À noite tudo é mais escuro

Ariel estava inquieta com as meias revelações daqueles dias. Ela queria mais, queria saber. Tinha que saber. Ela esperava que naquela biblioteca encontraria as respostas que nem sequer eram possíveis de estar em uma biblioteca, as respostas para suas ansiedades e medos.
Quando a noite estava já avançada e a lua não era generosa com sua luz, Ariel voltou à casa segura, procurando entrar por subterfúgio. Ela queria procurar pelas respostas que julgava merecer, sem o escrutínio dos outros. Queria ter uma vantagem.
Ela fez o seu melhor para se misturar com as sombras, andar sem ser vista. A noite estava cooperando, e ela presumiu que estava em seu elemento.
Ela subiu pelas paredes altas com a agilidade que lhe era peculiar, e encontrou apoios para descer com a suavidade e precisão que sempre usou em seu trabalho.
Ela vasculhou tudo, certificando-se de entrar pela parte mais deserta e obscurecida que poderia encontrar.
Depois de dois passos que deu nos jardins internos da propriedade, ela percebeu que uma figura em uma veste de polímero colada ao corpo estava acompanhando seus movimentos. Era um agente da Lâmina, como muitos que haviam espalhados pela Ilha à qualquer momento.
Ariel sentiu-se aquecer pela vergonha que tomou seu corpo, acelerando seu coração. Sua ideia de entrar sem ser percebida agora parecia ridícula em retrocesso.
— Mestre Ariel, não há necessidade de subterfúgio. A propriedade do Grêmio é sua para explorar. Fique bem, sua segurança está assegurada por nós. — A figura tinha o rosto coberto mas os olhos seguiam sinceros, e Harata.
A figura desapareceu tão rápido quanto apareceu, como Ariel provavelmente não poderia se quisesse. A Silvani não deixou de notar esse fato.
Ela estava agitada mas não deu muito tempo para considerações. Uma vez que havia sido descoberta e sua passagem liberada, ela ponderou a besteira de pensar que entrar num arquivo Harata, numa ilha Harata, iria contar a ela mais do que os Harata sabiam. Era mais provável que o jogo foi deliberadamente oferecido à ela.
O arquivo era vasto, suas prateleiras de pedra se estendendo profundamente na câmara subterrânea. O que mais a impressionou não foram as fileiras intermináveis de pergaminhos antigos ou os mais modernos dispositivos digitais.
O que estava mais fora de lugar em sua mente eram as lanternas que emitiam uma luz azul peculiar. Elas não tinham cabos, não tinham baterias. Eram simplesmente bulbos de vidro adornados em metal que pendiam das paredes ou do teto, mas também alguns portáteis, simplesmente globos de vidro brilhando azul com uma pequena placa de metal para apoiar em uma superfície, ou nas mãos.
Não havia cintilação, nem cheiro, e não havia o zumbido de eletricidade. A princípio, ela pensou que fossem algum tipo de lâmpada especial que reagia com gás ou líquido, mas ao tocá-las, nenhum calor emanava, e movimento não alterava a luminosidade. Ela teria que ser química.
Ariel observou os pergaminhos e livros velhos, mas foi direto aos terminais. Gigabytes de informação ela poderia receber e pesquisar pelos terminais. Mas ela percebeu uma etiqueta perto das lâmpadas portáteis, e viu uma inscrição destacar-se das mensagens com os cuidados e procedimentos de uso: [Ljud Ynis]
Ariel franziu a testa, tentou descobrir mais. Os resultados da pesquisa eram curiosos, mas deixaram Ariel perplexa.
