A Fáscia de Seldanar

Mesmo certos de que não haviam mais dissidentes ali, o grupo seguiu na formação, indo sob a liderança de Valaravas para o lado Leste da mesa rochosa. Ela aparentemente sabia para onde estava indo, apesar de poucas consultas ao seu ponto pessoal
O grupo esperava uma descida como a subida, uma operação tática, um desafio. Mas ao invés, encontraram outra coisa.
Erlan e Ariel pensaram estar já além das surpresas, mas havia ainda muito o que aprender ao que parecia. 
Uma parede alta de concreto armado sobre algo como pedras colossais colocadas umas sobre as outras assomava à frente, como uma barreira intransponível por quase toda a face leste, deixando apenas um penhasco de altura nauseante no sul.
Seguindo eles conseguiram avistas o que chamou a atenção de Tarja primeiro. Baluartes guardavam um portal no muro, em pequenos espaços reservados, eles estavam ali, imponentes. 
Eles não eram Onatra, tinham uma constituição diferente, mas estavam igualmente com uma armadura de metal azulado, e carregavam armas que Ariel não podia identificar sem receio. Eram espingardas de carregamento tubular independente para cada uma das suas bocas, e bomba de pressão fazendo o carregar e o recarregar fluído e eficiente. O coice era incrível, mas eles eram Baluartes. Isso não era um problema. 
Suas armas auxiliares era revólveres .450 com ação contínua e feitos inteiramente de metal e uma massa rochosa com resíduo de carbóleo. Eram pesadas, justificando o nome de 'canhão portátil', e poderiam parar um veículo se empregadas com habilidade.
Ao se aproximarem dos portais, não houve nenhum questionamento. As portas internas dentro dos portais se abriram para a passagem do grupo, e nem mesmo notava-se qualquer reação dos baluartes. Cameras e sensores podiam ser vistos ao redor, mas sem nenhuma reação aparente.
Um elevador similar ao do Verme, porém mais simples os esperava. Sua visão da descida era aberta, e eles podiam ver já o esplendor da falésia que abrigava a nação da Fáscia de Seldanar, lá de cima. Conforme desciam, ela ia crescendo, até não poder ser vista completamente, e cada vez maior.
Erlan e Ariel estavam mesmerizados pela dimensão daquilo. A falésia que abrigava a Fáscia era enorme, e no entanto havia um portal, de uma altura incompreensível para eles, tão grande quanto as paredes do Khara, que se interpunha com colunas e canhões de Ynis direcionados a entrada do Mar dentro do recôncavo que abrigava a cidade.
Castelos em sua parte superior e a cidade com estilo Harata nas camadas mais baixas, tudo colorido, artístico e vibrante. Era uma mistura do clássico e do novo. E eles já viam dali que haviam os grandes mercados que os Harata tem em todos os lugares onde habitam.
Valaravas e Tarja, mais uma vez, como que seguindo uma rotina conhecida, nem sequer observavam a paisagem. Tarja, Ariel e Erlan estavam hipnotizados pela novidade. Era algo fora de qualquer memória ou expectativa, mesmo para Tarja.
Eles sabiam em teoria que a Fáscia era um Estado autoritário deliberado, criado e governado pela filha mais nova de Elarin, a Grande Mãe da Casa de Seldanar, pelos seus 500 anos de existência, e atualmente a Fáscia seguida uma só autoridade, Grande Mãe Audren de Seldanar.
Ao chegarem ao fim da descida do elevador, ainda estavam acima do nível da Fáscia, bem mais alto do que a entrada. Os postos de segurança ali eram fortemente armados e parecia que nem mesmo havia outra segurança já lá em cima. Aqui eram carros blindados pesados, tanques, e baluartes. Como uma versão Urbani de uma base militar Onatra. A diferença era que elegantes acadêmicos e políticos, assim como outras figuras, algumas elegantemente vestidas, quase sensuais em sua apresentação, permeavam o espaço.
Construções feitas para o prazer da visão, e confortos que nenhuma base em Erítria pensaria em desperdiçar.
Um elegante carro como aqueles que Ariel e Erlan viam passar em direção ao cântaro quando ainda estavam na Trifronteira eram vistos ali, sem nenhuma reserva. Um deles, um todo terreno azul escuro com o brasão de Seldanar nas cores claras e traços mais leves da Fáscia se aproximou deles. 
Valaravas sinalizou para pararem.
O carro, seguido de outro, parou bem próximo, e de dentro, os guardas reais saíram dos bancos da frente.
Nandi partiu para o carro da frente cuja porta traseira se abriu, e com um sorriso entrou.
— Esse — disse Valaravas apontando o segundo carro — é para vocês. Eu sei que tem perguntas, e teremos muito tempo, por hora, aproveitem. A viagem é maravilhosa.
