Admirável mundo novo

Os dias ensolarados da Fáscia eram intoleráveis para os Anoa, e por isso viam-se os raros que ali se encontravam somente depois de o sol ter terminado a sua jornada pelos céus. As construções dedicadas ao trabalho e intercâmbio contavam com vidros feitos de fibras difusas que desmontavam a luz do sol e dividiam os raios, espalhando uma pequena entrada eu uma ampla área de saída, iluminando naturalmente os ambientes, mas não permitindo que a pele deles fosse fustigada.
Aran se aventurava do lado de fora quando a necessidade era maior que o desconforto, e mesmo assim, apenas com grossas camadas de roupa. Era fácil não chamar atenção já que vestimentas pesadas e coloridas eram as favoritas dos Beruanos, um povo que vivia no planalto assolado por um sol mais castigante que o da Fáscia.
Aran tinha uma missão naquele dia. Ele deveria procurar os materiais para fazer o Qachruna. Esse nome de origem Sangamani significava 'mistura densa' e dava nome a uma forma de infusão mista de ervas. Sua finalidade era múltipla, mas os acadêmicos da Fáscia apesar de saberem o que possivelmente era ativo, não conseguiam replicar seu efeito com os compostos isolados. Havia algo nas ervas, talvez sublimado no processo de preparo, que dava o efeito na Qachruna feita com as ervas que era ausente numa mistura que continha apenas os elementos encontrados na resultante bebida.
Syndra aguardava na Academia de Ciências Alquímicas como uma adolescente que espera o primeiro beijo. Apesar de sua longa carreira acadêmica, a experiência da caminhada era nova. Algo que ela conhecia em teoria, mas nunca havia feito.
Seriam necessários suprimentos, certos reagentes, certos confortos, e, mais importante, um espaço onde a fadiga, a fome ou a interrupção externa não se intrometeriam. A caminhada não era um simples ritual social, para aqueles que acreditavam nos mitos. Uma vez realizado, ele mudava a percepção. Mudava como um sentia o outro. Mudava a mente. As consequências não podiam ser deixadas ao acaso.
A Qachruna era comumente usada para meditação e relaxamento. Uma medicina também usada em quantidades microscópicas como calmante. Conforme a dose era aumentada, seus efeitos neuropsicológicos eram ampliados exponencialmente, tornando-se perigoso quando usado sem o devido conhecimento. Nas quantidades utilizadas pelos Sangamani em seus rituais, alguns dos participantes se perdiam pela caminhada, como eles acreditavam, e nunca mais voltavam. Um corpo que existia, vivia, mas estava desligado da mente, que vagava sem rumo no vazio que restava.
Era quase essa dose e concentração que Syndra e Aran precisariam, se queriam atingir o ponto que era desejado, e Syndra adquirindo tal quantidades de tais qualidades, com certeza atrairia suspeitas, mesmo daqueles que não acreditavam na caminhada. Bastava apenas saber que a intenção dela seria de quem acredita.
Syndra naquela noite retornaria mais uma vez à esquecida propriedade da Casa Heleyan, não como Syndra, a Conselheira, nem Syndra, a diplomata, mas como Syndra, a Urbani preparada para entrelaçar sua alma com a de um Anoa.
Na chegada, não houve floreios. Um breve abraço, um beijo marcado mais pela solenidade do que pelo romance. Estavam demasiado cientes do peso do que fariam para gastar palavras com qualquer outra coisa. A tensão era mais densa do que a preparação que estavam prestes a iniciar.
Ela começou a preparar o Qachruna. Seu aroma, amadeirado, profundo, pungente, encheu a câmara escolhida para o ritual, cujos móveis haviam sido retirados. Os antigos Ta’khame foram reposicionados um de frente para o outro, de acordo com o costume. As propriedades do tecido, no formato que era culturalmente elaborado aqueles tantos milênios, e sua disposição, eram segundo as instruções, essenciais para o sucesso do ritual. Estranho, pois Sangamani não usam Ta'khame. Detalhes que a mente de Syndra contemplava, mas eram demasiado acadêmicos para o momento.
Syndra sentou-se ao lado de Aran, ambos no tecido, seus corpos completamente livres de todos os outros tecidos. Eles deveriam consumir cerca de 350 gramas da mistura, que depois de devidamente feita e prensada em tecido fino, era o equivalente a pouco mais 250ml. Era quase tão denso quanto um copo de mel, mas extremamente alcalino em gosto. Seu amargor era um desafio por si só.
