A lei do Beru

A Fáscia era como um lar para a família Harata de Valaravas. Eles já estavam longe de toda a política e urgência do Consórcio e do Grêmio, mas o mundo girava mesmo que eles estivessem parados. A Federação Erítria estava em uma guerra fria consigo mesmo. O alto comando estava entretendo as considerações filosóficas de cooperar ou dominar o mundo, enquanto o Zhefaq e o Khara estavam engajados em ações práticas para minar os esforços um do outro em cada caminho.
Com isso, conflitos que antes pareciam distantes agora se aproximavam, suas bordas se alastrando em direção ao Luar como tinta derramada sobre pergaminho. Valaravas vira o suficiente para saber que permanecer por muito tempo significava ser arrastado para eles.
Erítria era um campo de batalha fria, um que era melhor deixar para a Armada e para aqueles que prosperavam em seu caos. A equipe tomaria uma rota diferente, uma que os levaria através da vasta extensão do Planalto do Beru, onde nenhuma cidade governava, e a única lei era a escrita pelo movimento e a vontade dos nômades Beruanos.
O Beru era uma terra de movimento. As caravanas nunca descansavam no mesmo lugar por muito tempo, os yurts dos clãs Beruanos aparecendo e desaparecendo com os ventos mutáveis. A estepe não pertencia a nenhuma nação, e nenhum exército jamais a conquistara por muito tempo, não por falta de tentativa. Os Beruanos viam terra como algo público. A terra do Beru era vigiada, mas não possuída.
A organização social do Beru era a mesma desde o tempo primitivo. Clãs onde homens eram pais e maridos, donos de posses em rebanhos, tecnologia e informação tinham suas filhas como pontes de ligação política, e seus filhos como soldados e possível ponte diplomática.
Os Beruanos dominavam a tecnologia sem fio com maestria, e os céus com essa tecnologia. Enxames de drones protegiam seus céus, e ondas eletromagnéticas sua informação.
Há muito os povos de Ealetra haviam deixado o transporte aéreo de lado, pois era extremamente perigoso desafiar os muitos grupos que tinham armas e tecnologia para tornar um voo uma prática perigosa. Trens evoluíram para tomar esse espaço, sendo mais eficientes, podendo viajar a 600, 700km/h por vias protegidas, e territórios vigiados. Trens de carga, de passageiros, de guerra, de espionagem, as nações abandonaram os céus aos nômades.
Estes não adotaram os trens. Os trens para luar são Harata, mas passam pelo Beru somente porque Beruanos e Harata são sociedades próximas, as mais próximas de Ealetra. Acreditam os Acadêmicos que os Harata evoluíram de uma diáspora dos Beruanos antigos, tomando o mar como sua nação, dando origem aos primeiros Harata, conhecidos navegadores.
Há quem diga que foi o contrário, e os navegadores Harata de antes mesmo das águas recuarem se instalaram no Beru e tornaram-se os Beruanos antigos.
Uma coisa sim é certeza: Os Beruanos e os Harata dividem os maiores poderes em Ealetra. Os Harata tem o comércio e o dinheiro mais que qualquer outro, e os Beruanos tem a tecnologia mais avançada que qualquer outro. 
Juntos eles comandam a 'Razão Global', um sistema monetário e econômico que fornece a infraestrutura usada para o comércio e finanças de toda a Ealetra, e o sistema que torna possível os seriais e o pagamento mundial em UMGB, a Unidade Monetária Global.
Socialmente, os Beruanos eram senhores de sua cultura. Abertamente patriarcais, abertamente hostis com a maioria dos estrangeiros, somente alguns negociantes se aventuravam a ter contatos fora do Beru.
Chefes de Clãs como o Chefe dos Salahim, ele não esta esperado ter qualquer cortesia, fosse com uma general como Svetlana, ou com a Grande Mãe da Fáscia. Eram apenas os Harata, que eles não consideravam estrangeiros, que conseguiam interagir com o Beru normalmente.
Além da proteção dos nômades, a vasta caatinga não tinha regras. O que quer mais vagasse pelo Beru não se importava com nomes ou lealdades, apenas com o que podia tomar. O Beru era, afinal, em parte, o território dos Marata.
Selvagens e territoriais, entrar em território Marata era esperar bolas de rocha na cabeça ou ataques de algum tipo de animal selvagem. Nada mais.