[Feita com extratos de fungos do Vale do Silício, a Ljud Ynis é uma goma com um odor acre e tóxico, que deve ser mantida fechada durante o uso o tempo todo. O abastecimento deve ser feito na estação de alquimia, sempre na capela. Calcário incita uma luminescência azul não tóxica. Quartzo sulfúrico causa uma reação violenta, mantenha afastado]
Assinava o artigo Syndra de Miralamar. Alguém que Ariel nunca havia ouvido falar, e nem parecia parte de nenhuma casa Urbani que ela conhecesse. Mas o texto era parte de uma pesquisa da Academia da Fáscia, então ela tinha que ser Urbani. 
Ela lançou um olhar desconfiado para as lanternas ao seu redor, seu brilho fantasmagórico de repente menos reconfortante, mais invasivo. Se estas eram feitas da biosfera do Vale, então o Grêmio já conhecia o interior do vale, já o havia pesquisado. Alguém mais havia notado? Valaravas sabe? Claro que ele sabe.
Ao pesquisar sobre o Vale, artigos de diversos tipos apareceram, mas alguns chamaram a atenção dela por serem similares à coisas que os Silvani conheciam.
[Tribos Varta Conhecidas: Varta Solar e Varta Lunar]
Os resultados tinham partes digitalizadas de documentos antigos, traduzidos pelo sistema em Onatri. O original era Harata antigo. O comentário no registro estava escrito em Silvani que os Urbani usam.
[Chandravarta e Suryavarta. Os registros históricos compilados por Ayla de Seldanar falam da cultura Varta. Os Chandravarta tinham olhos grandes, sem orelhas visíveis, e uma vida noturna ativa, retirando-se para as cavernas do vale à noite. Os Suryavarta eram menores, de pele mais fina, olhos pequenos e afundados em suas órbitas, com uma arcada supraciliar proeminente, provavelmente selecionada para proteção da luz solar e dos ventos do vale. Seus ouvidos eram cobertos por um domo cartilaginoso e ao invés de orelhas, tecidos de pele grossa funcionavam como proteção, fechando como pálpebras sobre os domos auriculares.]
Ariel conhecia uma lenda dos Silvani, sobre os seguidores do sol e os seguidores da lua. Eles falavam dos antigos habitantes do mundo jovem, recém-emergido das águas.
[Chuvas tóxicas e quebras de safra parecem ter sido a razão para a divergência acentuada e consequente encurtamento das gerações. Suryavarta Ancestrais em seus 700 anos viram seus descendentes envelhecerem rapidamente, vivendo vidas plenas tão rapidamente quanto metade de suas vidas ainda saudáveis.]
Até onde as informações diziam, os Varta eram orgânicos. Suas vidas longas não eram um fato amplamente discutido até onde ela sabia.
Outro conto que Ariel relacionou à cultura de seu povo. As descrições soam como os ensinamentos sobre o destino daqueles que se corrompiam com outros povos. Dizem que os antigos viveram por milênios com a ajuda da floresta que era o Vale do Silício antes do dilúvio, mas a heresia contra a ordem natural destruiu a floresta, e causou o dilúvio. Lendas, até onde se sabe, mas tinha ali certos paralelos incontestáveis.
[Chandravarta de alguma forma se adaptaram à vida no Vale, mas isso parece ter restringido sua capacidade de viver em qualquer outro lugar]
Ariel refletiu sobre a possibilidade de que os dissidentes tivessem encontrado a solução para viver no Vale sem problemas. Seria razoável pensar que se fizessem Ealetra toda com o Vale, então poderiam viver em outro lugar.
Uma nota chamou sua atenção. Especula sobre as semelhanças entre as toxinas no vale e a Qachruna, uma planta usada por elaboradoras Sangamani para cerimônias espirituais profundas, causando um transe que pode durar dias, até semanas. É um sono desperto do qual poucos conseguem acordar, a menos que devido aos efeitos diminuídos ou a outro ritual realizado com uma mistura de ervas que visa anular a Qachruna no corpo.
[Os seguidores de Kahnbor não acreditam que o vale destrói a mente, mas expande os sentidos. Seus ritos buscam acelerar esse processo. Eles não vasculham ruínas, buscam algo dentro.]
