Nandi passava tranquilamente pela sala, indo de uma cozinha a outra levar alguns legumes para quando Tarja fosse cozinhar, mas no meio do caminho viu a porta de entrada se abrir. Eram laceradores Urbani, escoltando Rentaniel para uma visita 'surpresa' que provavelmente não seria surpresa para ninguém.
Nandi inclinou a cabeça e olhou para eles, voltando para a sala adjacente ao leste, retornando alguns segundos depois com Valaravas.
Valaravas mal se mexeu ao ver Rentaniel entrando em seu domínio, sua expressão tão naturalmente composta como sempre. Havia algo quase orgulhoso na maneira como ele inclinou a cabeça, encarando a visita inesperada como se não fosse nada mais do que uma leve curiosidade.
— Irmão, eu definitivamente não esperava companhia. Algum problema? — Seu tom, leve como sempre. — Ou apenas uma decisão equivocada que ainda pode decidir não tomar?
Rentaniel, sempre a imagem antes da mensagem, e a civilidade praticada de opressão protocolar, apenas sorriu.
— Nushala queria dizer um oi. Afinal de contas, você não vai até ela.
Valaravas voltou seu olhar para a jovem, sua expressão mudando para um caloroso sorriso sincero.
— E como vai você, garotinha? Ainda com aquela mania de música Harata que em 'nenhum momento' eu te incentivei a gostar? — Ele disse ponto um intervalo nas hostilidades veladas.
Nushala, despreocupada com formalidades, abraçou Valaravas e já estava perambulando pela casa, passando os dedos pelos móveis antigos, observando o espaço como se fosse seu. Sua voz era leve, provocadora.
— Val! Faz tempo demais. Nandi! Você está muito bem! Melhor que antes. — Nandi sorriu, com um certo cuidado.
Com candor, Nandi saiu para a sala ao lado.
Valaravas, sem se abalar, gesticulou em direção ao salão oeste.
— Irmão, vamos nos sentar. Um bom vinho sempre melhora a perspectiva, especialmente quando se está tomando decisões imprudentes. — As palavras foram quase conspiratórias, carregando uma diversão pessoal que não era para ser compartilhada.
Rentaniel permitiu-se ser conduzido, embora sua presença inquietasse mais do que apenas o anfitrião. Ao passarem os dois por Erlan, ele se tensionou ao ver o nobre Urbani, instintivamente se movendo para a frente antes que a mão de Tarja agarrasse sua camisa. Ela o puxou para trás sem sutileza, arrastando-o em direção à saída.
— Garotão, essa é uma conversa que definitivamente não queremos participar. Temos o que fazer por nós mesmos. — Tarja murmurou mal escondendo a urgência. — Qualquer coisa é melhor pra gente do que participar disso.
Os sentinelas Urbani já estavam entrando, pontilhando a sala nas posições mais estratégicas.
Valaravas serviu três taças, o rico aroma do vinho Vista Exótica se espalhando pelo ar.
— Filha, você não deveria ... — Rentaniel disse com ar de desaprovação.
— Eu definitivamente deveria. — Nushala riu-se. — Não se recusa o senhor da casa!
O sorriso de Nushala era felino, e orgulhoso. Como se aquilo fosse seu sonho.
Valaravas riu, recostando-se ligeiramente.
— Ela puxou a vó, com certeza. Essa vivacidade deve ser igual a beleza: roda na família, mas pulou você. — Valaravas encostou-se saboreando o vinho e as pequenas farpas.
Rentaniel exalou bruscamente pelo nariz, sem se impressionar.
— E onde está sua boneca? Limpando a cozinha? — Seu sorriso era pontiagudo, um desprezo mal velado se curvando em seus cantos.
Valaravas apenas girou sua taça, como se ponderasse o pensamento.
— Boneca? Você quer dizer que ela é bonita? Silvani? Ambos? — Ele cantarolou, divertido com a irritação de Rentaniel.
Nushala, com a curiosidade aguçada, inclinou a cabeça.
— Boa pergunta. Todo mundo fala dela. Eu quero ver. Ela deve ser exótica!
Como se convocada, Nandi reapareceu na entrada, Ariel ao seu lado. No momento em que as duas cruzaram o limiar, os guardas se multiplicaram. Onde antes havia dois, agora quatro se avolumavam dentro, com mais posicionados do lado de fora da porta.
A voz de Nandi era um sopro de ar contra a orelha de Ariel, quase imperceptível.
— Essa é uma família Harata, ele manda na rua, você manda na casa.
Elas se sentaram ao lado de Valaravas, o simples ato provocando um espasmo na mandíbula de Rentaniel.
— Definitivamente ambos. — Nushala brilhou medindo Ariel. — Onde você a encontrou Val?
Valaravas soltou uma respiração curta e divertida.
— Ela não é outro nível? Ariel, esta é Nushala, filha de Rentaniel. Ela ouviu que estávamos na cidade e veio visitar. Ela estava simplesmente doida pra te conhecer.
Ariel assentiu, sua voz suave, composta. Um Silvani carregado.