Valaravas não havia preparado o time, como sempre, para as novidades do Beru, ou sobre os Marata. Em sua noção, era melhor vivenciar as coisas e tirar suas próprias conclusões. Ele é, no fim das contas, o Harata quintessencial, se isso existir.
A partida da equipe não teve alarde. Não houve despedidas formais, nem rituais prolongados de partida. Seus pertences que não fossem necessários permaneceram na Fáscia, guardados na casa segura, que passara de um refúgio a um ponto de apoio permanente na política da cidade. A jornada à frente não era um exílio, era uma empreitada temporária, um movimento no jogo maior, uma missão que terminaria onde começou. Mas Ariel sabia que não devia acreditar em certezas. Nada em Ealetra jamais permanecia verdadeiramente onde era deixado.
O carro escoltado pela guarda real chegou na fronteira leste da Fáscia, ao sul da fronteira com o Vale. Essa era mais civilizada. O muro da Fronteira era simplesmente uma marca onde terminava o domínio Urbani, e o vasto Beru se estendia.
Dali eles teriam que deixar o carro da Fáscia, e tomar parte em alguma das caravanas de um clã Beruano. 
Ali já perto Valaravas liderou o time para um veículo que não parecia em nada com o que estavam agora habituados na Fáscia. Era grosseiro, sem uma pintura, apenas o metal cru e denso sobre rodas feitas possivelmente para escalar paredes.
Ao lado do veículo, jovens Beruanos que eram obviamente irmãos escoltavam, em motos feitas para o mesmo tipo de terreno difícil. 
Eles não falariam com as mulheres do grupo, e não considerariam Erlan um homem, segundo sua própria cultura. Valaravas os cumprimentou com apertos de mão no antebraço. Era uma forma respeitosa para eles.
O veículo era auto guiado, e o time seguiu Valaravas para o interior.
Era espaçoso, confortável e em nada condizia com o exterior. Era forrado com peles e confortos. Havia água, chás e pequenos petiscos em compartimentos desenhados com motivos peculiares para o grupo. Não tinha uma estética que fosse similar à qualquer cultura que eles haviam visto, mas era, com certeza, um símbolo de status.
Ao contrário do caminho assombrado pelo Vale do Silício, esta rota estava viva. O vento carregava o cheiro de terra seca, nítido e metálico, misturando-se com o florescer de uma vegetação teimosa. A Caatinga, como os Beruanos a chamavam, era uma terra de contradições: uma região semiárida que parecia estéril à primeira vista, mas escondia uma riqueza de vida sob seus arbustos espinhosos e árvores retorcidas. O solo, rachado e argiloso, dava lugar a explosões de verde onde a vegetação se agarrava em direção ao sol. Pássaros com cantos ásperos dardejavam entre os galhos baixos, enquanto insetos, invisíveis, mas sempre presentes, zumbiam no ar, preenchendo o silêncio com uma corrente sonora incessante.
Mas a Caatinga não era um lugar de vida mansa. Até mesmo seus herbívoros eram feras a serem temidas. O planalto abrigava criaturas nunca vistas em outras partes de Ealetra: enormes herbívoros de couro grosso que podiam estripar um homem com uma única investida, serpentes cujo veneno matava em segundos, e insetos cuja picada podia levar uma pessoa a um delírio febril por dias. Não havia ilusão de segurança nesta terra; a sobrevivência era ditada pela compreensão de seus ritmos, sabendo quando se mover, quando se afastar e quando matar.
As crenças dos Beruanos eram baseadas nos espíritos da natureza, como os Sangamani, mas enquanto os Sangamani viam ancestrais como guias da natureza, os Beruanos viam a natureza como uma força implacável. Suas divindades e cultos eram sobre sacrifício, proteção, e cuidado. Misticismo modelado para proteger as pessoas dos perigos do Beru.
Ariel estava em silêncio, ajustando-se ao terreno desconhecido. A vastidão do planalto parecia enganosa, como se a própria terra estivesse observando. As colinas de dentes afiados que emolduravam o horizonte ofereciam pouca cobertura, a vegetação era esparsa demais para se esconder, mas ela tinha a nítida sensação de que algo sempre se movia além do alcance de sua visão.
