pertences espalhados pelo chão. Valaravas ajoelhou-se, pegando um pedaço de corda desfiado, aproximando-o do nariz.
Uma pausa. Então, um lampejo de entendimento em seus olhos.
Sem uma palavra, ele sinalizou para Tarja e saiu rapidamente pela porta.
Na porta ele acenou como se estivesse chamando o céu para ajudar. Tarja ficou inquieta, sem entender nada.
Valaravas então pegou seus karambites que estavam por dentro do casaco e colocou-os na cintura. Puxou um outro que pendia no pescoço como uma corrente para fora da camisa.
Tarja prestava atenção nele, como se estivesse observando algum ritual que não conhecia, sua curiosidade tomando seu foco. Quando virou-se para olhar ao retor, uma figura estava em pé ao lado deles, uma figura que ela não conhecia, que não viu chegar e cuja aparência era distinta de qualquer pessoa que ela já tinha visto.
— Nandi, essa é Tarja. Tarja, essa é Nandi. — Valaravas disse como se nada daquilo tivesse a menor novidade para ele.
Tarja cumprimentou a mulher Sangamani, vidrada em sua pele escura, e seus implantes que pareciam escamas em sua pele.
Valaravas entregou a corda para Nandi. Com um sinal de mão ele indicou que estavam com pressa.
Nandi apontou com o olhar para Tarja.
— Não temos tempo, eu explico pra ela depois. Precisamos correr.
A Sangamani assentiu, olhou rapidamente para Tarja, que estava com um olhar confuso.
Nandi aproximou a corda do nariz, orientada pelo Harata. Uma pausa, ela segurou um dos seus implantes na pele do braço com força, e inspirou perto da corda uma vez mais.
Tarja observava a cena sem entender nada, mas mesmerizada pela novidade daquilo.
Nandi então virou os olhos deixando apenas a esclera visível. Sua boca se movimentando como se falando, mas sons que Tarja não conseguia definir e provavelmente nem conseguiria fazer. Sem hesitação, ela entrou na rua, seus movimentos frenéticos, mas direcionados.
Valaravas seguiu Nandi, gesticulando para que Tarja os seguisse. O Harata ia guiando Nandi pelos obstáculos imediatos no chão, pelos carros nas ruas, mas ela ia seguindo uma trilha invisível que não fazia sentido nenhum para a Carpata.
A trilha os levou às docas, onde Nandi parou abruptamente. Valaravas a segurou pela cintura, murmurando algo baixo e indecifrável em seu ouvido. O corpo dela pareceu se contrair, e ela se apoiou em Valaravas por um segundo.
Os três se esconderam em um galpão próximo, observando das sombras. Tarja de mão vazias e sentindo a tensão no ar, decidiu agarrar uma marreta ali. Ela era usada como parte de uma máquina hidráulica de construção, mas Tarja segurava o pesado implemento como se fosse um brinquedo de plástico.
Um homem grande desapareceu no prédio principal. Outros dois deslizaram para o armazém.
Valaravas virou-se para elas, sua voz baixa e decisiva.
— Não temos tempo. Eu vou com Nandi para evitar que chamem reforços. Vou precisar que você cuide dos que estão no galpão. Esteja preparada. Eles não são rufiões de bar, eles são assassinos treinados.
Valaravas e Nandi marcharam rapidamente para o escritório do cais, o prédio surgindo à frente, sua silhueta nítida contra a luz fraca do crepúsculo. O ar estava denso com o cheiro de salmoura e ferrugem, e o murmúrio distante das ondas mascarava o leve ranger das portas quando Valaravas entrou. O carismático se movia com uma facilidade inabalável, cada passo deliberado, sua presença exalando uma aura que exigia atenção sem dizer uma palavra. Ao seu lado, Nandi, que caminhava em um ritmo silencioso, a cabeça ligeiramente inclinada como se ouvisse algo que só ela podia ouvir.
Lá dentro, um homem de ombros largos, o único ocupante do espaço escuro, endireitou-se quando eles entraram. Sua mão pairou perto de um porrete rústico apoiado na mesa, mas ele não o agarrou. Em vez disso, apertou os olhos, as sobrancelhas franzidas em incerteza. O mais tênue brilho parecia emanar de Valaravas, a aura de um líder que pertencia a qualquer lugar onde estivesse. Sem perceber, o guarda se viu hesitando, seu instinto sussurrando que eles não eram intrusos, mas talvez supervisores, ou pior, emissários do capitão do cais.