Tarja apontou para suas roupas castigadas e corpos não exatamente limpos.
— Relaxem. Pouco os importa. — Valaravas sorriu.
Valaravas abriu a porta do segundo carro para que entrassem. Dentro bancos confortáveis cobertos com finos tecidos e um cheio de essências os esperava. Quando entraram, Valaravas fechou a porta suavemente e entrou no carro da frente.
Depois de tudo certo, suas coisas guardadas em ainda um terceiro carro de carga que os seguia, eles rumaram para a ladeira que descia até a área metropolitana de Magdalagur, algumas horas de viagem dali.
Eles poderiam ter falado, poderiam ter exigido respostas, mas a pura surrealidade do momento os deixou em silêncio. Fosse a familiaridade inesperada da conversa, a inquietante facilidade com que Valaravas a conduziu, ou a sensação inabalável de que acabavam de entrar em uma narrativa que ainda não entendiam, quaisquer que fossem suas dúvidas, teriam que esperar.
O banco dentro do carro era amplo o suficiente para que eles se acomodassem os três, mesmo o corpo generoso de Tarja. Alto, ele oferecia amplo espaço para observação, e estavam isolados dos condutores por painéis, o silêncio dos motores de Carbóleo completava o que era uma viagem como deslizar pelas nuvens.
Algum balanço ainda era sentido. Estavam em uma parte muito afastada.
A paisagem da ladeira que era central ao formato de V da falésia permitia que fossem vendo a cidade dividindo-se abaixo através das janelas laterais.
Conforme entravam dentro do que parecia uma redoma invisível da Fáscia, perceberam que o carro simplesmente parou de parecer estar viajando em uma estrada, e era como se fosse um trem.
O carro em si começou a acelerar para uma velocidade muito além da que estavam até aquele momento.
Nada tinham a fazer até que ele parasse a não ser admirar a paisagem. Era realmente uma paisagem maravilhosa como Valaravas dizia. A nação era um misto de tecnologia e conservação do passado.
Agora podiam ver diversos aspectos da cidade com clareza. Parques, comércios, prédios, e ruas cortando cirurgicamente os espaços com eficiência sem perder o charme de uma cidade antiga. Era como se fosse um encontro entre a eficiência de Erítria, o charme clássico de Magenta, com o que poderiam entender seriam as construções colossais das cidades Urbani.
Apesar de não serem Urbani, Ariel e Erlan entendiam que a reação de Nandi a quem quer que fosse dentro do carro não era o tipo de coisa que encontrariam em terras Urbani, não como as conheciam.
Eles passaram por vilas e cidades pequenas até entrar no portal que indicava a entrada em Magdalagur. A capital era única mesmo entre o que já haviam visto. Majestosa, e construída como uma expressão, mas não como o Khara ou Zhefaq, era uma expressão de que quem quer que entrasse ali, estava entrando em um lugar seguro e preparado para abrigar, para proteger, para amar.
Ao passarem, o carro que estava com seus pertences deu uma estirada e sumiu à frente em uma pista onde outros carros de carga assumiam velocidades absurdas para os três novos visitantes.
A arquitetura era diferente de tudo o que já tinham visto. Desafiava a classificação. Nem Silvani, nem Urbani, nem Onatra, nem Harata, mas continha elementos de todos os três, e nenhum, ao mesmo tempo.
A arquitetura Urbani era conhecida por seus elegantes arcos curvos e detalhes intrincados em metal e pedra. Os projetos Onatra eram estruturas robustas, de concreto, angulares, construídas para resistir ao tempo e aos elementos. Os Harata favoreciam geometrias complexas, cores radiantes e silhuetas simétricas, uma celebração da complexidade em suas formas.
Aqui, no entanto, a arquitetura da cidade parecia misturar todas essas influências, mas ainda mantinha sua própria identidade distinta. Edifícios robustos e maciços formavam curvas angulares, adornados com trabalhos em metal. Tetos salientes eram sustentados por estruturas intrincadas de metal e madeira, enquanto acabamentos em gesso incorporavam padrões artísticos projetados não apenas para agradar aos olhos, mas para lançar sombras hipnotizantes quando iluminados. Era uma arquitetura que não apenas funcionava, mas atuava, criando uma atmosfera viva e vibrante.
Nenhum dos visitantes de primeira viagem jamais vira algo parecido em outro lugar. A cidade em que estavam entrando parecia poder rivalizar com os reinos divinos mencionados nas histórias dos mercadores na Trifronteira e na Panificadora de Onachinia, que os Silvani e Tarja sempre julgaram ser muito grandiosas para ser verdade.