Os Beruanos, por sua vez, pareciam à vontade. Drones acompanhavam o veículo maior, e os motociclistas do lado de fora andavam tranquilos, por vezes olhando seus dispositivos sem segurar os guidões de suas motos. As vezes apenas colocavam as mãos nos joelhos e olhavam a paisagem. Estavam completamente à vontade.
Os nômades eram ao mesmo tempo os mais avançados em tecnologia sem fio e navegação, mas também os que menos confiavam em automação.
O Beru não era feito para estrangeiros. Seu povo era adaptado ao seu clima há gerações passadas, muitas. Aos outros, não os recebia bem, não se curvava às suas necessidades como a maioria do mundo fazia. O frio de Erítria talvez fosse menos problemático para bioquímica exigente do que o calor e a secura do Beru era para seus sistemas digestivos e cardiovasculares.
Silvani era um povo adaptado as florestas úmidas e planaltos frios do nordeste de Purvatara. Carpata eram adaptados ao frio e às montanhas de Onachinia, e sua gordura compacta e massa muscular não lhes fazia nenhum favor ali.
Valaravas e Nandi por outro lado estavam completamente relaxados em meio à tudo aquilo. Nandi mais ainda, já que sua terra era ainda mais seca, e ainda mais quente do que o Beru. 
Erlan sofreu primeiro. Ele cerrou a mandíbula, seu passo firme, mas Ariel podia ver: a maneira como seus ombros enrijeciam, a maneira como sua respiração vinha mais aguda do que o normal. Ela também sentia, a exaustão lenta de simplesmente existir, a maneira como aquela terra pressionava sem levantar a mão. Ela não vacilaria. Não aqui, não onde a fraqueza a marcaria como uma forasteira em um mundo que já não tinha lugar para ela. Até mesmo o toque da pele de Valaravas parecia uma brasa deslizando por sua pele.
Nushala se saiu um pouco melhor. Os Urbani não foram feitos para a Caatinga, mas ao contrário de Tirayon, a Trifronteira, ou Onachinia, a Fáscia era quente, e o clima litorâneo não era tão permissivo. Apesar do frio das noites e dos invernos, a maior parte do ano era de sol e calor na Fáscia.
Nushala podia sentir a diferença, entretanto. A secura do Beru já a puxava pelas vias aéreas, secando seu nariz e o incomodo na respiração e ao engolir até a saliva.
Se Ariel e Erlan estivessem vestidos como na Fascia, teriam desmaiado em uma hora. O calor se agarrava a eles como uma segunda pele, infiltrando-se pelo tecido, acumulando-se em cada dobra, transformando suas próprias roupas em um peso que mal podiam suportar. Eles se despiram até o essencial para a modéstia necessária em terras como aquelas. Mas o pudor era uma preocupação distante quando a sobrevivência exigia concessões.
Mesmo Nushala, com sua resiliência Urbani, se desfez de camadas, sua túnica reduzida a uma veste sem mangas, seus braços nus ao vento. Ela se saiu melhor que os Silvani, seu corpo mais adequado ao ar seco, mas ainda carregava o fardo do calor de uma maneira que Valaravas e Nandi nem podiam entender.
Tarja por outro lado resistia com uma certa graça, mas até ela se ajustara, retirando as camadas mais grossas adequadas para o clima da Fáscia. Seu povo fora construído para o frio, seus corpos envoltos em camadas de gordura marrom espessa e isolante, modelados pela genética que os impedia de congelar nos longos invernos de Onachinia.
Aqui, esse mesmo dom a traía, aprisionando o calor contra sua pele, forçando-a a se mover mais devagar, e a hidratar-se com mais frequência. Ela estava quase no mesmo nível de incomodo que os outros incomodados estavam.
Ao chegarem ao Beru propriamente dito, depois de uma pequena subida vindos da Fáscia, eles deixaram o veículo de transporte para entrar na comitiva do Clã Salahim.
Preparados que estavam, seus veículos eram massivos e ventilados, utilizando massivas baterias de Carbóleo e um sistema que aproveitava turbinas de motor para circular ar na cabine, e os compressores que reciclavam o calor tornado o ar mais fresco. Eram outro nível de conforto.
Ariel, Erlan, Tarja e Nushala ao entrar refestelaram-se nos cantos mais refrigerados do veículo, desmoronando em alívio.
Valaravas e Nandi riam alto com os Beruanos enquanto preparavam para a longa viagem que os esperava.