Eles se encararam e sorriram em confirmação. O líquido espesso, com o tipo de sabor que forçava o corpo a se rebelar contra ele. Aderia à língua, subia de volta pela garganta. Ainda assim, eles beberam rapidamente. Era a única maneira. A bebida não podia ser sorvida. Tinha que dominar.
Depois de consumido, eles deveriam deitar-se lado a lado na mesma direção, e os efeitos não tardariam em aparecer. Era aconselhável sempre ter um 'Xamã' ou 'Druída', como a cultura Sangamani ou Silvani chamavam, respectivamente. Fazê-lo sem mais alguém como estava fazendo Syndra era extremamente perigoso.
As implicações do que estava por vir não eram pequenas. Se as histórias fossem verdadeiras, e Syndra não lhe dera motivos para duvidar que fossem, a caminhada era final. Não havia ritual para desfazê-la. Mentes uma vez ligadas nunca poderiam ser desligadas. Mesmo que ela o recusasse depois, se o arrependimento ou as circunstâncias os separassem, o laço permaneceria, e uma ausência substituindo uma conexão outrora presente se faria incomensurável. Um vazio esculpido onde o calor vivera.
E então, em uma progressão geométrica, o mundo se desvaneceu diferente de uma imaginação. Foi uma rejeição da própria realidade. O quarto se foi. Seus corpos se foram. O que restou foram formas espectrais, como ecos de suas formas corporais, flutuando em um grande vazio de pensamento e memória.
Aran não conseguia se mover. Sua forma pairava à deriva, leve na forma, mas imóvel. Syndra, preparada para isso, movia-se facilmente na caminhada. Sua consciência estava inteira. Ela via as cores de sua forma, os traços que dançavam ao seu redor em padrões que ela entendia instintivamente como eventos, memórias, traumas.
Sua mente tinha a capacidade de navegar aquela experiência porque a natureza daquele processo estava marcado em sua alma, ou era o que acreditavam os antigos, e isso permitia que ela controlasse seu cérebro sob o efeito da Qachruna. Aran por outro lado tinha apenas a consciência do que estava acontecendo, mas sua mente ainda estava privada do que pensava ser o controle daquele corpo, mas era somente do corpo físico. Não era o corpo e o sistema nervoso que controlariam seu corpo espectral, mas a mente, e Aran não tinha a mente preparada para isso.
Syndra dominava aquele espaço que compartilhava com Aran, mesmo que não entendesse exatamente como eles compartilhavam um espaço que até onde entendia, era sua mente.
Ela se moveu até ele, segurando sua forma inerte, e com precisão preparada mas inexperiente, tomou-o puxando para dentro de sua própria forma espectral. Como era o requisito do procedimento, ela absorveu a forma de Aran na sua própria, e através disso, sua visão se ampliou.
Não com emoção. Não com julgamento. Ela viu como uma observadora desapegada, indiferente, e ao mesmo tempo do ponto de vista dele. Ela rodou seus primeiros anos, moldados na cultura brutal de sua gente, acompanhando as escolhas que garantiram a sobrevivência e os custos que vieram com elas. Ela viu o que ele havia feito. E o que ele não conseguiu se forçar a fazer.
Ela também se viu. Sua vida, sua ascensão, seus pensamentos íntimos, vistos não através do sentimento, mas da observação. Desapegada da posse. Ela pôde ver onde seus caminhos se entrelaçaram. E como.
Aran só podia testemunhar o que ela escolhia. Ele não tinha controle. Isso também fazia parte do rito. Ela podia controlar tudo pela forma como sua memória cultural já a preparava. Ela ia lendo Aran como se fosse um banco de dados, passivo às consultas que ela fizesse.
Então, como ditava o costume, ela utilizou os traços coloridos que formavam as trilhas da vida de Aran e desenhou novamente sua forma espectral, e se preparou para devolvê-la ao seu corpo físico. Enquanto sua imagem espectral se remontava, ela notou um único ponto brilhante no topo de sua forma. Brilhante e de cor diferente do resto do espectro, espelhava o ponto no topo da cabeça dela mesma, em seu corpo espectral. Mesmo que não tenha feito a propósito, a imagem da mente de Aran estava reescrita com parte da imagem da mente dela. Especificamente a parte em Syndra que eles não compartilham. O que os místicos chamariam de âncora da alma, ou onde corpo e espírito se ligam.
O dele era fraco, mas estava lá. Brilhava com o mesmo aspecto que o dela, mas não tão forte, e não se enraizava por todo seu espectro como nela mesma, somente em parte de sua cabeça.
Ela desceu com a forma de luz dele através do vazio. Muito abaixo, seus corpos aguardavam, deitados no Ta'khame, invisível no plano em que estavam. Ela observava seus corpos físicos. Ela devolveu a forma dele ao corpo e depois assentou seu próprio espectro em seu corpo, puxando seu próprio espectro dentro da densa matéria física como se ele fosse uma esponja.