O homem estava tenso, a visão de Valaravas, e a mulher exótica e fantasmagórica que o acompanhava eram sinais de parcimônia.
— O que é isso?” o guarda finalmente latiu.
Os lábios de Valaravas se curvaram em um sorriso, sua voz suave como seda.
— Apenas verificando o progresso. Estas docas exigem uma mão firme e, pelo que vejo, você é essa mão.
Suas palavras fluíram sem esforço, uma cadência sutil tecida nelas, embalando o guarda em complacência. A dúvida deu lugar a uma certeza silenciosa, a postura do homem mudando como se lembrado de sua própria competência. Sua pegada no porrete afrouxou. Aquela facilidade, aquela compostura inabalável. Este não era um homem intimidado pela autoridade. Ele era alguém que a entendia, alguém acostumado a empunhá-la.
— Ninguém me disse nada — murmurou o guarda, sua confiança vacilando um pouco.
— Corte de comunicação. Estamos sendo vigiados. — respondeu Valaravas, sua voz com a gravidade silenciosa do segredo.
Perto dali, o olhar de Nandi varreu a sala, seus olhos com um brilho de outro mundo. Ela não precisava vasculhar os papéis espalhados, as mensagens pregadas, as marcas de arranhões no limiar, sua visão espiritual desvendou a verdade do caos, e a intuição de algo mais além.
Ela caminhou até Valaravas e segurou seu ombro, aproximando-se e dizendo algo inaudível, tão baixo que passaria como uma simples sequência de expirações.
Valaravas então fingiu um aceno de compreensão discreto, mas totalmente articulado. Um gesto tênue, sutil, convidativo, atraindo o guarda como para uma conspiração.
— É uma operação inteligente. Mover pelas docas depois do expediente, usando o fluxo dos horários de embarque para cobrir seus rastros? Inspirador. Raciocínio rápido.
Valaravas, como se guiado por puro instinto, havia pintado a imagem exata que ela percebia.
— Mas agora? — ele continuou, sua voz deslizando para algo medido. — A cidade se agita. Eles estão procurando. Se quisermos permanecer invisíveis, devemos nos mover rapidamente.
Os ombros do guarda se endireitaram sob o peso do elogio de Valaravas, seu peito inflando ligeiramente com propósito.
— Vou dar a ordem — disse o bandido, sua resolução agora firme — Vamos movê-los.
Ele se virou bruscamente, marchando em direção à porta, a decisão já tomada.
Quando ele se virou, a voz de Nandi reverberou suavemente pelo ar, um canto quase imperceptível que carregava uma ressonância sinistra.
Para o guarda, soaria como um barulho distante entre os muitos que aconteciam na Cidade do Luar à noite. Pássaros, vegetação, ruídos distantes do mar, não o suficiente para acionar seus sentidos.
Para Valaravas, no entanto, o som da voz de Nandi era etéreo, quase ouvido diretamente pela alma. Seus sentidos se aguçaram como se a luz do dia tivesse subitamente se derramado sobre aquela parte da cidade, e o tempo desacelerou. Linhas etéreas se traçaram ao longo do corpo do guarda, como se seu próprio corpo dissesse onde guardava sua anatomia mais importante.
As mãos de Valaravas mergulharam em seu casaco, emergindo com seus karambites, as lâminas curvas brilhando fracamente na luz.
Com precisão fluida, ele se moveu. O peso do guarda havia se deslocado para a perna da frente, expondo seus pontos vulneráveis. Valaravas atacou como uma serpente, sua lâmina cortando a parte traseira da perna, que cedeu, corpo se contorceu enquanto a dor aumentava. Um segundo golpe se seguiu, cortando o trapézio na base do pescoço, forçando seu braço a cair inerte. O guarda gemeu, cambaleando, mas Valaravas já havia se virado. Seu punho cravou o anel do karambit na mandíbula do homem com um estalo retumbante, fazendo-o cair no chão em um movimento de torção.
Enquanto o guarda caía, a retração das mãos de Valaravas deslizou o karambite para o lado de sua garganta.
A sala ficou em silêncio, exceto pelo último gorgolejo do guarda. Valaravas ajustou seu casaco enquanto Nandi avançava, seu canto se desvanecendo em silêncio.
— Espero que Tarja tenha se saído melhor. — Valaravas disse, caminhando para o armazém.
— O pássaro, no ninho, nunca aprende a voar. — Nandi disse suavemente.