Apropriação cultural

Os comerciantes Anoa sempre tem um ouvido na Fáscia. Jangunaray tem uma fronteira com o Beru, mas não tem relações com os nômades, ligados diretamente pelo trem subterrâneo com a nação Urbani do Leste. Fiscalização costeira é um inconveniente, mas não interrompe os negócios.
Magdalagur, a capital da Fáscia, e Porto, a capital de Jangunaray, mantêm relações diplomáticas diretas, o que é um problema para os piratas das Ilhas Livres. Coordenar com o amigável Leste de Erítria a proteção da Armada, e o poder da Fáscia é um poderoso bloco que eles não conseguem penetrar. Jangunaray seria um porto importante em terra para eles.
Em Magdalagur, um centro comercial é distinto de qualquer outro. Suas janelas, grandes e grossas, feitas de fibras difusoras, que protegem os que estão dentro dos raios do sol, e dão uma aparência etérea ao prédio. Ele não é dedicado ao comércio de produtos e serviços ao público, mas um tipo especial de comércio: Logística e Investimentos do bloco Leste.
Nesse centro, um importante encontro com o poder de mudar muita coisa em Ealetra parecia estar tomando um rumo inesperado. Dois amantes discutindo assuntos longe de seus flertes e planos pessoais.
— Rentaniel está pedindo cobertura em nosso território, meu amor. Ele está pedindo, não, ele está implorando por problemas. — disse Aran entre goles de vinho.
— O que você está dizendo? Por que ele procuraria ajuda dos Anoa? — disse Syndra, preocupada.
— Ele não está. É pior. Ele está pedindo ajuda aos piratas anarquistas. Acontece que ele pensa que nosso povo na região sudoeste são anarquistas, não Anoa. — disse Aran com um sorriso de escárnio.
— Então ele está tropeçando por uma região sobre a qual não sabe nada para obter apoio. Para quê? — disse Syndra, batendo com o punho na mesa.
— Ele deve estar planejando um golpe de alguma forma, e algo com que nem mesmo seu povo ficará muito feliz. Não creio que seja contra Audren, mas um golpe contra a Armada, ou os Harata. — Disse Aran, olhando para o horizonte.
— Você sabe que esse conhecimento impactará meu conselho. Não pode ser evitado, — disse Syndra, erguendo uma sobrancelha. — E eu tenho a ideia de que essa era sua intenção desde o princípio.
— Você sabe que eu disse isso por essa razão, não subestimo sua inteligência, eu a amo, — disse Aran, aproximando-se dela no banco. — Mas venha agora. Vamos deixar essa política de lado por um momento e desfrutar de nossa própria política, interna. Como seus doces lábios que governam meu desejo.
Por mais que as revelações implicassem, Syndra não conseguiu resistir a deixar as preocupações na porta de sua mente e desfrutar da companhia de seu Legado, o título Urbani para o 'outro' na caminhada, e seu companheiro mais precioso até então em sua longa vida. Ela havia se reservado na crença de que ninguém ocuparia aquele lugar em sua vida, nem mesmo um Urbani. Ela se abriu para a ideia, inspirada por Aran, e agora ele era o único.
Não seriam as implicações transformadoras da má escolha de aliados de Rentaniel, ou o risco de iniciar um grande conflito, que a impediriam de saborear cada momento que pudesse daquilo que esperou por uma vida. Política poderia, e iria, esperar.
Por aqueles próximos instantes, a Fáscia tornava-se uma terra distante, e os dois escapariam para o seu mundo particular onde nada mais importa, e ninguém mais existe.
Era fora dessa redoma de proteção física e cultural que outros desenvolvimentos seguiam exalando o fedor dos passos de Rentaniel por Ealetra.
No mercado Harata, aberto ao sol e ao escrutínio local, a tenda de pratos populares estava em seu auge. Era comum que alguns garotos sempre estivessem por ali, aproveitando a maneira Harata de ser generoso. Esses jovens, mais velhos que para estarem nas escolas e creches dos Barões, mas novos demais para estarem em alguma ocupação mais importante, seguiam transitando entre os negócios e servindo de olhos e ouvidos para quem tivesse alguma coisa de valor ou interesse para oferecer.
— Em Magenta? Certeza? — A mulher Urbani exclamava enfática mas sussurrando.
— Sim dona Jezabella, dizem que ele está em Magenta. E não virá tão cedo. — O menino Harata dizia entre colheradas vorazes no prato de lentilhas.
— E está com gente de fora? Como eu? — Jezabella insistiu.
— Não. De fora, mas não como vocês. Nenhum como vocês. — O garoto riu-se.
— E essa conversa é ponta firme?
— Sr Ravantes é o dono daqui, e ele tem muitos vendedores lá em Magenta. Eles sempre falam as coisas. Fofoca corre. Eles adoram contar vantagem. Um Agente da Lâmina morando na Ilha, com certeza todo mundo ia contar vantagem. — O garoto disse zombando.
— Tá bom mocinho. Vê se come tudo direitinho hein. — A mulher Urbani disse rindo-se antes de sair.
Caminhando pelo mercado ela usou seu ponto pessoal para mandar uma mensagem para alguém. Sua concentração só foi interrompida quando ela quase trombou com outra Urbani, uma Guarda Real.
— Syvis? O que está fazendo aqui? Veio atrás dos enfeites de cabelo? Eles são lindos não? — Jezabella disse com uma voz cômica.
— Jezabella, literalmente a Advogada das Causas Perdidas. — Syvis disse imitando um ar galardoador.
— Vejo que a Grande Mãe escolhe bem mesmo. Escolhe bem guardas, escolhe bem genros. Pena que ela não pode escolher filhos, não é mesmo? — Jezabella alfinetou.
— Eu gosto do Rentaniel tanto quanto você. Essa alfinetada não é pra mim. Eu apenas faço meu trabalho. Você deveria fazer o seu. — Syvis já impaciente.
— Eu sei que você estava lá em Luar Syvis. E eu sei porque. Se você tem mesmo o tipo de honra que diz ter, melhor tomar cuidado. — Jezabella disse saindo.
— Eu sou Guarda Real, não Adjudicadora. Não sou eu que vou ter que explicar o fiasco real, 'Vossa Excelência'. — Syvis disse ecoando a saída da outra mulher.
Jezabella entrou no carro, logo ao sair do mercado, seu destino era certo e ela estava correndo contra o tempo. Tinha um trem para tomar.