Aran estava ainda à deriva, e começou a entrar em pânico. Ele não conseguia seguir. Ele a viu ter sucesso, mas seu próprio retorno falhou. Sua forma brilhava em roxo agora, ansiosa, incerta. Algo estava errado.
Então, uma voz, dentro dele. Não ouvida. Sentida.
— Relaxe. Está funcionando. O tempo irá assentar. Seu corpo precisa reconhecer e absorver sua nova forma.
A voz era dela, Syndra, mas não falada. Nem mesmo lembrada. Era a voz dela, como carregada por seu próprio monólogo interior, tornada familiar.
Ele se acalmou. O brilho roxo deu lugar a um lilás suave que retornou ao seu tom âmbar fosco inicial. Sua forma se assentou.
A névoa começou a se reunir. E da névoa, o quarto retornou, e como se o ambiente se enchesse de um fluído diferente, a gravidade, o barulho e os cheiros e texturas da realidade retornavam.
Ele abriu os olhos. Syndra estava sentada à sua frente. Observando. Sorrindo.
No entanto, ao olhar ao redor, ele viu coisas que o olho não discerne, mas a mente entende. As marcas nas vigas de madeira faziam sentido nas consequências da vida da árvore de onde originaram-se. As pedras no chão e na parede começaram a fazer sentido, mostrando distintamente de qual direção foram cortadas da formação rochosa original. Ele podia sentir como se visse a direção em que o vento soprava lá fora.
— É assim que você vê o mundo? Sempre? — Aran perguntou com um brilho no olhar.
— Sim, meu amor, é assim. A minha gente vê o mundo assim. — Syndra disse procurando manter a positividade.
— Como você consegue organizar seus pensamentos? Cada coisa puxa centenas de outras, é impossível. — Aran seguia olhando ao redor, rindo-se.
Syndra estava mantendo-se firme, mas a mudança era recíproca. Assim como Aran passou a ver com a causalidade inerente aos Urbani, Syndra agora via a fatalidade inerente aos Anoa. Ela entendia que aquilo não era pra sempre. A felicidade no momento era a novidade daquilo tudo, mas que em tempo, tudo aquilo seria normal, e suas mentes procurariam outros modos de consumo de experiência, na prática, eles se cansariam daquilo, e só poderiam manter a chama encontrando outras formas de estímulo.
— Como eu controlo essas linhas. Elas não param. — Aran seguia inebriado com a nova visão de mundo.
— Prática. Vivemos em culturas diferentes. É preciso que você entenda que não tem como parar. Apenas como direcionar. Pense naquilo que une todas elas. Na finalidade de tudo. Lá que elas convergem, lá que elas se tornam menos, se tornam uma.
Syndra não queria fazer a mesma coisa. Era tenebroso perguntar a ele como ela parava de pensar que tudo era lúgubre e efêmero, e que a vida não tinha sentido se não uma sequencia de atos e resultados.
Enquanto ele começava a pensar nas realidades, no corpo dele, no dela, nas coisas que notara, na lógica das coisas, outro lado de sentimentos desconhecidos começou a emergir. Ele podia senti-la sem olhar para ela. Podia saber suas palavras pelo que ela queria dizer, não pelo significado literal delas. E podia sentir os sentimentos dela por ele. Podia sentir seu anseio por seu toque, seu cuidado, sua atenção.
Eles se olharam e, sem uma palavra, levantaram-se e se aproximaram, abraçando-se com força e se beijando.
Era a finalidade de ambos se manifestando pelo entendimento que pensando de forma similar, suas vontades e suas expectativas eram claras um para o outro. Era o resultado que tornava-os melhores que a soma dos dois.
Ele nunca sentira nada parecido. Era como se pudesse sentir o toque dela, a paixão dela, e a sua própria através dela. Era como a linguagem corporal aprimorada a um nível preternatural. Ele não percebia a resposta dela ao seu amor, ele sentia esse amor, diretamente e em uma forma como se afetasse diretamente sua consciência.
Aquele noite eles teriam só para eles, seguros naquele Castelo, a salvo dos olhos de suas povos, para descobrir tudo que aquilo tinha resultado. Era melhor conhecer e aproveitar os seus bons aspectos, porque ambos eram cientes de que haveriam novos problemas, igualmente intensos, que teriam que suportar em sua nova condição.
E naquela noite, eles explorariam todos os bons aspectos, até que o sol mais uma vez compelisse Syndra a assumir seus deveres e responsabilidades práticas.