Quando finalmente tudo estava preparado, iriam dividir-se segundo a cultura dos nômades, que ditava as regras de quem estaria em que parte da caravana.
Valaravas chamou Ariel, mas quando os outros se preparavam para seguir, Nandi sinalizou para que ficassem.
Eles iriam seguir naquele veículo, mas Valaravas e Ariel estavam indo para o veículo ainda mais longo, e pelos compressores e maior número de baterias, devia ser mais excessivo em seus poderes. Era 'carro chefe' literalmente. Nele iriam os membros mais importantes do clã. Os homens da família Salahim, e cada um com sua principal concubina, o que incomodaria Ariel em outros tempos, mas agora, ela entendia perfeitamente as vantagens da situação. Ao perceber a conotação da divisão, ela imediatamente se recolheu em uma posição submissa e despreocupada, pendurando-se na figura de Valaravas, exatamente como a bonequinha que fora acusada de ser em outros tempos.
Dentro dos limites refrigerados e luxuosos do veículo estavam já preparados todos os confortos possíveis e ainda um conjunto de jovens Beruanas cuidando da manutenção geral, enquanto as concubinas de cada um dos Salahim cuidavam de seu conforto individual, arrumando seus assentos, e buscando seus aperitivos e dispositivos que estavam em suas docas no painel.
Valaravas sentou-se com a naturalidade de alguém intocado pelo desconforto, sua postura relaxada, uma pequena taça de metal equilibrada sem esforço entre seus dedos. Fios de vapor subiam, envolvendo-o em seu calor fragrante, as especiarias em camadas rodopiantes, revigorantes, inconfundíveis. Ao seu lado, Ariel se recuperava do desconforto do calor da viagem anterior, mas assombrava-se com o Harata e os Beruanos tomando chá apimentado quente naquela terra impiedosa.
Ariel, com o suor grudado teimosamente em sua pele, estreitou os olhos.
— Chá quente? Nesse calor?
— Refresca o corpo. Em Erítria e na Trifronteira não bebem limonada com sal em temperatura ambiente para se refrescar nos dias quentes? — Valaravas disse tomando um gole lento.
Ariel olhou para a bebida. O aroma enchia o espaço confinado, rico e picante, quente e estranhamente reconfortante. Ela já podia sentir o calor irradiando de Valaravas, o calor de sua pele um contraste contra o ar seco ao redor deles. Ela não tinha certeza se confiava na lógica, mas a promessa de alívio era tentadora.
Valaravas percebeu sua hesitação, estendendo sua taça em direção a ela.
— É uma experiência. — Valaravas riu-se.
Ela exalou, pegando-a. Se não mais, ela poderia provar que ele estava errado.
O veículo começou a mover-se lentamente. As janelas escurecidas por filme polarizado ajudando a manter a luz e o calor do sol distantes. O solavanco suave fez Ariel deter-se em experimentar a bebida.
— Metakoni. Vastaki Oasi. Ereosemas. — Uma voz veio pelo sistema de som do veículo.
Vozes Beruanas começaram a trocar palavras e rir, e logo Valaravas também participava da conversa.
Ariel olhou para ele por cima da borda da taça.
Eram palavras muito familiares e ao mesmo tempo não, para Ariel. Ela quase conseguia fazer sentido, mas não.
— Você fala Beruano, Val? — Ela perguntou retoricamente.
— Logo você entende. É como Onatri. Foram eles que inventaram a língua Onatri e deram à Erítria e Onachinia, há milênios. — Valaravas disse sabendo o resultado.
A mente de Ariel agora funcionava em outro nível. Ela começou a traçar as linhas invisíveis entre o que o Onatri dizia, e as palavras que ouvia. Em pouco tempo o léxico começava a montar-se. Era o mesmo idioma na base, apenas a pronúncia, e o vocabulário diferia. Sua mente começava a traçar linhas lógicas.
Valaravas começou a fazer certos maneirismos discretos, ajudando-a a criar um conjunto de entendimento fácil. Mas ela sabia não dar a entender que sabia o que diziam. Isso, também em sua mente analítica, iria provar-se útil ainda.
Erlan e Tarja estavam com Nandi e Nushala no outro veículo, sua viagem menos cheia de luxos, mas melhor do que a primeira viagem. Tarja estava aproveitando a ventilação e os assentos confortáveis. 
