Aceitação

O quarto estava silencioso, exceto pelo leve sussurro das cortinas agitadas pela brisa fresca da noite. Tarja se apoiou na grade de madeira de sua varanda, as mãos agarrando as bordas ásperas, como se para se ancorar contra a tempestade de pensamentos que se agitava lá dentro.
A cidade murmurava com vozes distantes e o ocasional barulho do vapor dos motores ou do ranger de velhas bicicletas. Em Tarja era a impressão de que seu fardo era apenas seu, e a cidade, o mundo de Ealetra, seguia como antes, e aquela memória era só dela, e da sua equipe. Ninguém saberia daquelas vidas, daquelas dores, daqueles crimes.
Os eventos do dia pesavam muito sobre ela. Ela esticou o ombro, sentindo o eco da dor da luta anterior, mas não apenas dos golpes que levara, mas do esforço de se manter firme.
A dor física era familiar, constante à sua maneira, mas não era nada comparada ao peso que pressionava seu peito. Ela sabia que lutaria com aquela memória por muito tempo. O que ela havia visto era um marco em sua vida, um antes e um depois como nunca teve.
Ela estava protegida pelo equipamento, seus ferimentos eram pequenos, seus músculos fizeram tudo o que podiam. Ainda assim, quando mais importava, sua força não foi suficiente. Ela se perguntou se Situ a perdoaria por não ter sido rápida o suficiente, por não ter sido forte o suficiente, por não ter sido algo mais.
Ela exalou bruscamente. Havia algo que ela não estava vendo. Ela sabia como lutar com frequentadores de bar e impor a ordem, mas isso era diferente. Pessoas que estavam acostumadas a lutar e não se conteriam. Eles estavam lá para matar. Isso exigia mudança, mas como?
Uma batida suave em sua porta quebrou seu devaneio. Por um momento, ela considerou ignorar o visitante, mas sentiu que algo sobre este visitante poderia ser uma maneira de aliviar seu fardo e encontrar algo para seguir em frente. Uma sensação estranha, já que os Carpata são materialistas, com os pés no chão.
Era algo que ela ainda não sabia lidar, portanto, causava inquietação. Mas insinuou-se em sua mente, influenciando levemente sua decisão: intuição.
Quando ela abriu a porta, Nandi estava lá, sua expressão serena, iluminada pela luz fosca que derramava do corredor. Ela segurava uma pequena tigela de líquido fumegante em suas mãos, o aroma fragrante de ervas flutuando pelo ar. O que quer que fosse, apenas o cheiro sozinho tornava a mente clara e os pensamentos mais leves.
— Um coração cheio pode ser um balão ou uma âncora. A direção é escolha sua.
A voz de Nandi era tão suave quanto a melodia que ela cantara mais cedo, uma corrente suave contra a maré de inquietação.
Tarja hesitou, depois se afastou, permitindo que a Sangamani entrasse.
Nandi colocou a tigela na pequena mesa gasta e gesticulou para que ela se sentasse.
Relutantemente, a Carpata obedeceu, seu olhar fixo no líquido fumegante como se pudesse revelar respostas para as perguntas que roíam sua alma.
Nandi era um enigma. Tarja nunca vira uma mulher como ela. A pele escura e lisa como as pedras na base da montanha, refletindo a luz de uma maneira diferente da pele fosca em tom caramelo dos Harata. Os olhos eram escuros, infinitos, mas estranhamente reconfortantes.
Suas palavras também eram estranhas, moldadas por um sotaque áspero contra a língua comum, mas, de alguma forma, Tarja as entendia sem esforço.
Sangamani era um povo do deserto, longe da maioria dos outros povos, mas especialmente longe do Leste de Purvatara. Onachinia contava com literalmente zero Sangamani em seu território, e em sua história, recente ou antiga.
Ainda assim, Tarja sentia uma familiaridade com Nandi, como se nenhuma estranheza pudesse interpor entre elas.
— O sono parece distante esta noite — admitiu Tarja, a voz baixa. — Toda vez que fecho os olhos, eu os vejo. E me pergunto: Fiz o suficiente?
O olhar de Nandi se suavizou ao encontrar os olhos de Tarja.
— Seu povo é nobre, antigo. Raízes fortes. Sentir-se mal com o mal é sinal de coração forte. — Ela firmou os olhos da Carpata.
Tarja engoliu em seco, a garganta apertada.
— Não parece o suficiente. Não quando a filha deles vai crescer sem eles. Se eu tivesse sido mais rápida…
Tarja exalou, mas a dor não a deixou.
— Eu queria ser uma guerreira. Proteger as pessoas. Mas Valaravas, ele faz coisas que eu não consigo. Será que sou boa o suficiente para esta vida? Ele realmente precisa de mim? Ou ele apenas me deixa perseguir meu sonho?
— Muitos leões na floresta, mas meu leão, ele é rei — Nandi respondeu. — Com ele, não pode ser os dois ?
Nandi ergueu o japamala, virando-o para que a luz atingisse a madeira gasta das contas.
— A falange. Aprendem juntos. Um por todos. Um corpo, um propósito. Coração da Falange, um só. — Ela percorreu as contas em ritmo, como se cada uma contivesse uma lição não dita.
Nandi então segurou apenas uma conta, aquela separada na ponta.
— Baluarte é o muro. O primeiro muro. E o protetor, o sinal, a mensagem.
Nandi segurou as mãos de Tarja buscando o mais fundo da mente da Carpata. Como em um trabalho complexo ou numa receita nova, a mente de Tarja viajou sem o corpo, era como se ela flutuasse sem peso, sem nada ao redor, apenas o espaço vazio da mente turvo com a preocupação. A voz de Nandi ecoando nesse espaço mental como se viesse de dentro dela.
