A palavra Harata é permanente

Eles se viraram como um só. Um jovem Harata se aproximou deles, seus passos precisos e sua postura equilibrada com uma fluidez mais adequada a uma corte do que ao caos mercantil do bazar.
Havia graça em seus movimentos, mas não a graça natural e indomável de um caçador. Era algo protocolar e cerimonial. Um refinamento que Ariel reconhecia, embora não de seu próprio povo. Este era o refinamento dos Urbani, a etiqueta de um mundo que nunca foi dela.
Ariel tentou formar uma imagem do estranho, mas o estranho era mais alto, tinha olhos mais claros e a postura era diferente. A voz era diferente. Esse fala como eles, uma voz profunda e comandante, porém juvenil. O outro comandava com uma voz doce e convidativa, mas madura. Este era jovem, refinado, mas não impunha experiência e força de vontade. Mais importante, não acendeu a centelha que ela ansiava que fosse acesa.
— Eu sou Rafiq, um domo na Estalagem — ele se apresentou, curvando-se apenas um pouco, uma fração mais baixo do que o necessário, mas não em submissão. — Estou aqui para ajudar com o que precisarem.
Erlan reagiu quase imediatamente, um lampejo de descontentamento cruzando seu rosto. O termo o incomodou, algo arraigado, algo que ele não acolhia. Ele inspirou fundo puxando o máximo que podia fazer para emitir palavras humanas.
— Domo?
— A pessoa que ajuda aos estrangeiros convidados em nossa cidade com as diferenças logísticas e culturais, Mestre Erlan.
Ao seu lado, Ariel sentiu a respiração de Erlan mudar. Ele também sentiu aquele desalinhamento sutil, aquela dissonância entre eles e este Harata diante deles. Rafiq era um jovem Harata que emanava o respeito de alguém já em seu quinto. Alguém com a experiência de vida e o controle emocional que só a idade poderia dar.
Ariel e Erlan sabiam o que isso significava, mesmo que tentassem não acreditar. Seu povo tinha a crença antiga que o mundo era conectado, e que pessoas podiam partilhar experiências através de algo que conheciam como a 'Caminhada'. Aqueles que caminhavam juntos pelo Umbral compartilhavam suas experiências de vida sem ter vivido uns a dos outros.
Para Ealetra moderna isso não passava de misticismo, mas era inegável que Rafiq não poderia ser quem é, se algo daquilo não fosse possível.
Mas essa não era a hora de entreter em filosofia.
— Rafiq, então... — Ariel disse, medida, procurando esconder seus sentimentos. — Precisamos de suprimentos. O que faremos?
— Como domo, eu supervisiono vários serviços para os convidados da Cabeça, o que vocês poderiam chamar de governança, do nosso povo. Aqui, minha tarefa é garantir que sua navegação pelo mercado seja tranquila. — Sua voz era suave, controlada, carregando aquela facilidade natural.
Rafiq entregou novos pontos pessoais para eles, e seriais marcados com o Brasão Harata, e não anônimos genéricos.
— Através destes aparelhos podem me contactar. Em qualquer negócio Harata, poderão partilhar de informações, responder comunicação privativa e coordenar com outros agentes. — Rafiq disse com segurança de alguém que já havia feito isso muitas vezes.
Ariel e Erlan sincronizaram seus pontos, observando as diferenças dos que utilizavam com a Armada. Eram esses muito mais robustos e mais avançados. Apesar disso, eram elegantes, como tudo que é Harata.
— Alguma coisa específica que precisam, ou apenas suprimentos gerais de manutenção? Provisões? Suporte? Crédito?
— Não tenho certeza do que podemos conseguir com as UMGB que temos Rafiq.
Rafiq apontou para o ponto pessoal de Ariel, como se alguma coisa estivesse faltando.
Quando Ariel consultou mais propriamente seu ponto, além de constar seu nome, como [Ariel da Serenidade], nome e cidade, como eram nomeados os Exilados, sem novidades, mas logo abaixo seu saldo em [UMGB: 750 000]
Erlan verificou e comparou o seu, com similar assombro.
