A mulher Varta

Alm'runa saiu em busca dos Silvani, deixando Tzol remoendo suas amarguras, talvez até mesmo em uma forma de impedi-lo de envolver-se no que faria em seguida.
Ela foi até o outro lado onde saiba encontrar os três ainda procrastinando o que nem sabiam como iriam fazer.
— Silvani, antes que façam algo que vão se arrepender, escutem. — A mulher Varta disse com autoridade. — Devemos preparar a chegada para os de fora, e não irá ajudar simplesmente sentar e esperar.
— Mas Hen'Tzol disse ... — Shalev tentou interromper.
— Meu irmão disse o que tinha para dizer, e eu direi o que tenho para dizer. — Runa interrompeu, com ênfase.
Avivi bateu no ombro de Shalev.
— Sim, senhora. — Avivi disse encerrando o problema.
— Precisamos espiar o que fazem pelos contatos que temos pelo lado de fora. Vocês vão aprender tudo que possam sobre seus movimentos, e reportar-se diretamente a mim. Meu irmão é só para ser consultado em assuntos de batalha e nada mais. — Runa disse com finalidade.
— Sim senhora. — Os três Silvani disseram em uníssono.
— Mais uma coisa: Quero saber especificamente sobre a mulher do seu povo que comanda os que tomaram sua nação. — A mulher Varta disse com um brilho disfarçado no olhar.
— Como assim, senhora? Quer saber suas táticas? Onde está? — Shalev perguntou com estranheza.
— Não. Sobre ela. Sua vida, o que ela fazia antes, o que faz agora, como ela chegou onde está. — Runa disse impaciente.
Shmaria deu um soco leve no ombro de Shalev antes que ele pudesse questionar mais.
— Sim senhora. — Shalev disse, sem mais.
A mulher Varta saiu como quem já está maquinando seus próximos passos com entusiasmo, desaparecendo na escuridão.
Uma vez que a porta novamente se fechou para o resto da fortaleza, Shalev estava inquieto.
— Esses dois não se entendem, é o nosso na reta. — Shalev murmurou mais para si mesmo. — E você? Que foi aquilo?
— Ela não quer lutar com a Silvani deles. Ela quer entender a Silvani deles, seu bobo. Ela quer tentar enrolá-los do mesmo jeito que ela enrola Tzol. — Shmaria disse rindo-se.
— A diferença é que eles não vão ser muito doces com a mulher de 300 quilos e 2 metros e meio de altura, com aquela cara. — Avivi riu-se.
— Talvez, Avivi, talvez. Mas por outro lado, eles talvez pensem que é melhor tentar do que lutar com a mulher de 300 quilos e 2 metros e meio de altura, e seus amigos. — Shalev disse com uma cara pensativa.
Alm'runa já havia retirado-se do recinto e da fortaleza. Ela caminhava pelas alamedas que um dia foram ladeadas por árvores com pássaros canoros e plantas fragrantes, mas agora em realidade eram caminhos decrépitos cheios de musgo e barro. Ela porém, influenciada pela caminhada, e pela memória de gerações de sua família nobre entre os Varta, ainda podia construir a sensação pela memória e andar como se fossem ainda prazerosas de atravessar.
Seu caminho à levou a um outro castelo, onde como Shmaria, ela poderia simplesmente erguer as mãos e plantas que pareciam fundirem-se com ela abriam passagens para o interior.
Ali dentro sua mãe a esperava, já idosa e com a saúde comprometida, do que seria da "Grande Mãe" daquela terra só sobrava o eco de tempos antigos e uma Chandravarta que vivia ainda imersa nas memórias de tempos passados, sem saber que nem mesmo eram suas as memórias.
— Mãe, estamos progredindo. Seu povo está esperançoso. — Runa disse engolindo o fato de mentir para sua mãe.
— Os escravos rebeldes foram encontrados? Eles estarão perdidos se não os encontrarmos. Eles são fracos, os animais vão atacá-los. — A anciã Varta dizia com genuína preocupação.
— Eles já retornaram, Mãe. Estão nos alojamentos. Já estão oferecidos de comida e roupas limpas. — Runa disse com um sorriso.
— E o que você deseja filha? Terminou suas tarefas? — A anciã perguntou procurando pelos braços da filha.
— Preciso do seu conselho Mãe. Preciso de conhecimento. — Runa disse com uma falsa preocupação.
— Sempre, minha filha. Os meus dias se encurtam, e logo você será a Grande Mãe. — A anciã disse já se endireitando.
As duas se colocaram sentadas lado a lado, mas em posições contrárias. Olhando-se em diagonais, as duas Varta, mãe e filha, consumiram a Qachruna fina, amarela e levemente amadeirada em gosto, leve ao paladar. Era o suficiente para que caminhassem em uníssono, mas também não o suficiente para que a mãe pudesse saber os planos e intenções da filha.
