A Chegada

Mais algumas horas de boa comida e conversa informal, e Lumi e Kivi já eram praticamente família. A última hora viagem já se aproximava, e eles estavam já acomodados em suas poltronas só esperando algum aviso.
— Caros amigos, estamos nos aproximando do Zhefaq. Queiram retornar aos seus assentos, travar seus cintos de segurança e aguardar o atracamento na doca do Zhefaq. Em alguns momentos estaremos travando as portas para maior conforto e segurança. Obrigado.
Como um leve sopro, a porta se fechou, e estava novamente o silêncio com o qual Lumi já esperava ser agraciada. Ela já estava mais ambientada com essa dinâmica de viagem, mas tudo que Kivi havia dito ainda marinava sua mente com perguntas sem respostas.
Os pensamentos voavam e ela nem percebeu o tempo passar até que Kivi chamou sua atenção que estava na hora de desembarcar.
O processo foi similar ao Khara, e era só entrar no elevador, esperar um pouco, passar pelo salão, passar pelo corredor com os soldados armados, e achar o guichê com os vidros escurecidos e os dispositivos de leitura. Achar sua cor, seguir a linha. Já havia virado a rotina de Lumi, agora com Kivi para acompanhá-la.
O Zhefaq era imponente, mas se tinha menos de um terço do tamanho do Khara era muito. E não tinha torres impressionantes.
O mesmo esquema, seguir a linha, achar o lugar, esperar as portas abrirem, entrar no trem.
Mas esse era diferente.
Definitivamente mais velho que qualquer dos outros trens. Os Onatra estavam pelo lado de fora, soldados, de guarda, mas imóveis em seus postos.
Chegando na porta, agora uma placa de metal rebitada na lataria do trem com o símbolo da Eletrochinia, e a dica que era ali que iam entrar.
Ao entrarem, Kivi sorriu, mas um sorriso conhecedor e mais maroto do que divertido. Ele virou-se e rumou para as poltronas largas e confortáveis, mesmo que de uma certa forma simples e antigas. Muito vazias. Poucos eram os passageiros ali. Nem todos que vieram com eles no Verme seguiram o mesmo caminho.
Lumi estava distraída observando o movimento fora quando percebeu que Kivi já havia entrado. Ela se virou e fez um pausa ao entrar.
Os olhos foram a primeira coisa que Lumi percebeu. A mulher dentro do trem tinha olhos castanho claros, o que já era uma raridade, já que Carpata e Onatra tem olhos azuis, violeta ou cinza. Os olhos daquela mulher brilhavam. Não era refletida a luz, era também um brilho que invadia a mente. Eles seguravam o olhar. Lumi olhava bem dentro dos olhos da mulher, e a mulher mantinha um sorriso como se completamente a vontade com o olhar intenso da Carpata, e seus olhos azuis como os mares gelados do nordeste de Onachinia. 
Lumi subiu vagarosamente no trem, sem conseguir tirar os olhos da mulher. Uma pele de tons escuros como pouca gente ela tinha visto na vida, mas ainda, a pele da mulher era sedosa e ao mesmo tempo com padrões de relevo que instigavam na mente a curiosidade de como se sentia ao tato.
Carpata, ela não era culturalmente inclinada a ter esse tipo de sentido, mas a mulher ali, ela criava uma curiosidade e uma sensação como se ela já a conhecesse, mas ao mesmo tempo fosse um completo mistério. 
Quando a mulher falou, simples palavras, Lumi sentiu em sua coluna, irradiando como se o som da voz da mulher percorresse sua coluna com um frio e um calor ao mesmo tempo, irradiando pelo corpo.
— Saudações. Esse é o espaço da Eletrochinia. Você pode se sentar onde quiser. Seu companheiro já está acomodado, pode seguí-lo. Eu sou Janira, e você é? - A garota disse, sob o olhar intenso da Carpata, sem demonstrar qualquer problema.