— Os Beruanos são tribais, à seu modo. Eles consideram Valaravas o chefe desse 'clã' e Ariel sua principal concubina. — Nushala disse.
— Eles poderiam falar a língua comum, ou pelo menos Onatri. — Erlan resmungou.
A garota Beruana que estava ali atendendo à eles ofereceu o chá, o mesmo quente e apimentado que Valaravas estava tomando lá no outro carro.
Nandi o pegou como se soubesse exatamente o que era, e bebeu como beberia qualquer outra bebida, como se o clima do Beru fosse a brisa fresca da Fáscia.
Tarja tomou a pequena xícara, mas foi apenas pela insistência de Nandi que ela deu um gole, forçando-se a mascarar a reação instintiva.
O sabor a atingiu instantaneamente, um golpe forte, apimentado, ligeiramente amargo com a picada aguda do gengibre que queimava antes de acalmar. Não a refrescou, não exatamente, mas à medida que o calor se espalhava por seu peito, o calor lá fora parecia menos opressivo. Uma mudança, sutil, mas inegável. Os pequenos riachos de suor em seu corpo pareciam mais frios agora, aliviando contra sua pele em vez de queimar.
Erlan e Nushala tiveram uma surpresa mais interessante do que Tarja. Porque eram esguios com uma gordura corporal baixa, o calor pulsava pelo corpo e sentiam o alívio maior com a ventilação do veículo. Enquanto o corpo de Tarja combatia o frescor da ventilação, o deles o aumentava.
Suas sensações ficaram mais claras, e mais rápidas. Erlan não estava certo como exatamente isso o afetava, mas a sensação era renovadora. Não era o suficiente para neutralizar a sensação ruim de estar naquele clima, mas tornava a coisa toda suportável.
Nushala, como Urbani, entendia que os antioxidantes e outras substâncias no chá ajudavam o processo, além do calor. Eles faziam o corpo ignorar sua natureza e deter o próprio sistema de geração de calor ali era desnecessário.
No outro carro, Ariel agora com seu novo eu, entendia como o chá funcionava pela reação do corpo, sem conhecer exatamente as particularidades. Ela olhou para Valaravas, um sorriso suave puxando seus lábios. Sem hesitar, ela se moveu, acomodando-se em seu abraço como todas as Beruanas faziam com seus homens.
A viagem seguiu por algumas horas, a velocidade nem tanto quanto a velocidade dos trens, mas o conforto muito maior.
Antes mesmo de saírem, os veículos já se preparavam para montar um acampamento como uma vila, onde os carros serviriam como alojamento, e os motociclistas já montavam um perímetro.
Similar aos cães do mar, os Beruanos tinham os carcarás, drones que prendiam-se em poleiros montados e vigiavam os arredores como câmeras de segurança.
Os jovens guerreiros em suas motocicletas já arrumavam tudo, enquanto os homens mais velhos e Valaravas se acomodavam no canto norte da área.
Os outros veículos se dispunham ao Sul.
As mulheres Beruanas mais velhas começaram o processo assim que os veículos se assentaram em seus apoios. De suas laterais, caixas metálicas foram distribuídas por pontos ao redor do Oasis, e delas as estruturas de metal montaram-se imponentes, e depois de cobertas com os tecidos em tons vibrantes e adornados com estandartes esvoaçantes, tornavam-se o coração do acampamento, formando uma barreira protetora contra os ventos mutáveis do planalto. Dentro de seus limites, a vida prosperava.
No centro, lago brilhava como uma joia escondida, sua superfície calma, mas a água era profunda, anormalmente clara. Os Beruanos o moldaram, uma longa vala cavada em sua borda, retirando água dos reservatórios mais frios sob a terra. Um feito de sobrevivência, uma reivindicação tácita sobre a terra. O cheiro de fogueiras e carne assada pairava no ar, misturando-se com o toque forte e terroso do chá e o cheiro distinto de atrito metal, os drones de terra, como cães de caça, iniciando sua ronda em volta do acampamento, preparados para qualquer ameaça que seja atraída pela atividade.
Dentro do círculo, as mulheres se moviam em coordenação rítmica, circulando entre os Yurts formados pelas estruturas cobertas de tecido enquanto cuidavam da comida e das crianças. As mais jovens, meninas mal saídas da adolescência, usavam túnicas finamente bordadas, seus cabelos bem cuidados, longos e cuidadosamente trançados. Nenhuma joia as adornava, nenhuma maquiagem elaborada, mas sua graça era seu próprio ornamento. No coração do acampamento, um grupo delas dançava, o riso levado pelo vento. Não era uma apresentação, não uma exibição, mas algo mais tradicional, e algo para elas, para seu povo.