Seu mundo sumiu e no vazio da caminhada, ainda não Umbralina, apenas no espaço da mente, elas se encontraram como luzes e sons que lhes davam forma.
Alm'runa podia compartilhar com sua mãe as informações da caminhada que compartilhavam de gerações passadas de Varta, e porquanto a anciã permanecia passiva apenas oferecendo seu conhecimento, a procura de Alm'runa era mais incisiva. Ela procurava uma de suas antepassadas especificamente. Ela precisava encontrar alguém que agora sabia que eles haviam conhecido.
Ela via a imagem de sua ancestral se formar entre ela e a mãe na caminhada, era uma Varta vestida em roupas elegantes, mas cobrindo seu corpo, seu rosto, deixando-a com uma aparência mais comum ao lugar onde estava.
Em outras caminhadas, Alm'runa havia ignorado essa passagem como uma tentativa desesperada, mas agora sabia ser diferente. Ela havia recentemente recebido informações de outros dissidentes, aqueles que trouxeram os três piratas Silvani.
Esse momento, ela sabia, foi menosprezado em sua importância. Ela seguiu a imagem de sua ancestral em uma viagem que ela fez, diferente dos muitos guerreiros que seguiam e esgueiravam pelas fronteiras, ela foi aceita, com receio, por homens de aparência Silvani, em uma terra que ela desconhecia, montanhosa, fria.
Sua ancestral foi trazida à um grande salão, cheio de pompa, e tecidos azuis.
Em sua mente era como se ela observasse pela visão de sua ancestral, mas sem controle, apenas os sentidos.
— Não temos nada mais a dizer. Esteja certa que a cortesia de sua segurança é um presente aos seus ancestrais, não à você. — Dizia uma Silvani elegantemente vestida.
— Vocês não podem nos deixar sofrer mais pelos erros de nosso povo. Nem todos são da mesma vontade. — A Varta disse suplicante.
— Selamos a sua terra há muitos séculos, pois vocês começaram um processo que pouco entendiam. Nos custou nosso povo, nossa paz, e mesmo nosso reino, como um. — A Silvani dizia com emoção.
— Silvani, seu povo não é perfeito. Ele também errou. Ele também tem culpa nessa catástrofe! — A Varta explodiu.
— Somos Urbani, minha cara. Abandonamos Tirayon exatamente por causa dos erros deles. E os do dia abandonaram vocês por causa dos seus. — A agora sabida Urbani levantou de sua cadeira enfeitada.
— Estamos desesperados, não temos para onde ir, não temos aliados, e apenas vocês sabem a verdade. — A Varta tentou ser razoável.
— E o que faria eu? Apostar meu novo reino, meu povo, em confiar que sua gente não fará o que fizeram por gerações? — A Urbani questionou, andando até uma jovem menina Urbani que se sentava na mesa.
— Meu povo? Meu povo tem ajudado sua gente, dado conhecimento, compartilhado informação usada para atacar gente da minha linhagem. Fizemos um favor, 'Urbani' não mais Silvani. — A Varta disse com peso.
A Urbani ficou em silêncio por algum tempo.
— Façamos o seguinte — A Urbani parou, com se usasse seu dom para ver além sem a caminhada. — Essa é minha filha mais nova. Remova todo o seu povo da falésia no Leste de Purvatara. Ela construirá um protetorado ali.
— E em que isso nos ajuda? — A velha Varta cruzou os braços.
— Minha filha mais velha assumirá esse reino quando eu não estiver aqui. E seu povo nunca provará a mim que é confiável. Minha filha mais nova — Ela apontou para a menina Urbani ali — Audren, ela tem um coração mais mole, mesmo mais inocente.
A mulher Urbani pousou seus braços sobre os ombros da filha Audren.
— Se quando a minha filha Audren assumir e crescer um reino próspero ali, sem a ameça de seu povo, se sem a vingança de seus homens, ela tiver razão para confiar em vocês, que peçam ajuda a ela. — A Urbani disse com finalidade. — Porque eu sou já velha demais para ser convencida do contrário.
A imagem esmaeceu e retornou as duas mulheres Varta para os aposentos em que estavam.
— Filha, a jovem Audren, me lembro! Onde ela está agora? — A anciã perguntou confundindo as memórias vistas como próprias dela.
— Ela está bem mãe. Ela já esta grande agora, preparando-se para ser uma Grande Mãe! — Alm'runa disse com um sorriso terno.
— Espero que ela nos perdoe. Ela pode nos ajudar bastante. — A idosa Varta disse já seguindo para outros pensamentos.
Alm'runa aproximou-se, beijando a testa da mãe, e indo-se novamente. 
— Audren, sim. Ela irá nos ajudar, bastante. — A jovem Varta seguiu com um sorriso enigmático.