As ruas da Trifronteira

Melica movia-se pelas ruas com a mesma facilidade que demonstrava dentro do bar: sem pressa, intocada. Uma mulher que caminhava como se já fosse dona do caminho sob seus pés.
As ruas do centro da Trifronteira raramente estavam vazias, suas lâmpadas de sódio garantindo que nenhuma sombra permanecesse inteira. Nas vielas mal iluminadas porém, as sombras triunfam. Essas ruas são o principal ponto em que os marginais praticam seus pequenos crimes.
Melica é Harata, e não tem receios com as ameaças que poderia encontrar. Entre suas habilidades e a proteção da Lâmina, ela tinha pouco para impedi-la de seguir para o bairro militar, seu destino aquela noite. E nada como cortar caminho pelos becos.
Foi quando um Onatra desertor e seus amigos viraram a esquina. Privados de assistência médica e propensos ao consumo de álcool, estavam destinados a encontrar problemas. Seus olhares caíram sobre a mulher solitária que caminhava à frente: Melica.
Como todos os Harata, ela tinha os fundamentos da autodefesa como aprendizado desde a infância, mas Melica tinha pouco interesse em confronto físico. Suas armas eram outras, muito mais eficazes. Enquanto o homem se aproximava com arrogância, ela o avaliou em um instante, reconhecendo os sinais. A marcha instável, a agressividade sem foco, a dilatação irregular da pupila que denunciava, não um estimulante de qualquer natureza, mas um córtex frontal prejudicado. Síndrome de Kasarkov. O fantasma genético que assombra os desertores Onatra, uma atrofia cerebral específica, resultado direto do coquetel hormonal usado para mitigar os efeitos de seu desenvolvimento acelerado pelo tratamento que fazem para exceder fisicamente. Um cérebro frito, com a amígdala permanentemente em chamas, e anos de privação dos protocolos médicos da Armada.
Melica já vislumbrava o que vinha pela frente, pois conhecia bem não só a situação dos indivíduos com Kasarkov, como o mercado que lhes atendia. Havia aqueles que encontravam no mercado negro Biraniano tratamento alternativo, mas era algo longe das posses de Onatra dedicados a vadiagem.
Sabendo exatamente com o que lidava, Melica executou um roteiro social que já tinha como segunda natureza. No momento em que seus olhares se encontraram, ela adotou a postura que desarmou mais homens do que qualquer lâmina. Uma sutil inclinação da cabeça, uma expressão suavizada, olhos arregalados com inocência fingida, lábios entreabertos em um sorriso brincalhão.
O homem vacilou. Sua preparação para a violência encontrou uma aparência de submissão que ele não sabia como processar. Como dizem os Harata: "O cão não sabe o que fazer com o carro que para."
Ele e seus companheiros ficaram parados, estupefatos.
— Hora de voltar pra casa, meninos ! — Melica disse, sua voz macia como veludo.
Eles a encararam por um segundo intenso, e suas mentes, já prejudicadas pela natureza Onatra desregulada, entraram em um laço de sobrecarga sensorial. Quando seus cérebros processaram os estímulos dissonantes, ela já tinha ido embora.
Eles seguiram em frente, sem rumo, procurando mais estímulos primais, uma nova diversão. E ali, logo à frente, havia outra coisa que lhes chamou a atenção. Um tipo diferente de mulher.
Alta, uma biomecânica levada ao extremo, fisiologia aproveitada ao máximo, seu cabelo uma cascata de ouro branco sobre um uniforme que se agarrava a uma forma esculpida e disciplinada. Ela caminhava como se nunca tivesse tido medo. Seus músculos da coxa pareciam pistões capazes de esmagar um crânio, e seus quadris largos e firmes o suficiente para instigar em muitos o desejo de que ela tentasse.
Se Melica a tivesse visto, provavelmente teria reparado, pois essa era a Tenente que estava no Cântaro.
Um dos homens, encorajado pela química em seu cérebro marinado em álcool, soltou um assobio forte.
­— Agora isso é um exemplar de fábrica da perfeição Onatra.
Ele sorriu, aproximando-se.
— Diz aí, cavalona, acha que minhas mãos são grandes o suficiente pra essa carne toda?
A mulher parou. Ela ergueu o olhar, como se estivesse entediada. Ela se virou para trás, lenta, seu olhar fixando-se no homem com a precisão de um sistema de mira. O marginal se endireitou, com medo, mas sem vergonha. Ela era forte, sim, mas ele tinha a vantagem de altura e peso. Deveria ser suficiente.