Do outro lado do círculo, os homens se reuniam separadamente, sentados em pequenos grupos, reclinados em almofadas grossas, bebendo livremente de taças de latão cheias de leite fermentado e licor forte. Suas vozes se erguiam em conversas profundas e retumbantes, o riso pontuando suas palavras.
Rodeando a todos, lanceiros Beruanos patrulhavam as bordas do acampamento, suas lanças altas brilhando sob a luz que se desvanecia. Eles eram maiores que os Harata, mais largos de ombros, suas estruturas robustas com a força de homens que passavam a vida sob o sol. Não tão grandes quanto os Onatra, mas mais imponentes em presença, inabaláveis, imóveis. As motos que usavam para acompanhar o comboio ali, preparadas para qualquer necessidade.
Em destaque entre os homens mais velhos estava o patriarca Salahim, um homem muito bem vestido em sedas de azul profundo, coberto de ouro. Anéis adornavam cada dedo, pesados de riqueza, e em cada orelha, dois brincos de ouro grossos brilhavam. Nos dedos, pulso e pescoço, mais joias do que até mesmo Valaravas usava.
Os olhos de todos eles estavam em Valaravas. Agora era o momento de saudações elaboradas e conversa fiada. Era uma prévia das festividades que dirigiam-se no centro do Beru, e estavam ali para festejar, o que também não impede que negócios sejam feitos, tratos reforçados e favores lembrados.
Um murmúrio de reconhecimento percorreu os homens ali completamente senhores do espaço que ocupavam, seguido por murmúrios de aprovação, de expectativa.
— Valaravas, o tempo tem sido generoso. Mas o Beru agradece seu retorno. — Disse um dos patriarcas ali.
Ele abriu os braços em boas-vindas, seu olhar varrendo a companhia reunida antes de pousar, inconfundivelmente, em Ariel.
— Vejo que está ousado, domando uma das selvagens. É um belo prêmio, digno de inveja, caro amigo.
Ariel não se irritou. Não recuou, não lutou contra as palavras. Em vez disso, ela sorriu. Ela não se importava com o que exatamente estava dizendo, mas um homem de vasto poder que não é desafiado fala além das palavras quando quer dizer algo.
Ela virou a cabeça ligeiramente, permitindo que o brilho da fogueira capturasse a linha suave de sua garganta, o brilho agudo em seu olhar. E então, como para confirmar as percebidas palavras do patriarca, ela se moveu, acomodando-se ao lado de Valaravas, permitindo que o peso da presença dele emoldurasse a sua.
O patriarca sorriu, impressionado. Não só a selvagem do Harata era esteticamente agradável e exótica, como ela sabia seu lugar e como fazer seu homem parecer ousado e poderoso.
— Sorte favorece os bravos caro amigo. — Valaravas ofereceu um brinde no ar.
Ariel entendia este jogo agora. Aprendera na Fáscia, na maneira como Rentaniel a descartara até ela estar sobre ele, vitoriosa. Aprendera na maneira como Nushala uma vez a considerara algo ornamental, até que não era mais.
Eles veriam uma selvagem. E isso significava que nunca importaria. Falariam livremente.
O patriarca soltou uma risada baixa, claramente entretido.
— Sim, a sorte favorece os bravos. — O patriarca respondeu o brinde.
Ao seu lado, Valaravas exalou uma risada silenciosa, o mais leve movimento de seu peito. Sua mão se ergueu, os dedos roçando distraidamente o rosto de Ariel, um gesto de posse, mas mais do que isso, uma aprovação silenciosa, um entendimento sem palavras.
Ariel desempenhou seu papel perfeitamente.
Nushala, que em linha de vista para eles, observou.
Por um momento, ela sentiu a ferroada do tom do Beruano. Não por si mesma, mas pelas implicações. Ela sentiu subir, aquela pequena e aguda indignação, aquela sensação de ser reduzida a algo menor. Ela esperava tensão, ou desafio, ou pelo menos algum traço de irritação sob a superfície calma da expressão de Ariel. Em vez disso, ela se inclinou para a expectativa, dobrou-se nela como seda, como se estivesse entrando em um papel que já ensaiara.
