A letra miúda

A tripulação da Sutay já tinha definido seu próximo passo, mas a nova condição também revelava que não estariam apenas seguindo ordens superiores, mas teriam que decidir como completar a missão.
Lateral e Barisi estavam contentes em ficar na sala de máquinas e deixar esse tipo de decisão com os outros. Sajó por sua vez, aderiu ao coro e permaneceu com eles, uma vez que agora a equipe de terra fazia todo o trabalho de manutenção.
Em tempo eficiente a Sutay já estava preparada para sua nova missão. Seriam alguns dias até chegar novamente ao porto de Onachinia, tempo suficiente para discutir as novas implicações.
Depois de estarem seguramente no caminho do Mar do Sul acompanhando o fluxo comercial para Jangunaray, Raila estava inquieta com o silêncio sobre tudo aquilo.
A Sangamani buscou seu apoio por respostas, e as cartas depois de uma longa e meditativa mistura, revelaram-se encabeçadas por uma trinca enigmática.
[10 de pentagramas - 3 de pentagramas - Carruagem]
Karak observava por cima e sabia, pela sintonia que tinham da caminhada, o que aquilo significava no nível fundamental, mas como Raila sobre o dom Harata, ele não tinha a longa tradição Sangamani para explicar os detalhes daquela sequência.
— Responsabilidade hein. — A Sangamani tentou ser casual. — Vamos agora no nosso próprio estilo. Melhor que ser pau mandado.
— Você não parece tão certa do nosso 'ciclo completo', querida. — Karak respondeu mais por seguir a conversa do que preocupado.
— Acho que estamos entrando em uma guerra, mas não pelos motivos corretos. — Raila respondeu preocupada. — Temos os meios, e temos a vontade, mas o que precisamos é uma rota de saída se não der certo.
— Você não conhece nossa gente. Estamos sendo muito bem pagos para fazer o que queríamos quando piratas, e nunca conseguimos. — Karak sorriu. — Enfrentar o Consórcio em sua autoridade.
— E da última vez isso não deu muito certo. 
— Não, nos deixamos levar pelos de fora. Agora essa é uma tripulação Harata, seja você, seja Lateral, e mesmo Carcará, somos todos Harata agora. — Karak riu-se.
— E o que isso significa, 'capitão' ? — A Sangamani disse cruzando os braços.
— Harata kela tarela. Harata apela tela. — Karak disse. — Harata não se segura, Harata sempre perdura.
— Isso não responde. — Raila disse empurrando Karak levemente.
— Responde. Não vamos enfrentar uma guerra 'de estrangeiros', vamos dançar uma dança que Garoana não sabe. — Karak piscou para Raila com um sorriso.
A viagem da Sutay ainda tinha mais dias antes de chegar ao local da operação, mas em outro lugar, desconhecido de muitos, havia uma reunião em progresso que iria mudar rumos naquela mesma missão.
Em uma outra embarcação, em algum lugar no Mar do Norte, dezenas de Harata entre 15 e 17 anos se reuniam, e chefiando a reunião estavam três adultos entre 30 e 35 anos. Suas idades precisas, suas identidades, nem eles mesmos sabiam, pois nomes e idades não eram importantes naquele grupo.
O homem mais velho sentado na cabeceira da mesa estava com uma mulher de idade próxima à sua direita, e um homem pouco mais novo a sua esquerda. Os jovens esperavam conversado baixo entre si ao redor da sala.
— Abrimos os procedimentos de hoje para responder à solicitações feitas para a casa. Representantes da Cabeça, nos oferecemos para mediar. 
Os três colocaram seus pontos pessoais sobre a mesa, destravando as várias entradas para pontos pessoais pela mesa.
— Confiança de Angaraya, apresente seu rebanho. — Disse o secretário à esquerda do chefe da mesa.
Um jovem sentou-se na primeira bancada interna da mesa. Seu serial conectado e o resultado colocado no painel mostrava o número 32.
— Cântaro Dourado Empreendimentos, apresente seu rebanho. — Seguiu o secretário.
Uma jovem sentou-se na segunda bancada, serial conectado, e o resultado era 26.
— Fundos de Investimento Luar, apresente seu rebanho.
Um jovem sentou-se na terceira bancada, e o resultado, 22.
— Sinergia Global, apresente seu rebanho.
Uma jovem sentou-se na quarta bancada, e o resultado foi 20.
A secretária à direita do chefe da mesa levantou-se.
— Aos comissários dos interesses menores, por favor tomem seus lugares na audiência.
O restante dos jovens se acomodou nas cadeiras distribuídas à frente das bancadas.
— Com a palavra, Confiança de Angaraya. — Disse a secretária.
— Iniciamos pela medida solicitada pela Cabeça, relativo à nossa obstrução da entrada de Rentaniel de Seldanar. Era uma medida cautelar. Não contingencial. Ela foi interrompida pelo grupo dos Fundos Luar, e queremos explicações.