— Lu.Mi. Sim. Obrigado. Ja.ni.ra. ­— Lumi não conseguia tirar os olhos da mulher.
Ao passar por ela, Lumi quase não olhou por onde ia, observando Janira e como o uniforme de um vemelho e dourado simples e sem detalhes marcantes parecia ser feito sob medida para o corpo incrível. Ela tinha um corpo esguio, pernas e braços longos, e sempre mantinha uma postura que era irresistível não importa como ela se postasse.
Kivi estava sentado observando Lumi, com o divertimento estampado no rosto.
Lumi colocou sua mala no compartimento superior quase deixando cair enquanto estava presa olhando a mulher.
Quando sentou ao lado de Kivi, viu que ele estava com um divertimento quase infantil.
— Já voltou para o chão? — Kivi disse quase sem segurar a risada.
— Não vai me dizer que você não reparou nela! — Lumi disse, mas com a cara mais vermelha do que seus cabelos.
— Lógico que eu reparei. O trem todo reparou. Ela é Harata. Todo mundo repara o tempo todo até cansar de reparar.
A garota Carpata tomou um tempo para se recompor. Ela ainda olhou algumas vezes para a garota, que com certeza teria percebido uma ou duas vezes que ela estava olhando.
Kivi tomou um ar um pouco mais sério.
— Harata eles são assim. É o forte deles. Vai acostumando. Mas tome muito cuidado com vendedores Harata, e principalmente com os jovens Harata. Os mais velhos se contém mais. Mas os jovens, eles não sabem controlar o efeito que tem nos outros.
— Efeito? — Lumi disse, novamente olhando de relance para Janira.
— Assim como nós temos essa saúde de ferro, e os Onatra são todos fortes, os Harata são todos assim. Insinuantes. — Kivi disse tentando manter um tom sério.
— Mas eu nem gosto de mulher, Kivi. Como ela pode fazer isso? — Lumi estava perplexa.
— Ah, se eu soubesse. Mas um conselho? Evite Harata que você não conheça. É fácil saber quem é Harata, todos eles tem a mesma pele, os mesmos olhos. E o mesmo ... não sei o que. — Kivi disse agora ele olhando para Janira.
Lumi decidiu se forçar a não olhar para Janira mais, apesar de toda a vontade que tinha de olhar mais, de conhecer aquela garota, de falar com ela. Em questão de segundos que decidira, ela já havia esquecido toda a sensação, e a memória já não trazia mais o mesmo fogo. Ela lembrava do que aconteceu, mas perdera totalmente o impacto.
Lumi mudou para o outro banco, em frente a Kivi, olhando pela janela. O trem já começava sua preparação mais ruidosa para partir, e a garota estava observando as pessoas na plataforma.
Uma figura chamou sua atenção. Diferente de Janira, era um homem com os cabelos escuros e lisos, refletindo a luz como se fossem fios de vidro vulcânico polido, e olhos mais azuis do que os dela. 
Seus olhos, porém, não eram olhos como ela tinha visto antes. Eram olhos lisos, com pálpebras grossas. Uma pele clara como as dos Onatra, mas grossa, e as dobras epicânticas inconfundíveis com o resto das pessoas que Lumi jamais viu.
O homem ajeitou seus cabelos sedosos de forma a cruzar os olhos com Lumi pela distância. A sensação dela era diferente. Desconfortável. Era como se aquele homem a ameaçasse de algum jeito que ela não sabia de onde vinha. Seus olhos se desviaram por um segundo, e quando olhou na mesma direção, ele já não estava mais lá. Era como se tivesse esvanecido no próprio vento.
Lumi balançou a cabeça como se negasse a si mesmo o que aconteceu. Ela queria se convencer de que aquilo não tinha acontecido. Estava incomodada, quieta.
— O que houve? Está pálida. Viu um fantasma? — Kivi perguntou, mais em tom de piada.
— Acho que sim. Velho. Acho que sim. — Lumi virou-se para a janela novamente.
A garota estava incomodada. Estava como um mantra em sua mente tentando negar que tinha visto alguma coisa.