E, pela primeira vez, Nushala se questionou. Seu dom do conhecimento nublado pela emoção, até que não, e ela se perguntava se era fraqueza aceitar ser subestimada, ou era algo totalmente diferente?
Ela vira as vitórias de Ariel, vira-a navegar na política da Fáscia com a mesma precisão silenciosa. Ela não fizera isso antes? Não era isso, à sua maneira, um poder maior que o orgulho?
Seu olhar se desviou para Tarja, demorando-se por um momento.
O patriarca Beruano bateu as mãos, divertido e ruidoso, com a combinação estranha de Tarja e Erlan.
— E você. Mulher das Montanhas. Na sua terra são as mulheres que domam é? Mas ele é muito magrinho. Você precisa de um grande, guerreiro. — O patriarca disse gesticulando para os lanceiros Beruanos ao longe.
— Gosto deles ágeis. Eles tem 'todo esse terreno' para cobrir. — Tarja disse gesticulando para si mesma.
O patriarca soltou uma gargalhada, e os homens perto dele se juntaram, a tensão se quebrando como uma pedra rachada.
Erlan resmungou algo baixo, cruzando os braços, mas seu sorriso de lado traiu seu divertimento.
Ariel olhou para ele, falando sem voz em Silvani: [Todo esse território, hein.]
Tarja lançou-lhe um olhar. Ela se postou como se mostrasse sua figura em sutis tons de sedução.
Erlan suspirou dramaticamente, olhando suavemente para o corpo de Tarja.
— Todo esse território de fato. — Ele riu.
— Mais tarde, explorando, hein, garotão! — Tarja sorriu de lado.
Risadas ondularam entre eles, aliviando o ar. Um patriarca, observando a troca, assentiu com aprovação.
— Seu clã é feliz, Valaravas. Você comanda bem sua gente.
— Eles gostam da tradição Harata. A nossa é como a sua. Somos sangue verdeiro, sem falsidade. Trazemos da honra. — Valaravas disse gesticulando como os Beruanos.
A essa altura, eles já haviam pegado o ritmo: os homens Beruanos falam muito, riem alto e falam de poder. As mulheres cuidam da casa e, como os Harata, os filhos são criados por aqueles que se dedicam a isso.
Os jovens adultos homens são guerreiros, e as jovens adultas estão por perto aprendendo a cuidar da casa, da família. Está longe da cultura da cidade, de famílias pequenas e leis. Os Beruanos, estranhamente semelhantes aos Harata, baseavam-se no poder e em conceitos complexos de família que transcendiam o sangue ou rituais formais como os das nações do norte.
Além da brincadeira, o olhar de Ariel se voltou para o oásis, a água refletindo a luz do fogo do acampamento. Um pequeno momento de paz, de estabilidade em uma terra onde nada ficava parado. E, no entanto, ela não conseguia afastar a sensação de que o Beru apenas começara a testá-los.
Enquanto o sol mergulhava sob o horizonte, o acampamento se agitou com energia renovada. A jornada do dia terminara, e o oásis, com suas águas cintilantes, tornou-se o coração da reunião. Era uma noite de celebração. Não para eles, não para forasteiros, mas para os próprios Beruanos. Uma jornada concluída significava um motivo para festejar. Uma refeição compartilhada entre o clã, uma noite onde as risadas se erguiam mais alto, onde a bebida fluía mais livremente, onde a aspereza do planalto dava lugar a algo mais leve, algo que se assemelhava à alegria.
A dança retornara, mas desta vez não eram apenas as jovens mulheres girando entre as fogueiras. Os homens se juntaram, braços erguidos, pés se movendo em ritmo constante, uma demonstração de orgulho, de fisicalidade, de presença. Não era para entreter, era um ritual de seu próprio pertencimento. Valaravas, como era de se esperar, fora puxado para o círculo dos homens. Ele não era um forasteiro aqui. Por todos os anos que passara longe, seu lugar não fora esquecido.
E, claro, os Beruanos nunca foram tímidos em fazer observações.
Uma jovem se aproximou dele, balançando em seu espaço com uma confiança que não era nem hesitante nem tímida. Ela tinha os olhos castanhos profundos do Beru, seus cabelos soltos, grossos, tecidos com fios de ouro. As pontas de seus dedos roçaram seu braço, uma sugestão, um convite. Mas Valaravas apenas sorriu, inclinando a cabeça ligeiramente em recusa educada.