— Nushala? Sim. Ouvimos muito sobre você. Quase como se você já estivesse aqui. Como se fosse da família.
Os olhos de Nushala se estreitaram ligeiramente, intrigada.
— Val te contou sobre mim? Agora eu tenho que saber. — Ela ergueu sua taça, bebendo sem elegância, sua curiosidade sem filtro.
— Vocês deveriam conversar mais — sugeriu Valaravas, um sorriso fantasma pairando em seus lábios.
Seu olhar, no entanto, seguia Rentaniel, saboreando a tensão silenciosa em seus ombros.
— Vocês duas têm muito em comum. Tanto em gostos quanto em coisas que vocês não gostam que façam com vocês. — Valaravas adicionou, com sagacidade.
A paciência de Rentaniel se esgotou.
— Precisamos conversar, irmão. Há assuntos importantes a discutir.
— Sim, eu concordo irmão. Façamos o seguinte, deixemos as mulheres fazerem coisas de mulher, como 'você' costuma dizer, enquanto conversamos?
A expressão de Rentaniel escureceu.
— Não acho prudente deixar Nushala sozinha com sua boneca de estimação, irmão. Ela tem o hábito de falar demais. — Rentaniel começou a preocupar-se.
— É? Perfeito. Ariel é uma ótima ouvinte, e Nushala poderá falar tudo que quiser.
A mandíbula de Rentaniel se contraiu, seus dedos batendo uma vez contra a mesa antes de ele erguer a mão em sinal.
Os guardas na porta enrijeceram, movendo-se ligeiramente para bloquear a saída.
O corpo de Ariel se tensionou, os instintos se aguçando como uma navalha. Ela confiava em Valaravas, confiava em Nandi, mas a confiança era algo frágil em uma sala que de repente se fechava com laceradores Urbani.
Nandi se levantou primeiro, sua mão deslizando em volta do braço de Ariel, seus passos lentos, mas firmes. Ao chegar à porta, ela inclinou a cabeça em direção a Nushala, um convite silencioso, ou uma puxada ao respeito que compartilhavam, para Nushala entender o que era melhor pra ela.
Nushala, como se desvencilhando do olhar do pai, a seguiu.
Os guardas bloquearam seu caminho, momento em que Nandi pegou as mãos de ambas as mulheres e encarou o guarda em seu caminho.
— Nushala está segura. O leão esta em casa. — Nandi disse em Silvani para o guarda.
A expressão do guarda passou de força disciplinada para emoção vacilante em um piscar de olhos. O guarda ordenou que os outros saíssem do caminho e então as convidou-as a passar.
Valaravas reclinou-se, totalmente impassível, seu vinho como um instrumento retórico em suas mãos.
— Eu sei por que você veio, irmão. Fale abertamente. Quanto mais cedo resolvermos isso, mais cedo terminaremos. — Valaravas adquiriu o tom de negociantes. — Seja claro. Deixe fluir seu eu. Eu sei que essa civilidade não é o que você quer mostrar.
Rentaniel exalou, acomodando-se na cadeira, distanciando seu rosto do Harata.
— Agora que você está de volta à Fáscia, é justo que honre a tradição. Nushala é jovem demais para propriamente fazer a caminhada com um Harata, mas você é adulto e já está em nossa família, pode ser feito, e ela deveria ter o seu Legado. — Seu tom era formal, discutindo o assunto como quem discute o arranjo de gado.
Valaravas sorriu. Não calorosamente.
— Irmão, eu gosto de você. Gosto mesmo. Esse seu jeito é divertido enquanto ele é inofensivo. — Ele tomou um gole de vinho, deixando marinar em Rentaniel a realização. — Mas sua ingenuidade será sua morte. Não por mim, mas quando eu te deixar agir por conta própria.
Rentaniel enrijeceu, mas antes que pudesse falar, Valaravas se levantou. Pela primeira vez, ele fez um movimento.
Rentaniel não reagiu imediatamente. Mas seus olhos seguiram enquanto Valaravas atravessava a sala, murmurando algo para o guarda mais próximo. Um sussurro de instrução. Então, com a mesma facilidade com que Rentaniel os convocara, Valaravas os dispensara. Os quatro guardas viraram nos calcanhares e saíram.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Valaravas retomou seu assento, exalando como se nada tivesse mudado.
— Estamos numa casa segura do Grêmio, irmão. Aqui sou eu que faço as regras, somos nós que guardamos os salões. E são as nossas regras que valem. Os direitos são meus, não seus. — Valaravas disse sem crueldade, mas numa questão de fatos evidentes.
— Minha mãe ouvirá sobre isso! — Rentaniel disse, sua voz com falsete agudo.
Valaravas exalou pelo nariz, balançando a cabeça com uma diversão lenta e relaxada.
— Se eu conheço a Grande Mãe, mãe de Ayla, portanto minha também, irmão — disse ele, a voz carregada de ironia — ela já sabe o que você quer fazer, ela já sabe como eu iria reagir, e imagino que ela lhe disse exatamente o que estou lhe mostrando agora. Temos o mesmo dom, irmão, mas eu tenho outro que você não tem, eu sou Harata.
