Na medida que a costa do porto de Suyantara se aproximava, Rentaniel há muito se reconciliara com seu destino. Em sua mente, o fim era inevitável: de uma forma ou de outra, sua vida terminaria naquele lugar desgraçado.
Quando finalmente o arrastaram para terra firme, eles demonstravam um cuidado inconfundível, não por respeito, mas por pura praticidade. Os Harata eram, acima de tudo, eficientes. Mercadorias danificadas não alcançavam preços altos.
Eles o conduziram a uma estrutura de madeira, seus passos firmes apesar do peso invisível que pressionava seus ombros. Lá dentro, um homem de aparência despretensiosa, vestido casualmente, mas com olhos castanho-claros que brilhavam com uma mistura de cordialidade e propósito esperava Rentaniel. Este, apesar de tudo, não conseguiu nutrir qualquer animosidade real. O homem se movia com a fluidez de um caçador felino e a presença inabalável de um touro em investida.
— Mas ora, o que temos aqui? Finalmente os Fáscia tirando o lixo? — ponderou ele, com um tom de divertimento em suas palavras.
A companhia reunida riu em resposta.
— O que faremos com ele, Capitão? — perguntou o Silvani já brincando com o cutelo em sua mão.
O homem, tão charmoso quanto implacável, inclinou a cabeça, sua voz carregada de uma certeza retumbante.
— O lixo de um Harata é a vantagem de outro. Nós o levamos para os ursos polares. Eles pagarão por ele, tenho certeza. Seriais indetectáveis.
Rentaniel tentou falar.
Um golpe seco e treinado o atingiu entre os olhos antes que pudesse terminar. Um soco com os nós dos dedos, não para ferir, apenas para desorientar. Ele entendeu a mensagem muito bem. Não era para ele falar.
Longe dali, mais norte, na mal iluminada Taverna do Luar, Obravar estava atrás do bar, já informado dos acontecimentos que se desenrolavam na Fáscia.
Os motociclistas Beruanos já lhe trouxeram uma mensagem fora da rede. A pequena tira de madeira, escaneada pelo seu anel Harata, no terminal a mensagem codificada: [O homem de vime está queimando.]
Obravar murmurou, seu olhar se desviando para Melica e Navanteras, que relaxavam preguiçosamente à sua frente.
— Vai queimar antes mesmo que possamos sentir o cheiro da fumaça. — Obravar disse sem mudar de expressão.
— E a minha bonequinha, Obi? Ela está segura? — Melica perguntou com um certo divertimento.
— Não faço ideia. Está acima do meu nível. — Obravar deu um sorriso. — Mas ela não está com seu primo?
— Já temos que preparar para ir pra Trifronteira então. Hora de trabalhar. — Disse Navanteras.
— Não. A mensagem é para ser entregue em Luar. — Obravar disse com um sorriso.
— Você vai Teras. Hoje eu tenho outros lugares para estar. — Melica disse com um riso de gato.
— Acho melhor você entregar Melica. — Obravar terminou de abrir o sorriso. — A mensagem é para o seu pai.
— Eles vão meter o pai da Melica nisso? — Navanteras estava genuinamente surpreso. — Ele não é todo sério? Protocolo?
— Mas você é um santinho garoto? Ele já tá envolvido até o pescoço. A piranha dele deixa um fedor de morte que cruza o mar estreito, e ele está sempre cobrindo pra ela. Ele é perfeito. — Obravar disse com desdém.
— É, mas ele mesmo não age. Se é para ele agir, eles vão ter que proteger ele. Eu não vou colocar ele na mira por nada. — Melica agora estava séria.
— A mensagem é pra ele, se ele vai fazer alguma coisa, não é nossa ordem. Ele saber não coloca ele em risco. O que ele fizer, talvez. — Obravar disse com um certo pesar. — Sinto muito, Melica. São as regras.
— Ele é o coração de uma Harata. Eu. — Melica disse batendo no balcão.
— Não é pra mim que você tem que fazer caso disso, mocinha. — Obravar disse com paciência. — Quando estiver no Cântaro, Tegravas é que vai te dizer.
— Tem que valer para todos. — Melica disse fazendo beicinho.
— E você não esqueça que ele está vivo só por causa disso. — Obravar reiterou. — Ele pisa no pé de muita gente que não devia. Sorte dele ninguém gosta do Sasha.
A trivialidade do destino de Rentaniel era clara em seu tom. Ninguém ali realmente se importava com ele. Pelo que Melica sabia, Rentaniel era apenas um nobre Urbani em quem outros tinham interesse. Obravar, por sua vez, tinha sua história, mas não era algo que ele se esforçaria para testemunhar. Para todos eles, era uma nota de rodapé na rede de boatos dos Harata.
Algum tempo se passou até que o cruzador de Andrei atracou no porto em Luar, chegando precisamente na hora prevista, como toda operação da Armada Erítria.
Melica já estava lá, como costumava estar, esperando para entregar mensagens e qualquer informação que precisasse que Andrei recebesse. Os assuntos dados a ela nunca eram urgentes o suficiente para exigir segredo, o que não significava que ela poderia entregá-los à vista de todos sem preocupação.
