Tarja havia feito a mesma viagem que sua conterrânea Lumi, já que era um favor da Eletrochinia ao Consórcio. A viagem não era tento novidade para essa Carpata, ela já havia ido a Erítria por vezes, e conhecia bem os outros trens.
A chegada na Trifronteira pareceu normal é o momento que ela entrou no prédio da Eletrochinia.
A moça encantadora, como todos Harata, recebeu Tarja e levou ela para esperar na antessala, pois Toivo estava ocupado. Ela sentou-se ali, quase radiante com todas as coisas que via ao seu redor. O charme Harata nunca a atingiu na Vila Pequena, mas aqui, era uma forma mais agressiva dele. A menina em poucos segundos de caminhada fazia ela sentir toda a ansiedade evaporar em tranquilidade e energia.
Os Haratas da Vila Pequena estavam muitas vezes de passagem, vindo de Erítria para a Fáscia, e não tinham negócios ali além de comer e dormir. Muitas vezes ganhavam bebidas de graça, refeições oferecidas amigavelmente, e essa era a extensão de seu charme, pensou ela. Mas aqui, ela já se sentia em casa só porque a garota Harata na recepção olhou para ela tão feliz em vê-la, que ela se sentiu importante.
Enquanto Tarja se sentava na sala de espera do contato, seu olhar vagueava pelas paredes de pedra polida e pisos sem emendas. Mesmo no que parecia ser um espaço administrativo funcional, o artesanato falava por si só. As superfícies brilhavam com um leve lustre, livres de imperfeições, sua lisura um testamento do trabalho que ela viu lá fora. Mas mais do que isso, era um espaço destinado a acalmar a alma, e abrigar o coração. Decorações, cores, desenhos, paredes que canalizam o som, eram todos excessos de forma sem função para um Carpata.
Orgulho, admiração e uma crescente percepção se emaranharam: este mundo não estava apenas imitando os métodos Carpata. Eles eram algo inteiramente deles, um produto do povo multiétnico da Trifronteira pela visão Harata.
A porta rangeu quando um homem a abriu, e no momento em que ele saiu, o ar pareceu mudar. Não mais frio, não mais quente apenas mais nítido. Enquanto ele saía, finalizando as palavras com Toivo, ela pôde ver seu cabelo fluindo escuro e volumoso, a pele cor de caramelo e a postura que simplesmente atraiu seus olhos para ele. Era um Harata, e assim mesmo, exemplar entre os que já havia visto.
Tarja não tinha pensamentos carnais como padrão, sua gente era voltada para uma visão pragmática de qualquer relacionamento. A monogamia era celebrada como forma de eficiência, e a moderação do desejo uma virtude que conservava as forças para o trabalho produtivo.
Ali, vendo aquele corpo do Harata, ela retrocedeu uma vida de cultura Carpata na simples vontade de se aproximar dele, tocá-lo, sem nem mesmo saber o que passava pela sua mente. Ela simplesmente sentia que tinha que se esforçar para não fazê-lo.
Valaravas se virou com o tipo de confiança sem esforço que abre espaço em vez de exigir. Tarja ficou um pouco tensa. Ela já conhecera seu tipo antes, homens que se portavam com grande facilidade, seu charme mascarando motivos ocultos. Sua primeira ideia foi se proteger mentalmente, mas ela não conseguia tirar os olhos dele, da maneira como suas roupas caíam sobre seu corpo, naturalmente, como se feitas sob medida para ele, embora fosse um traje humilde que se pode encontrar em vendedores de rua.
— Então, você é Tarja? — Valaravas disse em Onatri fluente, embora melodioso como ela nunca tinha ouvido.
A voz, suave e medida, as palavras eram perfeitamente formadas, mas fluíam de forma diferente, tocadas por um ritmo que nem Onatra, nem Carpata, conseguiam produzir. Havia uma harmonia, um charme fluido na maneira como se curvavam pelo ar. Seus ouvidos mandaram um arrepio pela sua coluna que faltava razão racional.
Seu olhar encontrou o dele, olhos cor de mel brilhando com divertimento, o brilho capturando a luz como ouro polido.
— Tarja, sim. E você é o chefe Harata, ou algo assim.
— Algo assim. Valaravas o nome. Muito prazer em conhecê-la.
Ele executou uma reverência floreada, um gesto exagerado que teria parecido ridículo se não tivesse sido executado com tamanha confiança sem esforço.
Tarja inclinou a cabeça ligeiramente, resistindo à vontade de rir.
