Depois de um almoço silencioso onde todos tiraram seu tempo para refletir, Tarja e Erlan foram para vasculhar mais os treinos e capacidade bélicas do Zhefaq. Apesar de Silvani, não existia muito em termos de segredos ali. Era até mais eficaz que o Silvani visse a superioridade Erítria, eles julgavam.
Nandi e Ariel ainda demoraram-se no pequeno jardim dentro do residencial que estavam, em companhia silenciosa. Talvez até mesmo criando laços que o silêncio cultivava melhor que qualquer palavra.
Valaravas por sua vezes tinha sido chamado na Sala do Grêmio, pois Svetlana tinha ainda o que dizer, que competia aos juízes.
Dadas as formalidades, e fora de personalidade, Svetlana já começou a falar antes mesmo de se sentar.
— Meu time removeu a relíquia antes que alguém pudesse perceber. Alguns de meus oficiais mais confiáveis, do Khara, extraíram-na do corpo do Varta. — Svetlana disse com tom baixo.
— Muito bem. Vejo que o Leste ainda é o Leste. — Valaravas sorriu.
— Harata toma posse dessa relíquia? — Svetlana perguntou com alguma urgência.
— Vocês tem uma no Khara. Melhor que tomemos essa. Elas todas no mesmo lugar pode ser perigoso. O Khara é seguro contra uma invasão, mas infiltração é sempre um perigo. Especialmente agora que sabem que temos a Sangamani.
Svetlana abaixou a cabeça em reconhecimento. Lá quando reuniram-se na Trifronteira Valaravas havia avisado. Ela reconhecia agora o descuido.
— Certo Harata. Você tem sua razão. — Svetlana prosseguiu. — Quando seguirmos, eu vou tomar o Dragão Vermelho, devemos sair ao mesmo tempo, mas chegarei antes no Khara. Tudo estará preparado quando o Verme chegar.
— Estamos de acordo então. Eu levo essa relíquia para a Fáscia, e também a do templo que vamos buscar? — Valaravas disse assertivo.
— O templo ? Tem certeza? Não vai ter a falange ali se algo der errado.
— Temos Nandi. — Valaravas disse com um tom soberbo.
— Uma vitória e já está todo cheio de si? Ou cheio dela? — Svetlana sorriu.
— O templo está abandonado. E ali não há como esconder um batalhão. — Valaravas tomou um tom sério. — Iremos e sairemos antes que sejamos percebidos.
— Certo Harata. Quanto aos seus Silvani, passes já foram emitidos para o Harata, e na segurança do Verme. Mas de qualquer jeito, esteja preparado. O Oeste tem seus rebeldes.
— Estaremos preparados. Você não estaria muito contente com Sasha, presumo...
— Assunto da Armada, não para o momento. Mas digamos que houvesse algum problema, qual o interesse do Grêmio?
— Assunto da Armada pode ser, mas Sasha está provocando as pessoas erradas. Prefiro que saiba por mim, antes que por eles.
— Aleksandr já cavou sua própria cova há muito tempo. Eu mesma não conto com sua permanência. O que acontecer com ele não é da minha conta.
— Rentaniel, e Aleksandr. Dupla dinâmica eu diria. — Valaravas riu.
— Entendido. Estaremos no aguardo. Quando estiver no Leste, lembre-se. Precisamos manter a força do Grêmio e da Armada unidas. Espero que possamos contar com os Harata.
— Você pode, general. Você pode. — Valaravas disse com um tom finalístico.
Terminada a pauta, eles saíram. Svetlana tinha muito o que fazer, mas Valaravas estava rumando para o residencial sem objetivos.
Ariel o observada chegar devagar. Pensava em sua vida, principalmente em sua irmã. Quando Amerille conheceu seu marido, ela o amava, se dedicou completamente a ele, sabendo que a vida dele podia acabar em qualquer instante. Ele era um soldado, e ela passaria a vida esperando a mensagem que acabou um dia chegando. A jovem Silvani e o mais velho Onatra que deveriam viver muito, juntos, acabaram por impressionar ainda mais um lado de seu povo Silvani. A guerra a fez fugir, e a guerra tomou seu marido.
Ariel nunca havia realmente medido isso antes, mas agora o fez. Amerille viveu alguns anos com o marido, e mesmo com tudo que aconteceu, seguiu vivendo com os Onatra em sua sociedade. Para ela, um alívio, pelo menos do destino de Tirayon. Para ele porém, foi enfrentar sua gente, seu trabalho, seu lugar na Armada, por uma Silvani que ele poderia muito bem ter rejeitado.