— Diga lá. Está começando a me preocupar. — Kivi tomou um tom mais austero.
Lumi tentou descrever o que tinha a impressão de ter visto, com mais detalhe possível, como se fosse a coisa mais surreal que a sua mente pudesse ter criado.
— Não, não é a sua mente. Você deve ter visto um infiltrador Urbani. Eles estão por toda a parte aqui e na Trifronteira. — Kivi disse com mais tranquilidade no olhar.
— Infiltrador? Urbani? — Lumi disse com uma cara cética. — Ele não parece uma pessoa. Os olhos, o cabelo. A pele. Ninguém tem olhos daquele jeito.
— Lumi, milhões deles vivem ali ao sul da fronteira em Onachinia. Claro que tem. — Kivi divertia-se com a garota já.
— Eu nunca vi ninguém com aqueles olhos. E ele sumiu, do nada. — Lumi disse, como se o mundo deixasse de fazer sentido.
— Os Urbani são de um povo antigo. Eles vieram do continente Ocidental faz muito tempo. Vai se acostumando, porque na Trifronteira eles estão pra todo o lado. As vezes parece que são donos do lugar. E se os Harata deixassem, talvez até fossem. — Kivi riu-se.
— E como eu nunca havia visto nenhum? — Lumi seguia com seu mantra de negar seus olhos.
— Os Urbani e os Silvani são como nós e os Onatra. Mesmos antepassados, povos diferentes. Mas eles não convivem conosco, porque eles são a causa da Grande Guerra. A Guerra Civil entre os Silvani e os Urbani que virou a Grande Guerra com os Onatra, e o Consórcio. Onachinia estava longe da Guerra, e seguiu longe ... deles.
— Silvani? — Lumi já percebia outro Iceberg se formando.
— Esses eu vou deixar pra você conhecer depois. Nem as 11 horas de viagem no Verme ia ser o suficiente pra falar deles. — Kivi riu-se. — Uma vida não teria tempo suficiente, creio.
Lumi virou para a janela. O vasto nada que se estendia no caminho. De costas para o movimento do trem, ela não via os sinais de Trifronteira no horizonte. Apenas o árido argiloso terreno que a Tundra deu lugar antes de chegarem nos muros do que seria a sua nova casa.
Entre imaginação e memória, Lumi foi trazida para a realidade quando trem passou pelo túnel no espesso muro da Trifronteira. Ao sair, a paisagem mudou rapidamente. Ruas movimentadas, motos, carros, bicicletas, gente, como uma maré de movimento. 
O cheiro de perfume, comida, suor e ferrugem assaltando os sentidos da garota de um golpe.
O barulho que ela havia desacostumado por toda aquela viagem voltou como uma vingança. Uma cacofonia de sons, cheiros, cores, pessoas. Carpatas, Harata, que ela reconhecia, mais outros povos que ela nunca imaginaria existirem.
Gente com roupas brilhantes de cores vivas, gente com roupas parecidas feitas com panos velhos, porém de uma elegância rústica que ela não entendia. Gente vestida com roupas soltas e frescas, gente vestida com roupas pesadas e estranhos tipos de panos na cabeça. Entre uns e outros, gente que parecia os tais Urbani, mas nem tanto, aqui, ali, de relance.
Carros, ônibus, uns sem cores, sem chamativos, outros enfeitados, desenhados, marcados com logotipos.
Era um caos que tinha uma certa ordem, mas que ela parecia intuir, sem realmente ver. Tudo ali era confuso. Não havia nada que ela só uma coisa identificável. Lojinhas e barracas que vendiam comida e roupas, logo do lado uns eletrônicos, no meio de outras que vendiam pedras e adornos. Era estonteante.
No meio do caminho, um prédio grande de muros altos trouxe a sanidade de volta à Lumi, a parece marcada como Eletrochinia. O trem diminuindo a velocidade também vagarosamente trazia a garota de volta ao chão.
Chegamos.