Uma nota escrita a mão na folha digitalizada antiga: [Adoração ao sol invicto?]
Na parte digital do documento, alguns comentários falam de situações mais recentes.
[A Armada Onatra nega a entrada. Não por hostilidade, mas para manter a contenção. A diretiva permanece inalterada: o Vale não deve ser perturbado.]
Os artigos falam da Armada sob o comando de um General Taras Yurkovych Sedov. 
Ariel exalou bruscamente, forçando-se a firmar as mãos. As evidências ligando os Sangamani, a postura da Armada, os Seguidores de Kahnbor, o autoimposto isolamento dos Sangamani em uma cultura focada em bioquímica, tudo converge nos contos do Vale. Ela pensava que o objetivo deles era simplesmente chegar às ruínas, garantir tudo de valor e mantê-lo longe dos dissidentes. Agora ele parecia muito mais complicado.
Entre as notas disponíveis no terminal, estavam notas escritas diretamente por Ayla.
[Se os dissidentes não estivessem saqueando?
Uma versão mais sombria da cultura Sangamani. Se isso fosse possível. E se eles não estivessem roubando conhecimento, mas testando uma transformação?]
Ela procurou pelos dados. Haviam diagramas e símbolos, um sistema. Um ciclo fechado. Um teste que nunca foi interrompido. Ela tentou usar sua memória para lembrar histórias antigas de seu povo e as coisas que estavam descritas ali. Ela então reconheceu um dos círculos. Os que estavam no círculo não eram símbolos que significavam algo, eram símbolos gravados em algo. Uma moeda, um selo, um artefato usado para rituais de sangue.
Eles seguem o mesmo padrão que os antigos Silvani usavam em árvores durante rituais druídicos. O Vale não foi abandonado, apenas alguns partiram, outros ficaram, mas os Varta permaneceram nele. Os dissidentes não estavam apenas descobrindo seu passado. Estavam tentando lutar contra o que quer que estivesse no Vale para tomá-lo.
Ariel ponderou que os Varta, se reais, deveriam ser o povo que escravizava seus ancestrais, não os próprios ancestrais.
Mais documentos sobre o General Taras, algumas passagens chamaram a atenção de Ariel. 
[A liderança Onatra nega conhecimento. Alguns de seus generais são contra explorá-lo.]
Mais adiante:
[A fixação dos Silvani com Vale pode ser prejudicial ao esforço de guerra e à coesão da armada. Esta cadeira busca a Meritocracia para intervir.]
O documento estava armazenado incompleto. Pelo que se podia ler, dizia algo sobre o protocolo da Armada que deveria ser impedido. Sem detalhes. Provavelmente algo que os Harata ou os Beruanos roubaram dos arquivos da Armada. Ou alguém vazou para o Consórcio.
Ariel desligou-se do terminal, seus dedos tensos. O brilho pálido da Ljud Ynis na borda de sua visão, sua luminescência antinatural lançando uma luz fria e espectral contra as paredes da câmara. A sensação pressionava contra sua pele como algo que ele conhecia, como se a mera presença daquilo tivesse peso, uma consciência que ela não entendia.
Esta não era uma missão simples. Busca e recuperação era apenas a camada superficial de algo muito mais profundo se agitava por baixo.
Ela se virou e deixou a câmara, sua mente já se movendo através das implicações. Demais. Muitas conexões. As respostas estavam lá, emaranhadas na teia, mas ainda estavam adormecidas, e em cabeças que ainda não haviam despertado para o seu significado.
Ela foi pelo caminho já tentando fazer um resumo mental para falar com seu irmão. Eram muitas coisas importantes demais para que ela fizesse sentido de tudo sozinha.
Quando chegou no quarto, ela sentou-se com Erlan no brilho fraco em comparação com o azul que vira. O silêncio se estendia entre eles, denso de pensamentos não ditos. Ela relatou tudo o que descobriu e algumas de suas conjecturas. Erlan respirou fundo, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios. O tipo que ela sempre achara irritante.