— Kivi falou sobre seu povo. Mas não disse muito. Disseram-me para ter cuidado com você, no entanto. — Tarja disse deixando a honestidade Carpata escapar.
Ela sentiu uma ponta de ansiedade. Uma risadinha desprotegida escapou de seus lábios, sem ser convidada, e a irritou o quão facilmente ela viera. Ela não pretendia baixar a guarda tão rapidamente. Mas algo nele fazia com que ser cautelosa parecesse ridículo. Ela sorria com todo o seu rosto, e naquele momento, isso era a última coisa que ela queria impressionar.
— Excelente. — Valaravas sorriu, o tipo de sorriso que pertence a um homem que já tem a vantagem, mesmo em uma primeira conversa. — Isso cria um desafio, tempera as coisas entre nós.
Tarja se viu mudando de postura para permitir que ele se sentasse ao seu lado, por razões que nem mesmo entendia.
Valaravas sentou-se preguiçosamente ao lado dela, como se se conhecessem desde a infância.
— Ah, aposto que sim. — Tarja cruzou os braços, sorrindo de canto. — Deixe-me adivinhar: Você assume que eu acredito que você é algum patife sedutor com uma mente afiada e um charme irresistível? Que partidão.
Valaravas exalou um zumbido deliberado e pensativo, os olhos se estreitando ligeiramente, sua expressão mudando para uma de introspecção fingida.
— Eu nunca presumiria. Mas agora que você disse em voz alta, tem um som melodioso. Patife sedutor Harata. Seria uma boa introdução? — Seu sorriso se alargando o suficiente para ser irritante.
Tarja riu abertamente, balançando a cabeça.
— Esperto. Disseram-me que os Haratas eram melhores nisso.
— Uma Carpata com a língua afiada? Ora, mas isso é uma raridade. — Valaravas brincou, seus olhos claros brilharam ainda mais com um divertimento fluído.
— Uma raridade? Você conhece muitos Carpata? Ou isso é apenas uma cantada que você usa em todas as mulheres Carpata? — Tarja arqueou uma sobrancelha, sua voz não carregando desafio, mas divertimento.
Valaravas endireitou-se para olhar a Carpata de frente, e sua expressão não vacilou. Se mudou, suavizou, como a de um artesão que sabe exatamente como lidar com pedra bruta.
Seus olhos agora tomavam uma forma estranha aos olhos de Tarja, por mais que ela tentasse, o resto do mundo em volta se tornou turvo, ela só conseguia focar nele. Mesmo virando sua cabeça, ela não conseguia mover seus olhos para longe do olhar do Harata. Uma sequência de pulsos como choques emanava de sua coluna, subindo até o seu peito. Ela estava acelerada, mas ao mesmo tempo estática, ela aguardava sua resposta, e tinha que ser positiva. Ela não aguentaria uma rejeição, não ali.
— Não com 'todas' as mulheres Carpata. Apenas nas mais interessantes. Tão raras e valorosas quanto as pedras preciosas de Onachinia.
Tarja ficou surpresa. Era assim que os homens Carpata falavam sobre as mulheres Carpata. Era como se ele soubesse exatamente como ela entenderia um elogio, e como ele cairia em sua experiência cultural. E ao mesmo tempo, aquele momento passou, ela novamente estava fora do laço que o Harata parecia manter.
Ela se sentia aliviada, não porque agora sentia-se normal, mas porque ele não simplesmente se foi. Ele estava ali, ainda.
— Então me diga, Tarja — Valaravas continuou, apoiando um cotovelo no encosto do assento, totalmente à vontade, totalmente focado nela. — Se meu charme não impressiona você, como devo impressioná-la? Um grande discurso? Um duelo? Talvez eu devesse levantar um bloco de pedra? Provar meu valor?
— Você não duraria um dia na cervejaria. — Tarja se inclinou ligeiramente para a frente. Podia quase sentir a respiração dele, de tão perto que estavam. — Magricela e baixo desse jeito? Os barris de cerveja são mais pesados que você.
Valaravas fez um silêncio que durou o suficiente para fazê-la pensar que tinha ido longe demais, mas quando uma ideia de pedir desculpa se formou, ele assumiu o controle.
Seus olhos novamente, e ela sentiu novamente aqueles pulsos de arrepio pelas costas, e ela sentia certeza de que a provocação resultara no efeito desejado. Ela sentia que ele queria que ela mostrasse ser forte, alguém que ele podia confiar, que podia se deixar cuidar, proteger. E ela queria, ela seria sua muralha.
— Ah, garanto-lhe, duraria exatamente o tempo necessário para conseguir bebidas de graça. — Valaravas disse sem quebrar a pose.