Os homens mais velhos, observando de seu lugar junto ao fogo, notaram, e risadas se ergueram entre eles. Um deles, um homem que claramente conhecera Valaravas antes, ergueu a mão com anéis de ouro, balançando a cabeça com um suspiro divertido.
— Ele gosta das estrangeiras selvagens. Não é mesmo, Harata? 
Mais alguns se juntaram, rindo com vontade. Outro ergueu sua taça.
— A nova pelo menos sabe como manter seu homem satisfeito. A outra, a de cabelo escuro — ele gesticulou vagamente no ar — ela era muito dura. Rebelde. Menos fogo, mais tempestade.
Ele sorriu para Ariel, assentindo com aprovação.
Outro seguiu falando.
— Essa não! Ela entende. Ela se faz desejada. Fogo, pimenta e mel.
Ariel, que estava saboreando sua segunda taça de chá, mal ergueu uma sobrancelha. Em vez disso, ela exalou lentamente, ajustando delicadamente sua postura, permitindo-se afundar ao lado de Valaravas mais uma vez. Ela deixou seus dedos roçarem distraidamente o pulso dele, um gesto que parecia inconsciente, distraído, mas era tudo menos isso.
Os homens mais velhos sorriram com a confirmação.
Tarja, observando de lado, sorriu maliciosamente.
— A outra hein. Você tem um tipo. Fazendo fama com os nômades. Acho que é mesmo um patife sedutor. — Tarja riu-se lembrando de sua primeira conversa com Valaravas.
— Homens refinados não tem restrições, tem gostos refinados. — Valaravas disse sorrindo.
Os homens Beruanos se ergueram em um brinde. Essas palavras falavam à tradição de comércio e a seus clãs baseados nos poderosos príncipes mercadores que seus clãs selecionavam, tanto na sobrevivência quanto aos olhos das mulheres.
A risada de Tarja foi alta e sem remorso.
Ela olhou para Erlan como os homens olhavam para suas concubinas, esperando sua reação.
— É verdade. Agora que penso bem ... — Tarja disse sem pudores.
Erlan repetiu a posição de sua irmã, zombando desajeitadamente, como um servo de Tarja. Ele não conseguiu segurar a risada, nem Tarja.
Ela estava especialmente atrevida naquela noite, pois não era tímida com as bebidas fermentadas e destiladas. Ela não era Onatra.
Os Beruanos consideravam Tarja mais para o lado do estereótipo masculino do que do feminino. Uma peculiaridade dos povos das montanhas que não era estranha ou preconceituosa, apenas divertida.
Mas Nushala parara de ouvir o ambiente ao seu redor.
A conversa já lhe dera a resposta que ela não percebera que estava procurando.
Eles estavam falando de Ayla. A que viera antes de Ariel. A de quem não falavam bem.
Ayla fora dele, mas não de uma maneira que os Beruanos tivessem aceitado. Ela resistia demais. Ela desafiava quando deveria ter jogado o jogo. E por causa disso, por não tê-lo representado bem o suficiente, por não lhes ter dado a ilusão de respeito que eles exigiam para confiar nele plenamente, ela fora inútil para eles. Não apenas como pessoa, mas como conceito.
E se eles não a respeitavam, então não a protegeriam.
Ariel, em contraste, lhes dera algo para admirar. Nushala observou enquanto os homens Beruanos a reconheciam sem condescendência, apenas com aprovação. Porque Ariel lhes dera a imagem que eles queriam ver. Através desse comportamento, ela canalizou a consideração deles por Valaravas para si mesma.
Se ela tivesse sido muito resistente, muito rebelde, eles a teriam deixado sofrer as consequências de ser indesejada.
Pela primeira vez, Nushala entendeu a essência daquela cultura Harata da qual seu povo era tão próximo e tão distante ao mesmo tempo.
Controle. Algo facilmente tirado de seu pai, quando ela foi tirada dele. Foi porque ele nunca o teve em primeiro lugar. Nushala, ela era de Valaravas porque Ayla assim o quis, e seu pai apenas pensava que controlava.
Onde estava seu pai agora? A resposta curta era que na verdade, ele estava bem ali na frente dela: Valaravas.