Ao adentrarem mais na Fáscia e aproximarem-se do litoral onde grandes Castelos modernizados pela tecnologia se impunham no horizonte, o que eles viam não era o tipo de riqueza conhecida nos mercados dos Barões de Luar ou a opulência do Bazar Harata da Trifronteira. Isso riqueza que não fala de dinheiro, mas de majestade, riquezas não corrompidas pelo tempo, mas preservadas em um esplendor há muito perdido tanto para os Silvani quanto para os Carpata.
A Fáscia se julgava isolada do mundo, e por isso suas construções eram feitas como se a guerra nunca pudesse os alcançar, e aquele patrimônio seria eterno. O que há cinco séculos parecia realmente ser verdade.
Eles se viram parando em frente a um edifício, não do estilo mais impressionante, mas longe de ser comum. Tinha um ar de significado silencioso, seu design sutilmente distinto das estruturas vizinhas.
O guarda real ao lado do motorista saiu pelo lado direito, abrindo a porta para que eles três saíssem, o que demorou alguns segundos de intervalo para processar onde chegavam e o que fariam ali.
Ao saírem eles observaram Valaravas e Nandi saírem do carro mais à frente, acenando sorridentes para seus ocupantes, antes de caminharem vagarosamente para junto do resto do time.
O passeio ladeado por jardins podados em formas artísticas ia até uma casa de construção impecável, e parecia ter sido renovada recentemente.
Valaravas ainda teve que acenar para que o seguissem, mesmerizados que os outros estavam com a realidade daquilo tudo.
À distância, além das sebes artesanais e do caminho pavimentado de pedra, um imponente castelo de veraneio se erguia no final da estrada, sua presença uma amostra mais simples do que os outros castelos pareciam ser, lá na distância.
— Vamos entrar, e conversar lá dentro. O sol da Fáscia é deslumbrante, mas também é quente para essa hora do dia nessa época. Sim? — Valaravas disse com um certo divertimento.
Chegando dentro do sólido edifício, um lugar que parecia uma vila inteira dentro de muralhas, mas que estava estranhamente vazio.
Sua grande entrada se abria para um interior espaçoso, flanqueado em ambos os lados por uma sala de jantar. Nos fundos, quatro escritórios distintos estavam organizadas e sua presença sugeria que aquilo era mais do que apenas um lugar de descanso. No topo, um mezanino se abria para o espaço, ladeado por quatro quartos com portas trabalhadas artisticamente de cada lado, e um espaço com poltronas e enfeitas mais ao fundo, observando a porta de entrada de cima.
Ele era diferente do que já haviam visto do Grêmio. Esse parecia mais uma casa com salas improvisadas em utilidade tática. Havia dispositivos que os recém-chegados nunca haviam visto.
A estrutura era robusta, as paredes adornadas com quadrados de gesso pintados em padrões geométricos. Alguns apresentavam motivos pintados à mão, referências sutis, mas inconfundíveis, ao simbolismo Harata: Luas crescentes, lâminas curvas e estrelas.
Um aroma distinto pairava no ar, a mistura inconfundível de incenso de ervas Harata. Era uma prática compartilhada por ambas as culturas, Harata e Urbani, uma forma de infundir as próprias paredes de um lugar com um aroma característico, um aroma destinado a evocar memória, a enraizar um espaço na tradição.
Para os Silvani, no entanto, era completamente estranho. Mas para Valaravas? Era familiar. Muito familiar.
O silêncio frio durou um longo tempo. O edifício era novidade demais para os que, recém-chegados, procurassem uma exploração curiosa.
Apesar de sua estrutura acolhedora, com seu grande salão comum, seus tetos altos e abobadados e sua simetria precisa influenciada pela arquitetura Harata, o lugar parecia vazio de uma forma que deixava claro que os esperava.
Estava abastecido com acessórios e suprimentos. As velas eram novas, o lugar estava limpo. Suas coisas estavam entregues com a propriedade quem teria acesso e conhecimento do lugar.
Ao entrarem, Nandi primeiro passou por Valaravas com seu andar charmoso de sempre, seus cabelos cacheados roçando levemente nos ombros do Harata. Ela foi movendo-se não tão rapidamente, mas com o propósito de quem já conhecia os caminhos pela casa que parecia um dia ter sido sua.
Erlan não gostou daquilo. Seus braços estavam cruzados, seu andar cauteloso e ancorado ao de sua irmã. Ambos seguiram Valaravas e, conforme o espaço permitia, começaram a olhar ao redor.
Tarja entrou por último, seu corpo largo, embora não tão alto quanto o dos Onatra, não foi projetado para o batente da porta. Era distintamente diferente, projetado para os corpos esguios dos Harata e dos Urbani.
Ariel ficou ao lado do irmão, seu olhar passando de Nandi para Valaravas. E era questão de tempo até que o olhar dele encontrasse o dela.