E agora, o peso daquela realidade recaía sobre Ariel de uma nova maneira.
Ayla era mais velha que Valaravas, e praticamente moldou o homem que ele é agora. Eles eram inseparáveis, como todos dizem. Ayla era nobre, acadêmica, e uma Urbani que não precisava de nada material na vida. Escolhera um Harata jovem e sem nada no seu nome, sacrificando tudo que era seu para torná-lo Valaravas. E quando era a hora de aproveitar a vida, ela se foi.
Ariel refletia em uma questão muito mais forte: Qual era exatamente a natureza do vínculo entre Ayla e Valaravas?
A caminhada era um mito, eles acreditavam. Mas o que Thaz fez era similar ao mito da caminhada. Eles estavam em um espaço entre os vivos e os mortos, onde a mente é mais forte que o corpo. Se ela experimentou isso ali, e foi tão real quanto parecia, a caminhada talvez também fosse.
Se Ayla caminhou com Valaravas, e o fato dele falar Silvani como fala pode ser uma indicação, então mais do que saudade de uma pessoa amada, Ayla fazia parte da essência de Valaravas, um espaço que nunca poderia ser preenchido por outra pessoa.
A caminhada de Valaravas terminou no pátio mais a frente. Ariel decidiu caminhar até ele. O Harata estava ali com a pose irreverente de sempre, mas parecia estar com algo sério no fundo da mente.
Ariel se aproximou, entrando na luz clara e sem filtros. O espaço era só deles, e os Onatra tinham pouco interesse em lhes fazer companhia.
Ela hesitou em vez de sentar ao lado dele, embora soubesse que o faria desde o momento em que se aproximou, mas decidiu ficar distante, apenas perto o suficiente para manter uma conversa pessoal.
As palavras haviam sido ensaiadas, no entanto, pareciam desajeitadas agora que ela estava aqui.
Ariel tinha uma vida que a moldou por propósito. Engajar naquela conversa estava contra qualquer noção arraigada em sua mente de como interagir com o mundo.
Mesmo agora, depois de tempo andando com Valaravas e Nandi, e depois de tudo que passaram, ela se viu hesitando. Seu motivo não era racional ou situacional, era emocional.
Ariel levou algum tempo para organizar seus pensamentos.
— Algo errado? — Ela perguntou em Silvani, alfinetando a recente descoberta. — Os Urbani, eles te incomodam? Ou são as memórias dela?
Valaravas riu, um som baixo, mas não cruel.
— Contexto é uma coisa curiosa. — O Harata começou, olhando para o horizonte. — Para entender é preciso contexto, mas para perguntar, é preciso contexto. É isso que você realmente quer saber?
— A missão. — Ela falou já imediatamente. — Rentaniel, a irmã, a memória dela. Vocês caminharam, certo? Isso não te afeta?
— Eu pareço afetado, Ariel? — Valaravas inclinou a cabeça observando-a. — A memória de Ayla é boa. Ela aumenta meu propósito. Ela reforça o motivo de estar no Grêmio. Me chama para ser meu melhor.
— Você parece diferente, e eu quero saber a razão. — Ariel insistiu, aproximando-se mais.
— Se você esteve me observando o suficiente para entender que caminhei com Ayla, e que isso me afetou, é essa a pergunta que quer fazer? É isso que quer saber?
Ele a estudou, a mais sutil mudança em sua postura, um convite em vez de uma evasão.
Ariel hesitou, depois avançou, embora em vez de sentar, ela apoiou as mãos levemente contra a parede de pedra, colocando uma fina camada de distância entre eles.
— Até um cego poderia ver em sua cara. — Valaravas disse com uma voz firme, mas ainda terna. — Você está tentando conectar Ayla e sua Irmã, você e ela, você e eu.
Ariel enrijeceu, seu aperto na pedra se intensificando. Ele era rápido demais. Perceptivo demais. Deveria ter tornado as coisas mais fáceis, mas em vez disso, a deixou se sentindo exposta.
— E não é natural? Ayla desafiou seu povo por um estrangeiro, Amerille desafiou seu povo por um estrangeiro. Ayla se dedicou a você, Amerille se dedicou a ele. Estamos juntos nesse projeto, tenho que entender como você vê as coisas. Evitar problemas.