Seus contratos mais altos na Armada pagariam 1000, 2500 UMGB no máximo. O histórico evidenciava que seu pagamento pelo serviço de salvamento do garoto, identificado por um código de contrato qualquer no Razão era 1.250.000 UMGB de onde 500.000 constavam como despesas e taxas.
A absurdidade dos números era surreal em suas mentes. Desde que entraram no sistema do Consórcio, e tinham visto qualquer UMGB, eles nunca tinham visto um valor maior que 50 000 UMGB, e isso em totais de muito tempo, geralmente dívidas.
Rafiq manteve a mesma postura, sem qualquer reação ao claro assombro dos dois. Ele simplesmente inclinou a cabeça ligeiramente, um leve sorriso na borda de seus lábios, procurando ser visto e tirar o foco dos Silvani de seus pontos pessoais.
— Basta levar-me até quem tem o que precisa, Mestre Ariel. — Sua voz tão suave quanto pedra polida. — Eu providenciarei para que seja fornecido.
Ariel hesitou. Só um pouco. Os Haratas deveriam ser adaptáveis, camaleões sociais, e no entanto a adaptação de Rafiq parecia projetada para outra pessoa. Ariel suspeitava que não fosse um erro da parte dele, mas um aviso, uma mensagem.
Caminhando para o mercado novamente, ela observou e pensamentos voaram em sua mente. Esta era a força de um Harata, a capacidade de se mover pelo mundo sem ser desafiado, de navegar sem resistência, sem suspeita, sem exílio. Ela e Erlan lutavam por cada centímetro de espaço que ocupavam, sobreviviam pela cautela, pelo disfarce, por uma luta sem fim. Os Haratas simplesmente existiam onde desejavam estar.
Rafiq era para ela um símbolo de contraste com o legado que seu povo lhes deixou: desconfiança e desdém em igual medida.
— Andem tranquilos, não há necessidade de receio. Sua segurança está nas mãos dos agentes da Lâmina que sempre estarão vigiando. Nenhum mal lhes virá porquanto estejam dentro do mercado. — Rafiq disse sem a menor alteração.
Andar abertamente pela rua em cidades como aquelas poderia ser uma sentença, mas não ali, não naquele momento. E a Cidade do Luar provavelmente se abriria para eles agora. Mas os irmãos Silvani ainda estavam céticos, andando com cuidado e olhando para todos os lados. Tornara-se o normal deles, os exilados, os forasteiros, os inimigos derrotados.
Por um breve momento, algo desconhecido roçou os pensamentos de Ariel, algo como uma nostalgia há muito enterrada, exceto que não era nostalgia, porque aquilo nunca fora dela. A sensação de ser tratada com tanto respeito sem esforço era estranha.
Ela agora queria ser respeitada por quem ela, Ariel, era. Não por causa do pai ter sido um líder de seu povo ou da superioridade física, mas porque ela é Ariel, e as pessoas a conheceriam e a respeitariam por isso, apenas por isso. Ela afastou o pensamento antes que ele pudesse se instalar. Não tinha certeza se isso a deixava com ciúmes ou inquieta.
Ao seu lado, Erlan finalmente falou novamente, sua voz mais áspera do que pretendia.
— Não precisamos de um servo.
Seu tom saiu mais seco do que ele pretendia, mas não se corrigiu. Aí estava. Rafiq não vacilou com o comentário. Se algo, sua expressão permaneceu perfeitamente composta, seu sorriso educado inabalável.
— Claro que não, Mestre Erlan — ele respondeu suavemente. — Estou simplesmente aqui para facilitar o que tenho certeza de que poderiam alcançar por conta própria. Meu propósito é apenas fazer com que aconteça mais rápido e de forma mais suave.
Suas palavras foram cuidadosas, modestas até, mas Ariel notou algo na maneira como ele se portava. Ele não era nem servil nem insultado. Ele simplesmente era, inteiramente inabalável por rejeição ou exigência.