Valaravas fez uma pausa para assentar a realidade, e continuou.
— Você ao menos notou que vários dos seus guardas não são seus? Eles estão aqui não para te proteger de mim, mas para garantir que você não faça a besteira que pretende.
Rentaniel exalou bruscamente. Ele não tinha réplica. Seu blefe fora descoberto.
Valaravas permaneceu composto como sempre, andando com a facilidade que lhe era sempre peculiar, o peso da inevitabilidade se assentando em sua postura como um velho amigo. Sua voz não carregava malícia, nem regozijo, apenas a simples verdade de um homem que há muito dominara o jogo.
— Acho que você deveria ir, Rentaniel. E acho que deveria ir sozinho. Tire um tempo para refletir sobre seus próximos passos. — Ele deixou as palavras respirarem, depois acrescentou, quase como um pensamento posterior. — Nushala ficará bem aqui. Você mesmo disse que ela desejava me ver, e ela é bem-vinda a ficar por quanto tempo quiser. Minha 'boneca' Silvani irá cuidar dela muito bem.
Ele não fez grandes gestos, nenhuma postura dramática, simplesmente se virou em direção à porta, a conversa, no que lhe dizia respeito, concluída.
A mandíbula de Rentaniel se contraiu ao sair, mas sua atenção vacilou por um breve momento. Nandi e Ariel estavam conversando com Nushala, rindo, à vontade. Como se se conhecessem há muito mais tempo do que os meros momentos desde suas apresentações. Como se, de alguma forma, ela já tivesse começado a escapar de seu alcance.
Valaravas seguiu seu olhar, depois se virou para Rentaniel com a fria finalidade de um veredito proferido.
— Pode ir agora, irmão. Nós cuidaremos de tudo por aqui. — Valaravas disse já afunilando Rentaniel para a porta. — Você falou em tradição, irmão, e aqui você não tem voz. A tradição aqui é Harata. Nushala está em minha casa agora, não na sua. Ela é o coração de um Harata, em uma família Harata. Aqui, você não é pai, você não é nobre. É apenas um estrangeiro.
— Você não tem o direito de fazer isso Valaravas! — Rentaniel sentiu o peso do que estava por vir.
— É o meu direito, e acima de tudo, é o que vejo melhor para Nushala. — Valaravas disse simplesmente. — Eu sou o senhor desta casa, Ariel é a senhora. Você não é nada.
As palavras não eram uma ameaça. Não eram nem mesmo cruéis. Eram simplesmente lei.
— Eu não permitirei! — Rentaniel levantou a mão.
Valaravas exalou, balançando a cabeça ligeiramente, quase com pena.
Então, sem olhar para trás, Rentaniel alcançou a porta, puxando-a com um ar de finalidade. Os guardas posicionados do lado de fora endireitaram-se com o movimento, sua vigilância silenciosa tornando-se aguçada.
— Vamos conversar aqui fora, Valaravas. —disse Rentaniel finalmente, a voz forçosamente temperada. — Não tenho desejo de fazer uma cena sob o teto de minha falecida irmã.
Eles passaram pela porta, os guardas os flanqueando como espectros silenciosos. Valaravas o seguiu, seu tom mudando para uma cadência mais autoritária, quase divertida, e esperando com a inevitável virada dos acontecimentos.
— Vanguarda. — Valaravas dirigiu-se aos guardas. — O senhor Rentaniel se encontra indisposto. Certifiquem-se de que ele seja escoltado para casa. Nushala ficará conosco. Ela está segura, avisem a Grande Mãe. Lembrem-se de tratar o senhor Rentaniel com gentileza, ele está em um estado fragilizado.
Ao comando silencioso, dois guardas se reposicionaram sutilmente, colocando-se entre Rentaniel e a porta. Um terceiro emergiu da periferia, sua presença absoluta. A implicação era clara.
Rentaniel inspirou bruscamente, mas não reagiu. Não aqui. Não agora. Em vez disso, com relutância rígida, ele se virou, permitindo-se ser levado.
Do mirante elevado com vista para o pátio, Tarja e Erlan observavam, suas expressões mudando de curiosidade para incredulidade mal contida. Rentaniel estava sendo escoltado pelos mesmos laceradores com quem havia chegado.
Erlan murmurou algo em Silvani, inclinando a cabeça, ainda não acreditando totalmente em seus olhos.
Tarja, sempre perspicaz, o cutucou com o cotovelo, seus lábios se curvando em algo deliciosamente malicioso enquanto falava em Onatri.
— Precisamos ouvir essa história. — Tarja riu-se.
Enquanto Rentaniel desaparecia além do pátio, o peso de sua presença finalmente se dissipando do ar, Tarja e Erlan não perderam tempo em entrar.
Encontraram Valaravas, Nandi, Ariel e a jovem Nushala, já se movendo em direção à sala de jantar, a tensão no espaço se difundindo em algo muito mais confortável, muito mais natural.
Tarja, sempre uma para pontuar um momento, soltou uma risada baixa.
— Bem, adivinha quem fica para o jantar?