Andrei era velho para um oficial de patrulha, há muito adiando a promoção, relutante em abandonar a certeza de patrulhar a incerteza do Mar Estreito. Essa rotina, fazendo rondas, garantindo a lei e a ordem, havia se tornado um ritmo confortável, que o tornara uma presença quase familiar entre os Harata da Cidade do Luar. Poucos Onatra jamais conseguiram isso.
Quando Andrei pisou no cais, Melica se aproximou dele, erguendo a mão, animada, em uma saudação militar exagerada. Seu sorriso brilhante e travesso, a rara visão capaz de arrancar um sorriso do velho oficial.
Seus soldados, ao seu lado, trocaram olhares desconfiados. Uma garota Harata, tão familiar com o comandante deles?
A voz de Andrei cortou a confusão deles.
— Médio tempo. Partida em noventa.
Os soldados hesitaram, mas obedeceram, dispersando-se para reunir provisões para a viagem ao redor de Magenta e de volta à Trifronteira.
A maioria dos oficiais da Armada nunca entendeu verdadeiramente a cultura Harata. No mundo da Armada, as famílias eram unidas pelo sangue. Mas entre os Harata, as crianças eram criadas por cuidadores designados em vez de pais biológicos. Pai e mãe eram papéis, não linhagem. Andrei estivera presente na vida de Melica por tempo suficiente para ganhar esse título dela.
Embora rígido por natureza, ele havia desenvolvido um carinho especial pela jovem Harata, uma conexão que se provou inestimável para navegar pelas complexidades dos costumes de seu povo. Era tanto um alívio para uma vida outrossim dedicada apenas ao dever, e ainda uma forma de testemunho de uma humanidade ainda em seu coração.
A voz de Melica quebrou seus pensamentos, aproveitando o movimento de seus soldados em trabalho.
— Pai, a Lâmina tem uma mensagem para você. Eles dizem que o homem de vime está queimando. — Ela entregou as palavras em seu tom casual de sempre, como se estivesse discutindo o tempo.
A expressão de Andrei mudou instantaneamente.
— Tem certeza, filha? O homem de vime está queimando? Queimando? — Seu tom endurecera, seus olhos mais aguçados do que antes.
— Sim, Pai. Foi exatamente o que disseram.
O silêncio se estendeu entre eles antes de Andrei respirar fundo, sua mão se estendendo para pousar no topo da cabeça dela. Ele deu um beijo gentil em sua testa.
— Quero que você volte para os seus Harata — ele murmurou, sua voz mais suave agora. — E tome cuidado. Diga a Obravar que o sol do meio-dia brilha sobre o homem de vime.
Melica recuou, observando o rosto do Onatra, procurando sinais.
— Você vai ficar bem, Pai?
Ele ofereceu um sorriso tranquilizador, embora algo por baixo parecesse mais pesado do que antes.
— Sim, querida. Voltarei em breve. Não é nada de mais.
Com isso, ele se virou e caminhou resolutamente em direção às docas, suas botas fazendo barulho deliberadamente ao atingirem as tábuas de madeira.
— Equipe em terra, acelerado. Quinze e partir. Sem demora. — Andrei disse com a voz de comando peculiar de altos oficiais.
Uma técnica, ainda apoiada em uma habilidade que só a biologia Onatra com seus músculos poderosos e corpos densos permite a maestria, a impostação de voz de comando. Sua voz ecoou pelo porto, e todos os seus oficiais em terra podiam ouvir claramente suas ordens.
Os soldados, sentindo a mudança na urgência, entraram em ação, seu ritmo anteriormente vagaroso substituído por um movimento rápido e ordeiro.
Comando e liderança era sua força. Onde o carisma e a influência era preternatural no Harata, a voz de comando do Onatra era legendária. Um comandante Onatra podia facilmente invocar uma voz de comando que arrastaria multidões de soldados, clara e imponente por cima de qualquer outro barulho.
Enquanto as últimas caixas eram carregadas, Andrei estava no leme, seus olhos procurando o céu. Então, enfiando a mão no bolso, ele pegou uma pequena chave.
Com passos medidos, ele se aproximou de um duto trancado sobre a proa do cruzador. Um giro rápido da chave liberou uma série de aberturas de ventilação, todas voltadas para a frente. Ele soltou um suspiro lento, os dedos roçando o medalhão do Sol Invicto. Em um sussurro, ele proferiu as antigas palavras de sua fé.
Sua prece silenciosa pela sua tarefa. Pelo seu tom, ele sentia a urgência e o peso do que estava a ponto de fazer. Ao contrário de como os Silvani falavam, os Oficiais da Armada em geral não tinham prazer na guerra, somente na disciplina militar, que se resoluta, nunca permitiria a guerra em primeiro lugar.
Andrei não era como alguns oficiais. Ele não era dukhovne. Ou assim ele acreditava. Ele terminou a sua prece, nas últimas palavras: Brilhe sobre o mal que é feito pelo bem maior.
Girando sua chave, uma série de respiros pelos lados do cruzador se abriram, e o cheiro de metal e terra quente começaram a exalar. Os seus soldados estavam inquietos com uma ansiedade diferente. Todos, em diferentes níveis sabiam o que aquilo significava, mas nem todos estavam ansiosos para confirmar suas suspeitas.