Poucos lugares em Ealetra são como a Cidade do Luar, Vila do Luar, ou simplesmente, Luar.
Uma
parte do Beru que não faz parte do Planalto Central, ela foi vendida
para Ravantes, um Barão Harata que vive na Fáscia. Os Beruanos não se
intrometem no que acontece em Luar, e não existe nenhum tipo de
autoridade como se entenderia.
A região é constantemente
imersa em um clima úmido e nublado, que raramente deixa a luz direta do
sol cair sobre suas terras. Apesar da luz do sol ser sentida através das
nuvens claras e finas, não existe calor. Os dias nunca são mais quentes
que 22 graus, e as noites sempre mais frias que o dia. Durante a noite,
como a diferença de temperatura com o planalto do Beru é menor, ambos
frios, as nuvens geralmente dissipam para voltarem cedo no outro dia.
Daí o nome, Luar.
A costa é rochosa e alta, o que contribui
para o clima sempre nublado durante os dias mais quentes que as noites, e
sempre maios frios que o resto do Beru, e a população é completamente
Harata.
O principal negócio em Luar é a intriga e o mercado
negro. A central de gerenciamento dos empreendimentos de moralidade
duvidosa é a Taverna do Luar. Como o Cântaro, é um lugar para
alimentar-se, endividar-se, empregar-se ou sacrificar-se. Mas diferente
do Cântaro, Luar é uma terra onde qualquer lei é uma mera sugestão, e o
poder é que manda.
Obravar, o gerente, é o símbolo dessa
cultura. Já fora da contagem comum em Ealetra, ele é considerado um
ancião, uma pessoa que já viveu mais do que é esperado para sua gente.
77 anos, e 40 deles dedicados à Lâmina, e agora 17 dedicados a observar
Luar começar e terminar vidas.
Como todos os seus dias,
Obravar estava ali, atrás do balcão, geralmente secando copos secos, e
servindo de olhos e ouvidos para muitos interesses.
Navanteras,
o jovem irmão de Melica, estava ali junto observando o dia. Sua função
muito mais transitória. Preparações eram necessárias, e instruções de
seu primo, Valaravas, eram tudo que prendiam Navanteras de terminar seu
trabalho e procurar lugares melhores para estar.
— Silvani então. Seu primo tem mesmo algum tipo de problema. E o mais incrível é que a Fáscia não se manifesta.
—
Obravar, é Ayla. Ele não substituiu ela no trabalho. Ele substituiu ela
no coração da mãe. Audren é a mãe dela agora, mimando o filho.
—
Mas ela tem um filho. O que vai acontecer quando o filho dela bater de
frente com Valaravas? Ele vai. Por causa dos Silvani? Certeza.
— E como você sabe que ele não vai aceitar? Ele não liga. Ele quer poder só.
— Rentaniel é orgulhoso, ele não vai aceitar o jogo. Tenho certeza rapaz.
Antes
que Navanteras pudesse falar qualquer coisa, o ponto pessoal de Obravar
alertou. Usando o console do Bar, ele carregou um serial avulso com a
mensagem.
— Seu primo. Suas ordens.
— Não tem como ler aí, meu ponto pessoal ficou na Estalagem!
— Navanteras, 20 anos é idade o suficiente pra saber que suas ordens são pra você. Eu nem posso nem quero saber.
— Tá certo. Vou então.
Navanteras
bateu três vezes na madeira do balcão e saiu. O prédio do lado era a
Estalagem do Luar, onde ele estava instalado e podia conferir suas
ordens.
Obravar seguia sua vigília no bar, esperando qualquer
contato. Ele já havia sido avisado que teria novidades, mas seu papel
era só esperar.
Sua espera não durou muito. Um rapaz Harata
aproximou-se, impecável em seus modos, postura e expressão. Jovem, menos
de 20 anos, porém uma autoridade que muitos adultos não sabiam
empunhar.
— Rafiq, não esperava que estivesse por aqui. Sua "amiga" não veio hoje?
— Obravar, meu amigo. A Tenente tem seus afazeres, não podemos exigir dedicação completa.
— Se a Tenente não está, não há nada grave acontecendo então.
— Astuto como sempre, Obravar.
— E o que então o traz aqui. Com certeza não é a comida.
—
Temos estimados convidados chegando. Fui instruído a procurar alguns
itens mais difíceis de providenciar. Também precisamos lidar com um
assunto pendente. Entendo que existe uma refugiada sob seus cuidados.
— Sim. Ela foi a única sobrevivente da incursão. Melica pede como um favor que ela seja integrada.
— Ela sabe que integração não é de graça. A garota está preparada para fazer parte do trabalho?
— Ambas entendem.
—
Muito bem Obravar. Dê a ela as instruções básicas, e enquanto isso eu
vou providenciar uma colocação para ela. Provavelmente em Magenta. Ela
está ferida? Danificada?
— Não. Ela foi extraída antes do combate.
— Magenta então Obravar. Ravantes não tem objeções que ela seja cedida ao Dário, certo?
—
Ravantes tem já muitos, não necessita mais. Dário tem só Magenta, a
diferença dela para o Dário é maior que para o Ravantes. Rafiq, ela é só
uma menina, nem vai fazer muita diferente.
— Muito bem. Dário aceitará qualquer coisa que disser que ele aceita.
Rafiq bateu três vezes na madeira do balcão e retirou-se.
Enquanto
Obravar seguia ali observando o tempo passar, Navanteras estava na
Estalagem, executando suas ordens, e lidando como os problemas.
— Como você não pode conseguir isso? São as ordens, você consegue de tudo. Como isso não?
— Navanteras, não é uma questão de contrabando, ou de regras, é uma questão de que isso não é possível chegar aqui.
— Como não é possível chegar aqui Julio? Se é possível na Trifronteira, é possível aqui!
—
Não é possível na Trifronteira também. Todos eles são falsos.
Verdadeiro, só em um lugar, e é o último lugar onde queremos conseguir
qualquer coisa.
— Meu primo disse que tem que ser verdadeiro, e tem que ser pra "ontem" !
Eles seguiam discutindo, nem percebendo Rafiq que se aproximava.
— Como vão as coisas amigos? Algum problema? — Rafiq comandou atenção com sua presença.
— Rafiq, olha isso! Navanteras quer que eu faça essa lista! Onde eu vou conseguir isso? — Julio tentou passar o problema.
— Meu primo disse que tem que ser original. Tem que ser original. — Retrucou Navanteras cruzando os braços.
—
Pois bem. Seu primo é um homem sábio. Ele tem razão. Tem que ser
verdadeiro para dar o resultado desejado. Façamos o seguinte. Julio,
consiga a lista básica, é fácil, aqui mesmo. Navanteras, diga ao seu
primo que tudo está sob controle.
— Você vai conseguir um original? Em menos de um dia? Como? — Julio perguntou cruzando os braços.
— Eu vou, Julio. E você não vai querer saber como, meu amigo, para o seu próprio bem.
Rafiq
saiu com a mesma calma e naturalidade com que fazia tudo. Navanteras e
Julio não faziam ideia, mas uma coisa era certeza: Se ele disse que
conseguiria, ele conseguiria.
Se existe uma coisa que o Harata coloca acima de tudo é o primeiro dos aforismos de sua fé:
Harata nunca mente. A palavra Harata é permanente.