No dia seguinte a tripulação da Sutay já estava com a primeira missão em mãos. Circular o Mar do Sul retornando ao porto de partida, com as leituras da viagem. Uma tarefa simples, até onde o planejamento estava. O mapa de correntes seria atualizado com os dados da viagem. Simplesmente.
Em Ealetra, porém, nada é simples. Enquanto nações como Erítria, Fáscia ou Jangunaray existem em um espaço regrado e policiado, o Mar é por definição uma área sem lei. Há muito tempo a ilusão de que existiam acordos sobre os mares foi estraçalhada pela guerra. Cada nação concentrou seus esforços em assegurar que suas terras estivessem seguras, e os Beruanos dominaram os céus. Os mares, ao contrário, foram abandonados ao acaso.
Patrulhas da Armada fecham o Mar Estreito, pequeno o suficiente para ser controlado com mínimo esforço.
O Mar do Norte, do Sul e Leste, estes são só protegidos até onde as águas territoriais de alguma nação se estendem, fora isso, apenas raros comboios são escoltados, e através de águas territoriais.
Mas como tudo em Ealetra, existia valor a ser alcançado nos Mares. E os primeiros marinheiros deste mundo provavelmente os melhores candidatos a explorá-lo.
— Estamos prontos capitão. — Sajó disse terminando os preparativos.
— Tripulação, partindo. — Karak deu a ordem com certo divertimento.
Um dia seu comando era em um navio que requeria operações constantes e controle manual de velas e cordas para as menores manobras. A Sutay, por outro lado, em grande parte requeria apertos de botões e no máximo regulagem de alavancas.
Barisi e Lateral na sala de máquinas apenas controlavam a situação evitando que problemas pudessem ocorrer, mas se não precisassem do tornado, o sistema era praticamente automático.
Ao contrário da viagem entre Jangunaray e Suyantara, porém, eles não estariam viajando na faixa subtropical de Ealetra, e sim descendo até a região mais polar. Era uma parte do Mar do Sul onde ondas gigantescas e uma maré que movimenta quatrocentos milhões de metros cúbicos de água salgada por segundo, com sua profundidade e velocidade. Ali, o tornado não permitiria viajar contra a maré, como permite na linha subtropical. Nem mesmo os cruzadores de cerco da Armada, com suas turbinas supercríticas e baterias colossais de carbóleo, gerando força suficiente para atravessar outro cruzador em uma trombada, poderiam enfrentar a maré na linha polar do sul.
Raila foi a primeira sentir a aproximação vagarosa das latitudes mais sul, procurando casacos que tiveram que ser emprestados de quem conhecia o frio. Logo depois Karak e Malek já procuravam mais abrigo.
Sajó e Carcará resistiam com relativo conforto em roupas normais, apenas um pouco mais longas. Não era muito mais frio do que o normal de Jangunaray, mas o principal era o frio ser seco.
Ainda não era razoável esquentar artificialmente a cabine, pois isso causaria problemas em caso de emergência requerendo saída da cabine. O choque térmico seria detrimental a prontidão necessária para o caso.
A descida em espiral já informava Karak e Malek sua posição. O tamanho das ondas ia tornando-se cada vez mais alto, quando mais sul estavam.
Apesar de ainda não estarem perto do limite sul, já conseguiam ouvir o barulho característico do choque das placas de gelo polar que formam-se, derretem-se, descolam-se e chocam-se constantemente.
Para os antigos piratas, era o sinal de águas proibidas. Barcos de séculos passados uma vez presos à espiral polar iriam ser puxados para os blocos de gelo, e destruídos por um glacier desgarrado.
A Sutay poderia sobreviver a corrente, mas não era garantida de sobreviver um choque de um glacier como os que se pensava possíveis. Alguns deles chegavam grandes o suficiente nos círculos polares externos para serem colossais nos círculos internos.
Já as ondas enchiam o convés de proa da embarcação, lavando os vidros com água gelada. Nenhum gelo ainda à vista, mas já frio o suficiente para beliscar Sajó e Carcará em seu estoicismo climático.
— O que exatamente estamos fazendo aqui? — Raila perguntou visivelmente afetada pelo frio.
— Colhendo leituras, observando o que acontece. É tudo que sei. — Karak respondeu observando o que podia pelo painel da cabine.
— A sala de máquinas deve estar mais agradável, Sangamani. — Sajó disse com sua risada cinza.
— Estamos perto agora, melhor ficarmos alerta. — Carcará disse observando as leituras de navegação.
O equipamento da Sutay estava em alerta. Pelo visual, pouco podia ser visto. O balanço das ondas, o movimento da embarcação, era impossível focar em um ponto no horizonte.
Algumas horas no mar e eles estavam mantendo a círculo polar de quarta ordem, ainda longe do campo onde glaciers desgarrados são comuns, mas já onde as ondas passam de médias a gigantescas em questão me minutos.
Eles estavam no limite da Sutay. Mais para o sul, e o aspergir do mar preso à embarcação congelaria pela mudança de volume e frio, vagarosamente encapando-a em gelo, que iria eventualmente mudar o peso e funcionalidade.
Era esperado que se fossem encontrar outras embarcações, esse seria o limite também. Tecnologia para navegar além disso era extremamente rara.
Entretanto, não passaram duas horas navegando aquela linha e os sonares identificaram pedra e metal em linha. Não havia terra seca naquela região, e o tamanho só poderia ser algum tipo de embarcação.