— Cede a palavra para Luar. — Seguiu a Secretária.
— Fundos Luar invoca a prerrogativa já entrada à época para o Conselho. Trata-se de medida de segurança. A matéria é pertinente aos arrebanhados dos Fundos Luar e somente à eles, matéria interna.
— Considerações para Angaraya. — A Secretária declarou.
— Rentaniel de Seldanar estava fora do controle dos Fundos Luar e foi reintegrado forçosamente.
— A mesa delibera. — A Secretária declarou.
Os três mais velhos na sala conversavam entre eles, em tom baixo.
— Julgamento sumário é suficiente. A mesa entende que Rentaniel de Seldanar não tem valor individual para estar dentro ou fora deste ou daquele capital. A substância do processo está em arrebanhados dos Fundos Luar e seus interesses. Essa solicitação é fechada sem prejuízo. Matéria encerrada.
O secretário levantou-se.
— Assenta-se o julgamento. Disputa.
Mostrava o painel: 48 concordam, 32 discordam, 20 abstêm-se.
Silêncio fez-se por alguns minutos enquanto sincronização seguida pelos pontos pessoais.
— Próxima matéria. Fundos Luar define novo distrito junto à Jangunaray. Faça-se saber. — O secretário declarou.
— Pontos de ordem? — A secretária abriu.
O jovem representante de Angaraya levantou-se.
Quase imediatamente a representante de Sinergia levantou-se de costas à mesa principal.
Os outros representantes não se manifestaram.
— Sem suficiente quorum para ponto de ordem, a matéria passa por mera informação. — A secretária observou depois de alguns minutos.
— Com a palavra, a Confiança de Angaraya. — Disse a secretária.
— Move para liberação de abertura de distrito à revelia no Vale do Silício.
Os jovens na audiência se entreolharam.
— Pontos de ordem? — A secretária abriu.
O jovem representante de Luar se levantou. A jovem representante do Cântaro se levantou.
Depois de alguns segundos, a jovem representante da Sinergia se levantou.
O jovem de Luar colocou a mão direita no ombro esquerdo. A jovem do Cântaro repetiu o gesto.
— Com a palavra, Sinergia Global. — A secretária declarou.
— Matéria já declarada anteriormente. Não se abre distrito à revelia em terra, pois ele não pode ser movido em domínio. Foi decidido, não pode ser feito. — A jovem disse com tom fatos na mesa.
— Cede a palavra à Confiança de Angaraya. — A secretária declarou.
— O domínio pode ser movido para o Vale, da mesma forma que o domínio foi movido para Suyantara Leste.
A jovem do Cântaro retirou a mão do ombro.
— Considerações Cântaro Dourado Empreendimentos. — A secretária declarou.
— Não estava em Revelia. O distrito foi aberto por propriedade reconhecida da Fáscia no Oeste e de Jangunaray no Leste, dado previa e independente acreditação de soberania. A acreditação de soberania está fora do poder desta Cabeça, assim como a propriedade. Não exite autoridade que possa outorgar propriedade ou soberania sobre a terra conhecida como 'Vale do Silício'.
Os mais velhos deliberaram rapidamente em tom baixo.
— Assentamento vedado por matéria julgada. Essa solicitação é fechada sem prejuízo. Matéria encerrada.
O secretário levantou-se.
— Assenta-se o julgamento. Disputa.
Mostrava o painel: 68 concordam, 32 discordam.
O representante de Angaraya levantou-se com a mão esquerda no ombro direito.
— Ponto de ordem, Confiança de Angaraya.
— Esclarecimento. Não existe também uma autoridade reconhecida que possa outorgar propriedade ou soberania sobre a terra conhecida como Sangamá.
A representante da Sinergia Global levantou-se.
— Com a palavra, Sinergia Global. — A secretária declarou.
— A matéria não pode ser discutida nesse dispositivo. Ela é de reserva da Lâmina.
Os três mais velhos conversaram por algum tempo, consultando seus dispositivos, e demonstrando uma certa agitação.
— Reconhece o argumento este dispositivo. Matéria vetada. — Disse a secretária.
— Sem outras matérias, a reunião encerra-se.
O grupo dispersou pelo grande navio que estavam, voltando à atividades de recreação. Sua função concluída. Eles apenas recebiam textos e diretrizes para discutir, e nem mesmo quem entregava essas diretrizes sabia quem seriam os seus oradores. Era uma forma da Cabeça evitar falta de decoro e outros imprevistos durante discussões, e uma forma de colocar as crianças em contato com os processos de sua gente.
Aquela embarcação iria logo atracar em um porto, e o resultado da reunião seria sincronizado com os vários centros de inteligência Harata. Seria nesse momento que as coisas tomariam forma.