Os Carpata são famosos por seu humor grosseiro e mentalidade prática. Tarja estava gostando de ser ela mesma entre pessoas de uma cultura diferente. Era interessante. Mas ela estava estranhando como aquilo funcionava. Não era uma questão de algo que ela via, podia tocar, afastar, empurrar.
Harata, eles faziam ela querer ser quem ela era, e ser aceita por isso. Eles queriam que ela se deixasse levar pela vontade, como um uísque forte entorpece o autocontrole.
Valaravas jogava com ela, coisas sérias, e insinuações sugestivas, difíceis de separar.
— Toivo vai te iniciar no Grêmio, imediatamente. Eu pessoalmente quero você na minha equipe. — Valaravas se levantou como se a decisão já tivesse sido tomada.
— Sua personalidade já lhe garantiu o posto, mas se esses braços e pernas grossos forem tão fortes quanto dizem, você é o baluarte que eu estava procurando.
Ele deu meio passo a mais, mas parou o tempo suficiente para olhar por cima do ombro. Tarja acabara de baquear com a observação, sentindo como se ele não só dissera, mas que deslizava mãos por seus braços e pernas como seu olhar que parecia enxergá-la toda, despida, e até mesmo em sua mente, seus pensamentos, mesmo aqueles que eram agora direcionados à ele.
Valaravas sabia o efeito que tinha nela, mas suavizou pouco sua influência, prosseguindo.
— No entanto, se tiver alguma dúvida, esteja segura. Eu ficaria absolutamente de coração partido se você se perdesse na Trifronteira. Sempre terei alguém pra ter certeza que você esteja bem. — Sua voz mergulhou em uma tristeza fingida, seus lábios se curvando ligeiramente.
Tarja mudou seu peso, um sorriso de canto aparecendo em seu rosto. Ela se ajustava no sofá como se quisesse esconder o efeito que ele teve nela, mas com isso fazendo mais óbvio o fato de que o calor subia por suas entranhas descontrolado.
Ela puxou pelo humor para quebrar aquela sensação.
— Eu consigo. Mas se eu me perder, vou encontrar uma bagunça pra me meter. Isso vai chamar sua atenção, tenho certeza.
Valaravas riu, o som fácil e genuíno, não do tipo teatral e polido que ele usara antes.
— Por favor! — Ele fez um movimento preguiçoso e elegante com a mão enquanto se virava para a porta. — E tenho certeza de que nos veremos em breve. Encontrando problemas juntos.
E com isso, ele se foi, desaparecendo com a mesma graça sem esforço que carregava em tudo. Sua presença, no entanto, permaneceu na mente de Tarja, deixando-a com a pergunta se tinha sido pessoal ou apenas o jeito Harata de ser.
Por um momento, Tarja se refestelou no sofá, como se fosse sua casa, como se tivesse sido largada depois de dois dias de trabalho duro, suas dúvidas, que pairavam nas bordas de sua determinação, desapareceram completamente.
O que ela vira até agora no Bazar da Trifronteira, a engenhosidade, a fusão de culturas, a escala pura de tudo, acendeu uma centelha. Mas as palavras de Valaravas haviam acendido daquela centelha uma chama. Ela se levantou, os ombros se endireitando inconscientemente. Pela primeira vez, ela não era simplesmente uma Carpata de uma Panificadora nas montanhas. Ela era uma guerreira em potencial, alguém capaz de mais do que jamais imaginara. Um baluarte.
As paredes da sala vibravam com uma energia sutil, como se as próprias pedras estivessem vivas com propósito. Tarja sorriu fracamente. É aqui que ela começa sua jornada. Ela se sentiu confiante de que, se estivesse no grupo dele, teria tudo o que precisava para seguir em frente sem medo. Ela sentiu que ele seria alguém que resolveria todos aqueles problemas em que ela pensava.
A voz profunda e rouca de Toivo vibrou pela antessala chamando seu nome, agora Tarja estava no caminho certo, sem volta.
Enquanto marchava para a sala ao lado, ela sentiu uma vibração. O mundo além dos picos, das pessoas que ela conheceria, das aventuras esperando para acontecer, tudo era dela para desfrutar. Ela aprenderia a ser uma aventureira e a assumir seu papel. Agora era oficial, e não havia como voltar atrás.
Ao andar para sala do Gerente, ela ainda deu uma última olhada, a esperança de captar algo mais daquele Harata que tocou fundo em sua mente.
Ela pensava se era sensato o tanto que ela havia gostado da experiência.