Ariel pegou um dos seriais em que tinha gravado algumas coisas, e entregou para Erlan.
Entre os registros de missões passadas, dois nomes apareciam juntos repetidamente: Valaravas e Ayla.
Eles já sabiam algo sobre Ayla, mas a ficha do Grêmio era mais completa, e trouxe mais dúvidas do que certezas.
Eles já sabiam que ela era filha da Grande Mãe Audren, irmã de Rentaniel, e sua família era da casa de Seldanar, que é também a família Real de Khadija. Ali eles descobriram que Seldanar fundou a Fáscia como um protetorado, que eventualmente se tornou um reino Independente. Descobriram também que Audren é a irmã mais nova da Grande Mãe de Khadija.
A Grande Mãe Majaris de Seldanar que fundou a Fáscia, com o objetivo de selar as bordas de Onachinia, pela relutância dos Beruanos em responsabilizar-se pela nação recém criada, na época.
Eles sabiam que a Cidade do Conhecimento de Tirayon antiga, eles eram contra entregar uma cidade apenas o controle de Tirayon. Sabiam onde isso ia levar. Eles, Silvani, permaneceram, eventualmente elevando uma cidade sobre as outras, o que resultou eventualmente no genocídio da Cidade da Serenidade, a cidade da família deles. Posteriormente a Cidade da Sabedoria decidiu tomar o poder, e a Cidade da Coragem, ironicamente, traiu Tirayon entregando-se à Armada e juntos, Armada e a Cidade da Coragem, fizeram um golpe de Estado e tomaram o poder em Tirayon. Subsequente acordo fez com que a Armada saísse de Tirayon, com a promessa que Tirayon nunca mais iria expandir, em troca de o Consórcio nunca entrar em Tirayon.
Ayla não era apenas uma erudita, mas uma das mentes por trás do refinamento e da militarização das máquinas de guerra. E mais do que isso, ela era a líder, e Valaravas, seu único Legado. O que significa, um Legado de uma nobre de uma linhagem que espelhava a de Ariel, mas da Cidade que fugiu da nação Silvani, a Cidade do Conhecimento. Eles tomaram toda a tecnologia e avanço sobre a área do conhecimento, reclamando-os apenas aos Urbani. Ayla foi fundamental em difundir o Conhecimento que seria Silvani, e também Urbani, pelo mundo todo de Ealetra, através das Academias da Fáscia, sua terra natal.
Legado não era um conceito Silvani. Os Urbani definiram esse conceito quando através da Caminhada elevaram o povo Harata, compartilhando o avanço deles mesmos e dos milhares de anos passados da cultura Silvani a um povo Harata que mal tinha aprendido a navegar e construir com madeira.
O costume da caminhada era o que fez os Harata praticamente dominarem o comércio e a política de Ealetra, à serviço dos Urbani.
Erlan se recostou, cruzando os braços sobre o peito, balançando a cabeça.
— Parabéns irmã, você sabe escolher muito bem seus homens. — disse Erlan rindo.
Ariel franziu a testa, os dedos se apertando em um punho.
— E se tudo isso não é um projeto Harata, mas um esquema dos Urbani? — Ariel conjecturou.
Erlan assentiu lentamente, seus pensamentos claramente se alinhando com os dela.
— Nós sabemos o que isso significa porque somos Silvani. E se o Harata nem mesmo entende a informação que está nos arquivos? — Erlan adicionou.
— E se Valaravas queria uma Silvani por causa disso? — Ariel concluiu.
— Se for assim, ele é realmente um grande estrategista. Ou um idiota útil.
Ariel estava pensando se a importância dela era somente isso. E se fosse, o que viria uma vez que Valaravas tivesse a informação que procurava. Se Harata não mente, era hora de fazer as perguntas certas, diretamente.