— O destino não tem gancho, não tem âncora. Coração forte, destino forte. Coração bom, destino bom.
Tarja sentia-se sufocada pela névoa escura que a sufocava naquele sonho, era como se ela estivesse imersa em um líquido, mas ao mesmo tempo suspensa no ar. A voz de Nandi seguia como um eco da mente, retumbando no peito.
— Coração é como uma flor, só funciona quando se abre.
Tarja começou a entender o fundamento de tudo aquilo, e como se respondesse ao seu entendimento, uma luz dourada começou a emanar de seu peito, emergindo como raios de sol em uma janela que se abre, invadindo todo o ser espectral de Tarja naquela viagem mental.
Sua imagem flutuava em uma luz que agora emanava de formas espectrais luminosas das pessoas que ela conhecia, Toivo, Kivi, Valaravas, Nandi, Situ, e outros desconhecidos.
A voz de Nandi invadia agora como se viesse tanto de fora quanto de dentro.
— Mesmos problemas, poucos ombros, muitos problemas, muitos ombros, poucos problemas.
A luz tornava-se um chão firme onde Tarja podia agora levantar-se em sua imagem mental. Não mais sufocada ou imersa, ela era dona de sua forma, e livre para mover-se. E como se desse um passo à frente, ela sentia o mover-se fácil, ágil.
Ela sentia seus braços, pernas, fortes, ágeis.
Ao mover-se, a luz que irradiava encontrou Nandi, não como a mulher que via na realidade, mas sim como uma grande estátua de pedra negra, com olhos se vermelho vivo. As marcas em seu corpo como uma espécie de trilha em que prestando atenção, mostravam caminhos, distantes, complexos, uma imagem sem relação com o real. Era como se aproximar de olhar fizesse ver mais distante, mais largo.
Ela tinha uma vontade forte, sua presença era como um obelisco de pedra negra que se ergue tanto na luz quanto na sombra. Tarja não sabia como, mas Nandi tinha uma influência em seus pensamentos.
Ela prestou atenção nas pedras vermelhas polidas que representavam os olhos de Nandi na imagem, e quando aproximou-se, podia ver através deles o que via na realidade, a mesa, o quarto, e as sensações que tinha, de alguma forma traduzidas em imagem e som.
Tarja espectral entrou nos olhos da Nandi espectral que via, e de repente, estava de volta ao seu quarto, ao seu corpo.
Ela pegou a tigela e tomou um gole da mistura de ervas. O calor se espalhou por ela, aliviando a tensão em seus músculos, sua mente menos carregada, mas não mais leve, ainda não. A mistura era picante, forte, a primeira sensação era um calor que emanava, que envolvia, mas assim que o efeito da especiaria irradiava, uma deliciosa sensação emergiu lentamente do que antes era picante.
Ela se lembrou de Valaravas e pensou que ele também fez tudo o que pôde, provavelmente mais do que a própria Tarja sabia, e ainda assim ele também perdeu os pais de Situ. E, no entanto, ele continuou, para enfrentar a menina e garantir que ela tivesse um lar e pessoas que cuidassem dela. Ele não podia controlar tudo, mas se levantou e agiu onde pôde.
— O melhor que posso ser — Tarja murmurou, sua voz carregando o peso de um entendimento recém-descoberto. — Eu quero proteger.
Ela fez uma pausa, o pensamento se desdobrando, tomando forma.
Algo mudou em seus olhos. Uma faísca, uma percepção há muito em formação.
— Uma Baluarte, como Valaravas chama. Uma protetora. Uma muralha. Não corre atrás da luta, permanece firme. Uma fortaleza é segura. Um Baluarte traz a batalha para si.
E ela concluiu fizera exatamente isso, instintivamente. Da próxima vez, ela o faria com intenção. Seus dedos se fecharam em punhos, sentindo a tensão crua em seus nós. Os hematomas em seus braços pulsavam com o ritmo constante de seu coração, um testemunho silencioso de que seu corpo sempre soubera dessa verdade, muito antes de sua mente a aceitar.
Nandi se levantou, caminhando em direção à porta, mas parou.
— Espíritos fortes, mais fortes juntos. Carregam o mundo. Mas é o coração, sozinho, que faz o Baluarte. — Nandi disse com uma certeza que não era daquele mundo.
Então ela se foi, suas palavras pairando no silêncio, assentando-se nos ossos de Tarja como uma fundação finalmente estabelecida.
A porta se fechou suavemente atrás dela, e Tarja ficou sozinha novamente. Ela tomou mais alguns goles do caldo. Refletindo por alguns minutos, ela colocou a tigela na mesa e voltou para a varanda, a cidade se estendendo diante dela como um labirinto de sombras e luz.
O ar da noite estava mais frio agora, trazendo consigo o leve cheiro do mar. Tarja fechou os olhos, deixando a brisa passar por ela. As palavras de Nandi ecoavam em sua mente, misturando-se com o encorajamento anterior de Valaravas. Apesar de todas as suas diferenças, Valaravas charmoso e doce, Nandi firme e mística, eles pareciam compartilhar um dom singular: a capacidade de ver o potencial nos outros, mesmo quando esse potencial parecia muito fora de alcance.
Com o passar das horas, Tarja notou que sua dor estava se tornando menos intensa. Ela carregaria o peso do dia, mas também carregaria as lições que ele lhe ensinara.
Amanhã, ela encontraria um caminho a seguir, não apenas para Situ, mas para si mesma.