Foi ela quem quebrou o silêncio. Com uma voz medida, mas de exigência polida.
— Quem é o dono desse lugar? — Ariel disse em Silvani, moderadamente agressiva em tom.
Valaravas não reagiu imediatamente. Sua postura permaneceu inalterada, sua expressão firme, mas havia um brilho quase imperceptível no olhar e um sorriso no canto de sua boca. Um sussurro de divertimento, quase imperceptível.
— O Grêmio, na prática. Os Seldanar, na escritura. — A seriedade aparante tornou-se um divertido murmurar. — Nós, no momento. Sintam-se em casa.
O olhar de Ariel se estreitou ligeiramente. A resposta era verdadeira o suficiente para que insistir mais não levasse a nada. Pelo menos ainda não.
Erlan, no entanto, zombou, seu ceticismo sem restrições.
— Assim, do nada? Sem moeda, sem domo, sem política? — Ele quis parecer incisivo, mas o próprio argumento impedia.
Valaravas exalou pelo nariz, uma risada quase silenciosa enquanto caminhava em direção ao assento acolchoado mais próximo com uma facilidade que falava de familiaridade, de um conforto de longa data. Ele se acomodou como se o lugar sempre tivesse sido seu.
— Ah, meu caro Erlan, política aqui está em toda a parte. Podia ser o material de construção dessa casa. Ela é uma casa segura do Grêmio. — Seu olhar brilhou com um pequeno orgulho. — E vocês podem e devem sentir-se em casa, e comportar-se como tal. Caso contrário, farão perguntas, e vocês, não saberão responder.
Ele gesticulou, varrendo o braço preguiçosamente pela sala, um guia sem esforço por um lugar que parecia mais uma extensão dele do que um santuário emprestado.
— Ali estão as salas de jantar, ambos os lados, com cozinhas adjacentes. Comam, bebam. Há uma adega abaixo, e reservas de comida, refrigeradores e estoques, que podem ser acessados por cada cozinha numa escada. Considerem, ou pelo menos finjam, que não tem nada a temer.
Ele se moveu mais, seu andar sem pressa, as pontas dos dedos roçando as bordas dos móveis ao passar, como se se familiarizasse novamente com uma velha memória.
— Aqui ao fundo estão escritórios. Há terminais ali, que estão ligados aos bancos de dados do Grêmio, como em Magenta, abertos a exploração. Bem mais privativos, talvezes. — Ele disse piscando para Ariel.
Então, com facilidade deliberada, ele se refestelou no sofá. Sua postura, como sempre, era uma performance: um braço jogado sobre o encosto, os dedos batendo ociosamente contra a madeira polida. Lazer tecido em controle.
— E por todos os lados temos excelentes sofás. Urbani e Harata adoram sofás. Temos de todos tipos. — Ele riu, um som baixo e aveludado, satisfeito em sua diversão silenciosa.
— Toda essa riqueza e não tem nenhum Vistador Elétrico? — Ariel perguntou com uma zombaria do luxo e um certo ceticismo.
— A Fáscia não usa Vistadores Eletrônicos há muitos anos. O sistema de conteúdo por demanda é central, tem o equipamento na área de manutenção junto com as baterias de carbóleo e o reator solar, e pode ser visto em qualquer terminal pela casa, individualmente. Se vocês gostam, divirtam-se.
Nós, Harata, preferimos assistir as pessoas na rua, e as informações relevantes que nós mesmos passamos uns pros outros. Os Urbani aqui pegaram esse costume.
Do outro lado da sala, Nandi o observava pelo canto do olho, espelhando sua diversão de uma maneira mais silenciosa e suave. Ela já estivera ali antes. Não nas mesmas circunstâncias, não com esses mesmos companheiros, mas já havia percorrido esses corredores, respirado esse ar. Foi aqui, nesta cidade, que sua vida recomeçou. Foi ali que sentiu pela primeira vez os estímulos do espírito, do propósito, depois de quase se perder. Aqui, dentro dessas paredes, ela fora vista, não apenas como mais uma convidada, mas como alguém que era o coração de um Harata e companheira de intimidade da filha da Grande Mãe da Fáscia. Ela era Nandi, sua própria pessoa, na Fáscia.
Os outros trocaram olhares, inquietos. Haviam entrado em algo maior do que eles, em correntes que ainda não entendiam. O peso disso pairava sobre eles, não dito, mas presente. Eles poderiam não conhecer os detalhes da história de Nandi e Valaravas, mas o clima deixava óbvio, a história no barco era mais verdadeira do que pensavam, e ainda assim deixou grande parte da verdade de fora. Por enquanto, eles entrariam no jogo. Por enquanto, eles escutariam.