Valaravas a considerou. Por um momento, não disse nada. E então, com a paciência deliberada de alguém que já havia mapeado os passos desta conversa antes mesmo de ela falar, ele tomou um tom mais doce.
— O que realmente você quer entender?
— Quero entender como lidar com você. Como seguir, sem dizer coisas erradas, dar impressões erradas. Temos que nos entender. Temos que conversar.
Ali estava. O gancho. A desculpa plausível. Uma preocupação estratégica. Um inquérito profissional. Era o que ela havia preparado em sua mente antes de se aproximar dele. Uma pergunta lógica. Uma preocupação razoável.
Infelizmente, só fazia sentido se ela presumisse que ele queria a mesma coisa. E era ela quem tinha que tomar a decisão. E, no entanto, era muito mais plausível que o oposto fosse verdade. Ele iria decidir.
Valaravas se moveu, virando-se completamente para ela agora, seu cotovelo apoiado em seu joelho. Havia algo diferente em sua expressão, não mais o olhar terno de um comandante, nem a alegria perspicaz de um parceiro de treino. Em vez disso, havia sabedoria em seus olhos. Uma experiência muito mais pessoal.
— Você não está preocupada comigo. — Ele disse em voz terna mas firme. — Você está tentando entender a si mesma.
— Isso é ... — ela começou devagar.
— Perfeitamente normal. — ele interrompeu. — É uma boa pergunta.
— Se sabe o que quero saber, então responde.
Valaravas inclinou a cabeça ligeiramente, observando-a. Havia anseio em seu olhar, em camadas sob a superfície.
— Harata, nós temos vidas plenas, mais curtas que de um Onatra, ou que vocês, e os Urbani. Um Harata naturalmente vive menos. Temos uma vida aberta, simples, direta. Amamos viver ao máximo. É normal que Silvani e Urbani confundam a intensidade com que vivemos com algo que pensam sobre cada Harata. Nossa familiaridade fácil, nosso 'dom'.
— Isso não parece positivo. — Ariel estranhou.
— Para a maioria de vocês, dos Onatra, não é. Nossa vida emocional é instável, cheia de altos e baixos. Vocês preferem estruturas, posses, títulos. Nós vivemos como pessoas fora da vida no 'jogo'.
— Então porque Ayla correria o risco? Foi mais uma aposta do que Amerille. Onatra são quase como nós nesse sentido. Ayla apostou em um Harata, completamente fora de sua cultura.
Valaravas sorriu, lento, perspicaz.
— A vida Harata é magnética, e muitos acreditam que nossa vida é como eles acreditam que seja, independente de quão honestos sejamos com nossa intimidade. Para alguém que não teve algo assim, é uma vida que parece sedutora, mas a realidade de viver a nossa vida é muitas vezes problemática para estrangeiros. Nós os isolamos como povo não somente por nossa parte, mas também porque muitos são conseguem viver como vivemos.
— Você sendo Harata — Ariel ponderou — é a forma como vive. Ayla sendo Urbani, viveu como viveu. Você nunca se sentiu usado?
— Tudo é uma troca — Valaravas disse simplesmente. — A maioria dos compromissos é sobre encontrar o que se precisa, algo que se quer, e seguir em frente. Sempre uma aposta.
Ariel sentiu algo se agitar em seu estômago, uma inquietação que não conseguia identificar. Ele não estava falando em abstrações. Ele não estava falando em teorias. Ele estava falando por experiência.
Ariel se virou ligeiramente, um pequeno sorriso pairando em seus lábios, brincalhão.
— Acho que você está tentando me vender alguma coisa.
— Você não está no mercado. Ainda não.
— Nunca se sabe até saber. Como pode saber se o risco vale a pena?
— Você não sabe. Mas é especificamente você.
— Então como sabe que eu não estou no mercado?
Valaravas se levantou, como para dar nota ao que diria.
— Porque você precisou perguntar como saber.
E com isso, ele a deixou ali, sozinha sob o peso de perguntas não feitas.
Ariel ficou parada, olhando para o horizonte. Cada vez que ele enfatizava o quão diferentes eram, era como uma agulha se aprofundando mais em sua cabeça. Ela não entendia o que estava acontecendo. Ela conhecia os Harata, e conhecia Valaravas. Ela queria uma razão para fugir, ou para ficar, mas não para ter que decidir por si mesma.