Na mente dela, havia um desejo. Mas um desejo sombrio de dor, sofrida e infligida. A mente corrompida da mulher processou as possibilidades daquela noite. Ela diminuiu a distância entre eles com um passo calmo e medido. Seu objetivo? Uma surra, dele nela, ou dela nele.
Ele engrandeceu-se.
— Então, gostosa? Gosta de uma carne dura? Eu tenho um pedação bem grande para você.
A mulher o media com os olhos, não sua força, mas seu valor. Ela olhou para seus companheiros. E então, encontrou o olhar dele, prendendo-o no lugar.
Ela colocou as mãos na barriga dele, mantendo o contato visual. Seus amigos já sorrindo, aproximando-se para festa.
— Galera, calma que essa aqui é minha. Olhem e aprendam.
Ela deslizou a mão para baixo. Usou os dedos para abrir a calça dele, e firmar o contato com o que procurava. O homem mal teve tempo de registrar a pegada firme antes que a testa dela se chocasse contra o nariz dele, o estalo agudo espirrando um jato vermelho.
Seus amigos avançaram, a coragem vacilando. Foi então que viram a lâmina de aço azulado.
Não era uma arma de máquina, ou a espada curta padrão da Armada. Era uma bebut, curva e com canaleta central na lâmina, uma arma de subterfúgio, feita para corte, desmembramento e a canaleta garante que mesmo um ataque leve tenha o mesmo efeito de uma lâmina torcida na carne.
Aquela era uma Oficial da Armada, mas uma das que não seguia o protocolo, uma que trabalhava para interesses tão obscuros que ninguém queria enfrentar, nem os desertores de cognição prejudicada. Ela era dukhovne.
A palavra pousou como chumbo em suas mentes, dukhovne em Onatri, fantasma.
Ser um fantasma no jargão Onatra não era ter o cérebro atrofiado pela Síndrome de Kasarkov, mas um defeito diferente. Uma mente permanentemente travada em um estado de vida ou morte, viciada nos próprios estímulos de dor e medo. Eram aberrações sancionadas, falhas tardias no controle de qualidade da educação Onatra, que se manifestavam na idade adulta, e tornaram-se ferramentas de guerra, perspicazes o suficiente para encontrar protetores fora da hierarquia oficial.
Eram necessários para alguém, em algum lugar, além do alcance da lei ou do dever.
Os outros homens não esperaram para ver o que aconteceria. Seus pés se moveram antes de suas mentes, levando-os para longe do desgraçado condenado, preso no aperto daquelas mãos suaves e habilidosas. Seu destino agora estava nas mãos de uma mulher que há muito havia ultrapassado a borda da sanidade programada: Tenente Danila.
Ela sorria, desvairada, seu aperto firme na anatomia sensível do homem.
— Olha que delícia. Ele está dizendo que você gostou, eu posso sentir. ­— A voz dela era como veludo.
Ela não conhecia Melica tão bem, mas sabia de sua importância para alguém que ela respeitava. Era o suficiente para justificar um presente.
Ela colocou a faca na garganta do bandido, a ponta da lâmina sobre sua traqueia. Por um segundo, o homem duvidou se não estava gostando mesmo, pensou que era algum jogo doentio. Danila certamente estava gostando.
Durou o tempo suficiente para facilitar o processo que veio a seguir.
Ela segurou o membro do homem pela cabeça e deslizou rapidamente a lâmina rente a base em um movimento único e calculado, com a coordenação motora que só uma Onatra pode, com torque suficiente para um corte limpo.
O homem nem sequer gritou. Ele apenas gemeu abafado até o nada enquanto o vermelho escuro manchava suas calças.
Danila exibiu seu troféu para o próprio homem, observando-o em sua palma, avaliando seu peso, seu calor.
—  Que pena. Era realmente um belo pedaço de carne.
Ela passou a carne ensanguentada contra os lábios frouxos do homem, seu tom quase meigo.
Ela levantou-se, sem se importar com o sangue que manchava seu uniforme, rindo alto que o eco reverberava pela estreita viela.
Alheia à violência que se desenrolava a poucos metros, Melica continuou seu caminho, imperturbável. Ela se movia pela cidade como se nunca tivesse estado em perigo.