— Iniciando alerta. — Karak disse, ativando situação de alerta pelo painel.
Sajó, Malek e Carcará focaram nos radares e navegação.
Karak e Raila estavam no painel tático de comando.
Barisi e Lateral seguiam em seu lugar abaixo, na sala de máquinas.
— Categoria 4, três quartos, três horas contato. — Carcará repassou a leitura.
— Resposta de sistema? Reconhecido? — Karak perguntou.
— Negativo, capitão. — Malek respondeu.
— Temos como isolar imagem? — Karak estava perdido nos controles.
— Nessas condições, não, capitão. — Carcará respondeu.
— Qual a distância lateral?
— Ponto sete a um quilômetro estibordo, capitão. — Malek respondeu.
— Certeza? Estão muito perto da terceira ordem. — Karak conferia o dispositivo que recebeu de Ravantes.
— Positivo, capitão. E não parecem estar mudando curso. — Malek retrucou.
— Estamos ainda ao sul de Luar, o que estariam fazendo aqui. — Karak murmurou.
— Capitão, eles estão mudando curso, diminuindo velocidade frontal, em direção quinta ordem lateralmente. — Carcará alertou.
— Sabemos deles, eles podem saber de nós. — Karak adicionou.
— Talvez, mas a diminuição é mais congruente com manobra de navegação de cruzeiro. — Carcará retrucou.
— Seguimos em curso. Não sabemos quem são. — Karak disse reconfigurando a situação. — Desativando alerta.
Seguindo o barco por cinco horas, ele não parecia estar considerando a Sutay de tudo. Apenas seguindo a viagem subindo norte para a quinta ordem polar.
— Vamos subir para quinta ordem, estamos perdendo tempo aqui. — Karak comandou.
Eles seguiram a manobra, subindo para a quinta ordem polar, diminuindo a velocidade comparativa nas terras de Purvatara, mas compensando pela maior facilidade de navegação.
Em uma hora mantendo-se na quinta ordem, seguia a outra embarcação não reagindo, até que Carcará viu no sonar.
— Eles estão seguindo agora mais rápido para a quinta ordem. Velocidade frontal diminuindo. Contato estimado caindo para duas horas e meia.
— Alguma identificação?
— Negativo capitão. — Malek respondeu.
— Estão entrando rápido na quinta ordem. Duas horas para contato. — Carcará adicionou.
— Sala de máquinas, preparar o tornado em espera. meia trava. — Karak disse pelo sistema de som.
— Capitão, temos identificação parcial. Código do consórcio. Envia autenticação de Khadija. — Malek alertou.
— Seguimos nosso curso na mesma. Nosso objetivo não muda pela familiaridade. Mudaria do contrário. — Karak comandou.
Três horas e nada mudando, a Sutay seguia seu rumo, a embarcação com identificação de Khadija seguia o rumo.
— Raila, você deveria retirar-se primeiro. Sigo nesse turno. Teremos uma longa noite ao que parece. — Karak disse já programando a virada de sensores para fechar os painéis de visão com blindagem.
— O mesmo, Malek, Sajó, eu tomo a primeira vigília. — Carcará disse.
Malek olhou para Karak, que assentiu.
— Lateral toma a primeira vigília. — Karak disse pelo sistema de som.
Conforme a cabine foi isolada, as luzes fracas deixavam as telas mais brilhantes. O sonar ainda acusava a outra embarcação mantendo a distância.
Aquele dia e outro dia passaram, e a viagem seguia da mesma forma, quase nenhuma alteração.
A manhã trazia pouco em termos de luz, mas eles já se aproximavam do sul de Jangunaray, quase na longitude do Mar do Leste.
— Capitão, aproximação. Eles estão manobrando. — Malek disse.
— Situação de alerta. — Karak disse pelo sistema de som, ativando o alerta uma vez mais.
Raila e Carcará já estavam na cabine, mas Sajó havia descido para sala de máquinas, retornando pelo alerta.
— Malek, comunicações. Carcará, tático. Sajó, navegação. — Karak disse já puxando o sistema de som. — Preparando o tornado, sem trava.
— Sexto, quase sétimo. Uma hora para contato. — Carcará informou correndo para o posto.
— Temos VHF capitão. — Malek alertou.
— Sem envio, apenas ponto. 10 minutos. Canal geral. — Karak comandou.
Quatro pontos sem resposta, no quinto, houve uma interação.
— Temos sinal capitão. Desafio de credenciais. Recebemos, Khadija. prioridade. — Malek informou.
— Desafie. Envie minha autorização da Lâmina, sem prioridade. — Karak comandou.
— Aceito capitão.
— Eles estão diminuindo a velocidade. Contato caindo. Estão variando, provavelmente mantendo distância de dados. — Carcará informou já preparando o tático para contato.
— Alerta de contato. Máquinas preparadas. — Karak disse pelo sistema de som.
— Mensagem de texto, capitão. Transferindo. — Malek disse.
[Clarificação Transporte PT
Origem Khadija PT
Navegação comprometida PT
Formal apoio PT]
— Assinatura é confirmada, Comunicação? — Karak perguntou.
— Positivo, capitão. — Malek respondeu.
— Mudança de curso imediata. Esforço. Menos quinto. — Karak ordenou.
Malek e Carcará se entreolharam.
— Marinha real de Khadija não navega nesse Mar. Eles estão enviando a resposta como se fôssemos Harata do Consórcio. — Karak disse já configurando o alerta maior.