Ela exalou lentamente pelo nariz, algo mudando no fundo de sua mente. Rafiq não dignificou o desabafo de Erlan com uma discussão. Ela queria aquilo. Ser capaz de deixar as palavras passarem sem reagir, sem sequer precisar rebatê-las, não apenas externamente, mas dentro de si mesma. Mas ela não estava lá. Ainda não. Talvez nunca conseguisse.
— Rafiq, você luta como os Harata que conhecemos? — Ariel perguntou, tentando mudar de assunto.
— Não, a Cabeça, minha posição, nos coloca à frente de assuntos de negócios e dos acordos. — ele então gesticulou para um outro Harata uniformizado mais à frente. — Eles são da Lâmina, algo como a nossa versão da 'Armada'.
Enquanto caminhavam, Erlan mantinha um olho vigilante no jovem Harata. Seu desconforto se misturava com outra coisa: Admiração relutante. O garoto personificava algo que ele suspeitava que lhe faltava, um charme sem esforço, comportamento educado e uma sinceridade silenciosa e desarmante. Isso o irritava.
— E aquela moeda que recebemos. — Erlan por fim falou. — Para que serve? A quem entregamos?
— O Grêmio, como parte do Consórcio, confia aquele símbolo àqueles que servem a causa. Como comissários, sua palavra carrega o peso dessa confiança. Mas a moeda é apenas um símbolo, o começo. Aqueles que a carregam são conhecidos muito antes de realmente precisarem dela.
— E porque não a utilizamos mais? — Ariel perguntou com genuína curiosidade.
— Determinamos que seria melhor uma aproximação direta. Somos conscientes de que nossos protocolos não teriam o efeito desejado para Silvani.
— Quem determinou? — Ariel disse confusa.
— Eu determinei. Mestre Ariel.
— Mas os vendedores são livres para não nos aceitar. Certo? Ou eles tem obrigação?
— No geral, seriam. Mas como vocês são comissários do Grêmio, é um dever, e uma honra, cumprir com o respeito que lhes é devido.
— Dever, obrigação, são a mesma coisa no fim das contas. — Erlan novamente sólido como uma pedra.
— Não, Mestre Erlan. Tenho certeza que semântica pura cabe a linguagem, mas precisamos de termos para uma clara comunicação. E dever e obrigação nunca devem ser confundidos, não por pedantismo, mas para uma clara troca de ideias.
— Desculpe Rafiq, Silvani é diferente. — Ariel tentou colocar panos quentes.
— Não há problemas. É um bom momento para entenderem nossa cultura. Dever, Yakani em Harata, é o que se faz pelo caminho que se escolhe na vida. Obrigação, Bendima em Harata, é o que se faz independente da vontade e das escolhas. — Rafiq explicou com a paciência de um professor de primário.
— Mas tudo tem um preço. — Erlan insistiu.
— Meu dever é relacionado, assim como o deles, com o seu serviço para o consórcio. A vida que salvaram era o coração de um Harata. Vale muitos deveres. — Rafiq deixou uma ponta de orgulho transparecer.
— Coração de um Harata? — Ariel questionou enfática.
— Uma pessoa não Harata que outro Harata considera importante, ama, ou de outra forma estende sua importância em nosso povo.
— Mas nós não somos 'Corações de um Harata', qual a nossa importância? — Erlan já procurava um ângulo.
— Vocês são os que carregam os fardos, os riscos, os perigos. O mínimo que posso fazer é garantir que tenham as ferramentas para enfrentá-los. Se por importância você quer dizer sua parte na troca, então aí está.
A banca de armamentos era exatamente como eles esperavam. No momento em que o mercador os viu, dois Silvani, sua expressão azedou. Os preços dispararam sem fingimento, sua voz rígida, sua hospitalidade inexistente.
Ariel sentiu seu temperamento fervilhar, mas antes que pudesse falar, Rafiq deu um passo à frente. Sua presença, embora ainda educada, de repente se tornou mais pesada. Era como se nuvens escuras de tempestade cobrissem o brilho dos olhos castanhos do garoto em um instante.
— Você honrará os pedidos deles. — Seu tom era calmo, mas absoluto. — Eles são comissários. Sua cooperação é tanto apreciada quanto esperada. Por todos nós.
Ariel observou a mudança se desenrolar. O mercador, agora subitamente ansioso, acenou para que se aproximassem, sua voz se suavizando, suas palavras polidas com uma cortesia forçada, mas não condescendente, ao invés, desesperada. Ele lhes mostrou suas mercadorias como se sua vida dependesse disso. E talvez, de alguma forma, dependesse.
Os dois Silvani escolheram seus itens, como qualquer um teria feito em seu lugar, e o mercador respondeu a todas as perguntas, ofereceu ótimas recomendações e falou com um nível de serviço que estivera ausente por todo o exílio dos Silvani.
Quando saíram, o peso nos ombros dos irmãos havia diminuído, e até Ariel se permitiu um lampejo de divertimento. Ela se virou para Erlan, sua voz tingida de malícia. 
— Mais um Harata salvando sua vida, irmãozinho. — Ariel disse em Silvani com um tom sarcástico.
— Ele sabe o que você está dizendo, provavelmente, irmãzinha.
— E daí? — Ariel deu com os ombros.
Ao sair do espaço das tendas, Ariel deixou um de seus pacotes cair no chão, mas antes que pudesse pegá-lo, outra surpresa daquele dia. Uma Onatra com um corpo massivo abaixou-se para pegar o pacote, seu braço longo alcançou o chão quase sem que ela se abaixasse tanto. Ela era como Ariel sempre ouvia dos Onatra: alta, forte, uniforme impecável, os cabelos como outro prateado, mas o sorriso era fora de caráter.
O sorriso Onatra era descrito como educado, protocolar, mas o dessa Onatra era no rosto todo, como se seus olhos, sua testa, seu corpo, tudo sorrisse em conjunto.
Ao se organizar com os pacotes, Ariel olhou novamente e já não via a mulher em lugar algum. A imagem porém ficou em sua mente.
Com seus suprimentos garantidos, eles retornaram à estalagem, o peso da tomada de decisões aliviado, mas nunca verdadeiramente eliminado. A Cidade do Luar não se tornara mais gentil, mas se tornara familiar, um campo de batalha de transações, tanto faladas quanto silenciosas.
Na entrada, Rafiq os esperava, curvando-se gentilmente à medida que se aproximavam.
— Obrigado pela oportunidade de me fazer útil. Por favor, aproveitem meus serviços sempre que precisarem de algo.
Seu tom era protocolar, preciso, mas não perdia nada de seu charme. Havia algo reconfortante nele, sem esforço, como se o próprio ato de ser prestativo fosse uma segunda natureza.
Os Silvani responderam com um aceno, embora cada um interpretasse a troca de maneira diferente.
Ariel estava aliviada e mais esperançosa que a vida deles iria mudar. Erlan, ao contrário, considerava aquilo mais uma demonstração de controle dos Harata. Seria difícil vencer o abismo que estava criando-se entre eles.
Eles subiram as escadas para seus quartos, o silêncio entre eles não tenso, mas pensativo. Amanhã, eles dariam o próximo passo. E desta vez, não estariam andando sozinhos.
— Tudo realmente mudou irmão. Estamos numa trajetória.
— Mudar, mudamos. Só não sei se para melhor.
Erlan não conseguia aquietar um pensamento. Se sua irmã descobrisse que não precisava depender dele para nada, ela poderia escolher os Harata em vez dele, forçando-o a aceitar. Ele não estava preparado para isso.
Enquanto Erlan organizava seus pensamentos olhando para fora, uma figura chamou sua atenção, movendo-se em direção à Taverna. Ele não conseguiu ver muito dado o ângulo da janela, mas em sua mente, tentou se lembrar. Sua memória teve que viajar muito no passado para encontrar quem era aquela figura, um guarda real Urbani. Aquilo não era uma boa perspectiva. Ele não tinha certeza do que seria pior: não saber a razão, ou ser a razão.